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Expresso

Reunião anual do FMI/Banco Mundial

"Quem investe em títulos não deve acreditar demasiado nas agências de "rating""

O economista garante que o pior da crise já passou e afasta um cenário de recessão nos EUA. Lembra, no entanto, que o "subprime" deve servir de lição para o futuro em matéria de agências de "rating", intrumentos financeiros complexos e regulação. Sobre as críticas às previsões do Fundo para Portugal que chegaram de Lisboa, preferiu não entrar em polémica e apenas sublinhou que foram feitas com todo o cuidado.

João Silvestre, em Washington

A crise acabou ou podemos esperar mais problemas?

A primeira fase desta crise nos mercados que começou em Agosto acabou. Isso não quer dizer necessariamente que as condições no mercado monetário tenham voltado ao normal. Foi um episódio grave que teve muitos efeitos inesperados. Os bancos centrais responderam adequadamente para conter a situação e algumas das consequências estão já ultrapassadas. Mas estamos a acompanhar atentamente para ver o que acontece.

Partilha a opinião de alguns especialistas, entre os quais Alan Greenspan, que os EUA estão em risco de recessão?

A nossa previsão para os EUA em 2008 é de manutenção do crescimento deste ano. Esperávamos que a economia americana recuperasse e voltasse para o seu potencial mas por causa deste problema adiámos essa recuperação por mais um ano.

Mas é possível esperar um cenário mais negro?

No nosso World Economic Outlook apresentamos uma probabilidade de cerca de 16% do crescimento global ser inferior a 3,5% em 2008. Claro que pensamos em possibilidades negativas e positivas. Embora o imobiliário esteja abrandar, os indicadores de emprego e exportações nos EUA não são excelentes mas são bastante bons.

Acha que essa melhoria nas exportações é já a consequência da queda do dólar?

O dólar está a cair desde 2002 e já perdeu cerca de 20% em termos efectivos (ponderado pelo comércio). Desde o início de Agosto desceu 3% em termos efectivos. Isso está definitivamente a ter efeitos. Nós prevemos que o défice corrente dos EUA recue para 5,5% em 2008. É uma descida significativa.

Essa descida da moeda americana pode ser um problema para a economia europeia?

Não necessariamente. Tem havido uma grande discussão em torno da taxa de câmbio euro-dólar, mas se olharmos para a taxa efectiva, que é medida correcta para avaliar, o euro só se apreciou ligeiramente desde Agosto. Muito menos que a taxa bilateral. A nossa previsão de médio prazo (5 anos) - não fazemos projecções de curto prazo - aponta para que o euro esteja actualmente no seu valor justo.

A recente revisão em baixa do crescimento na Europa está, portanto, mais relacionada com a crise nos mercados financeiros do que com a valorização do euro?

Exactamente. É por causa da crise nos mercados financeiros e dos seus efeitos nos bancos europeus. O último inquérito do Banco Central Europeu mostra que os bancos da zona euro estão a apertar as condições concessão de crédito. Isso é importante.

Os bancos centrais tomaram as medidas adequadas para acalmar os mercados?

Quando há problemas de liquidez no sistema, os bancos centrais têm uma tarefa difícil. Têm que fornecer liquidez sem perturbar a estrutura monetária e sem criarem expectativas de inflação. Foi exactamente o que a Reserva Federal e o Banco Central Europeu fizeram. É claro que há empresas a sair do mercado, pessoas a perder o emprego e uma grande exposição ao risco no sector financeiro.

Isso foram medidas de emergência. Mas não deveriam ter feito nada antes para evitar a situação?

É uma boa questão e é algo que temos analisar com atenção. No FMI estamos a estudar o assunto. O Fórum de Estabilidade Financeira vai apresentar alguns dados preliminares este fim-de-semana e terá um relatório na Primavera onde, acredito, apresentará algumas ideias sobre como reforçar vários assuntos, entre os quais a regulação.

Os "hedge funds" são uma preocupação? Devem ser mais regulados também?

A transparência é muito importante. Aprendemos isso este Verão. Mas antes já havia preocupações com os "hedge funds" e "sovereign wealth funds" (fundos de capitais públicos). São duas entidades que até agora não têm sido um problema.

E o papel das agências de rating?

O FMI avisou, antes da crise, que era possível haverem múltiplas revisões em baixa da dívida securitizada. E isso desempenhou um papel no Verão. As agências de "rating" devem olhar para as suas práticas e avaliar o papel que desempenham. É muito claro que, em nos acordos legais e nas práticas de negócio, o investidor final é responsável por conhecer os riscos. As pessoas devem ter cuidado. Se uma pessoa compra um carro, não acredita apenas na opinião do fabricante ou de alguém empregado pelo fabricante.

Mas estas agências supostamente deveriam ter um papel independente.

As empresas de publicidade que fazem os anúncios do carro são independentes do construtor mas trabalham para ele. Por isso, não vamos acreditar que a agência de publicidade conta a história completa.

Acha que o problema é haver um enviesamento no papel destas agências por causa da origem das suas receitas?

Essa é uma questão que temos que avaliar: a estrutura de incentivos. Devemos olhar de forma diferente para alguém trabalha para o vendedor de um bem ou activo e para alguém que é independente e compensado de forma diferente. Uma das coisas que percebemos este Verão foi que nos estávamos a esquecer disso.

É uma situação semelhante com o caso da Enron com os auditores e os analistas que continuavam a dar recomendações de compra para a empresa quando a cotação estava a desaparecer?

Temos que olhar com atenção. Quem investe em títulos não deve acreditar demasiado nas agências de "rating" que trabalham para as empresas que vendem os títulos. Não há nada escondido aqui.

Mas talvez para o pequeno investidor não seja tão simples assim?

Talvez. Há aqui várias questões interessantes e esta é uma delas.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 27 de Outubro de 2007, Economia, página 6.