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Expresso

Crise financeira nos EUA

GM, Chrysler e Ford vão fechar durante um mês

Na sequência da rejeição do plano de apoio à indústria automóvel nos EUA, os principais construtores vão suspender a produção.

Alexandre Coutinho

A General Motors vai encerrar temporariamente, no final de Dezembro, três das suas fábricas no México; a Chrysler irá suspender a produção em todas as suas fábricas durante um mês; enquanto a Ford fechará dez das suas fábricas nos EUA durante três semanas.

Medidas drásticas que se explicam pelas dificuldades de liquidez que os 'três grandes' construtores enfrentam para manter as suas operações e as fortes quebras no mercado automóvel, que caiu nos últimos meses para níveis mínimos de 25 anos. Em Novembro, as vendas da GM e da Chrysler diminuíram em 41 e 47%, respectivamente, face a 2007.

O problema dos construtores norte-americanos é o mesmo de todo o sector automóvel a nível mundial: é um problema de liquidez puro. Com os mercados a registarem quebras de vendas na ordem dos 49,6% (Espanha) a 55,9% (Irlanda), apenas para citar os mais afectados na Europa, as receitas diminuem drasticamente. Essa quebra não consegue ser compensada com a reprogramação de créditos ou o recurso a novos créditos, porque as instituições financeiras não desbloqueiam liquidez para o sector.

O Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, garantiu esta semana que a sua Administração irá anunciar brevemente uma decisão sobre a ajuda do Governo aos construtores automóveis. Muitos analistas advogam que Bush poderá recorrer a uma parte dos fundos do pacote de 700 mil milhões de dólares (555 mil milhões) concedido às instituições financeiras no âmbito do Plano Paulson, mas alguns economistas, como o Prémio Nobel de 2001, Joseph Stiglitz, defendem a aplicação do 'Chapter 11', do código de falências norte-americano. Ao abrigo desta legislação, que suspende o pagamento de juros aos credores, mas permite que as empresas conservem os activos, os construtores de automóveis poderiam encetar a profunda reestruturação de que necessitam para se adaptarem ao mercado.

Desde 2005, a General Motors tem vindo a empreender acções de reestruturação, que já correspondem a nove mil milhões de dólares (€7142 milhões) de custos estruturais anuais. Devido a uma herança de décadas, os custos da GM na área de pensões e cuidados de saúde ascendeu a um total de 103 mil milhões de dólares (mais de ¤81 mil milhões) nos últimos 15 anos (7 mil milhões de dólares/¤5,5 mil milhões por ano).

Em Outubro do ano passado, a empresa chegou a acordo com os sindicatos americanos (UAW-United Auto Workers) para a transferência para um fundo gerido por estes, de grande parte dos encargos com pensões e cuidados de saúde dos colaboradores reformados. Essa transferência deverá ocorrer no início de 2010, libertando as contas da GM de um 'fardo' que tem pesado muito contra a empresa quando é comparada com outros concorrentes do sector, nomeadamente os construtores japoneses. A GM é o maior construtor automóvel do mundo (9,7 milhões de unidades vendidas em 2007), mas é apenas o quinto empregador (266 mil efectivos) do sector a nível mundial, atrás da Volkswagen (373.400), da Renault-Nissan (354.200), da Toyota (316.100) e da Daimler (272.000). Nos Estados Unidos, a GM está a proceder a uma reavaliação a vários níveis, que passa pela racionalização do número de marcas e de concessionários; pela maior consolidação das operações de produção; e redução da estrutura de custos ao nível de salários. A nível mundial, a empresa está a empreender uma série de medidas que poderão levar a uma melhoria da situação de liquidez na ordem dos 20 mil milhões de dólares (€15,8 mil milhões) no final de 2009. Mas estas acções não excluem a necessidade de um apoio de crédito de curto prazo de cerca de 12 mil milhões de dólares (€9,5 mil milhões).

Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Dezembro de 2008