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Expresso

Reunião anual do FMI/Banco Mundial

Your ID, please!

Os edifícios do FMI e do Banco Mundial encontram-se cercados por cordões policiais. Por estes dias, a paranóia da segurança atacou Washington

Caleb Jones/AP

"Atenção, precisa de alguém que o acompanhe para entrar no edifício", dizia o polícia responsável pelo detector de metais à entrada de um dos vários edifícios do Banco Mundial.

João Silvestre, em Washington

Era ainda sexta-feira de manhã, os trabalhos a sério só começavam no dia seguinte, mas medidas de segurança já eram apertadas. "Não conhece ninguém lá dentro?", insistia o segurança. Infelizmente, não. A solução foi esperar, juntamente com outro jornalista na mesma situação, pela vinda de uma funcionária das relações públicas. Ela própria acabaria por confessar que estes seguranças estavam a ser "muito rígidos".

Em Washington, os encontros anuais do Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI) são há muito conhecidas de todos. Os taxistas, que muitas vezes desempenham um importante papel de relações públicas de qualquer cidade, não só apresentam os locais de maior interesse turístico, como o Capitólio, a Casa Branca ou até o hotel Watergate, como se alongam em comentários sobre as reuniões. Um deles garantia logo na quinta-feira que no sábado iriam haver manifestações. "Há todos os anos", assegurava.

Outro taxista, mais dotado nas artes do humor, preferia brincar com a política, com algumas piadas que provavelmente usa com todos os visitante que encontra no seu táxi. "Aqui ao lado temos o Kennedy Center, ali ao fundo é o Lincoln Memorial e aquele (apontando para o obelisco) é o monumento Clinton", dizia rindo-se, numa alusão ao caso Lewinsky.

As previsões não se enganaram. No sábado, o primeiro dia oficial dos trabalhos, todo o perímetro estava selado por um exuberante aparato policial à boa maneira americana e o acesso às ruas onde se situam os vários complexos do Fundo e do Banco Mundial era exclusivo para pessoas acreditadas. Ou seja, funcionários, membros das delegações nacionais, convidados e jornalistas. Claro, depois de uma passagem pelo detector de metais e controlo de bagagens. Mas, afinal, era só mais uma barreira de segurança.

Para chegar a Washington vindo de Portugal é preciso passar vários obstáculos. Não há vôos directos entre Lisboa e a capital norte-americana. A única alternativa é fazer escalas. Já nos EUA, em Nova Iorque, ou então numa cidade europeia como Frankfurt, Paris ou Amsterdão. Em qualquer dos casos, são necessárias cerca de 12 horas.

A esta dificuldade geográfica junta-se uma barreira de segurança. Os EUA sempre foram muito cuidadosos e agora que estão em guerra as medidas são ainda mais apertadas. Além do obrigatório visto, que qualquer jornalista terá que ter à partida e que representa uma manhã na embaixada e um custo de 80 euros, é necessário responder a um questionário ainda antes de embarcar no avião com destino a território americano. Depois é preciso ter uma enorme paciência à chegada. No aeroporto internacional de Dules, que serviu de cenário ao filme "Die Hard 2" com Bruce Willis, as filas para passar na Imigração demoravam cerca de uma hora. Isto para os passageiros normais, porque as delegações dos países que se deslocaram a Washington para participar nas reuniões do FMI/Banco Mundial tinham uma via verde. Cristine Lagarde, ministra das Finanças francesa, foi uma das que beneficiou deste privilégio durante a tarde de quinta-feira.

Compreende-se num país que viveu o 11 de Setembro e está em guerra no exterior, mas poderá estar a adoptar medidas demasiado restritivas. Se não tiver cuidado, corre o risco de ter algumas consequências negativas. No sábado, o 'Washington Post' noticiava na primeira página que a política de vistos está a desencorajar a vinda de artistas aos EUA. E dava como exemplo a Halle Orchestra, uma das mais antigas orquestras sinfónicas do Reino Unido, que tinha uma digressão agendada que acabou por ser cancelar por causa dos custos dos vistos. Segundo o jornal, os 85 músicos gastariam cerca de 80 mil dólares em despesas de deslocação de Manchester até à embaixada americana em Londres, no alojamento e na emissão dos vistos.

A somar ao sistemático controlo de segurança em redor dos quarteirões onde se situam os vários edifícios do FMI e Banco Mundial, há ainda uma exagerada verificação da identificação sempre que se pretende beber uma cerveja num bar ou restaurante. Mesmo que o visado tenha mais de trinta ou mesmo de quarenta anos. Talvez os americanos tenham visto demasiados filmes e séries televisivas onde os jovens adolescentes eram interpretados por trintões como Michael J. Fox. Assim, não admira que a expressão "Your ID, please" seja repetida até quase à exaustão.