Siga-nos

Perfil

Expresso

Mundial - 2010

O Adamastor existe mesmo

Apelo do futebol português ao itinerário da História teve final feliz, com uma vitória que nem em sonhos... Depois dos 5-3 de 1966, os norte-coreanos descobriram que, afinal, o Adamastor existe mesmo.

Paulo Paixão (www.expresso.pt)

Carlos Queiroz lançou o jogo de Portugal com a Coreia do Norte em bases positivas. "Prefiro falar mais em cabos da Boa Esperança do que em Adamastores. Há outros que perfilham mais essa atitude de cultivarem o espírito dos Adamastores, mas eu prefiro falar em Navegadores", disse o seleccionador nacional. 

Em campo, os jogadores interpretaram bem a estratégia. Desde o início, visaram a baliza coreana. Sob chuva intensa, após quase meia hora de ocasiões repartidas, o primeiro tento português, único até ao intervalo. O dilúvio de golos chegou na 2ª parte, com a selecção nacional a marcar meia dúzia e a desperdiçar outras tantas flagrantes ocasiões, ante um adversário completamente à deriva. 

Aconteceu o que nem a mais delirante imaginação seria capaz de prever: o mítico jogo em que Eusébio marcou quatro dos cinco golos da reviravolta (Portugal esteve a perder por 3-0) passa, agora, a arquivo morto. Na memória bem viva de portugueses estará, doravante, a maior goleada registada até ao momento na África do Sul e 7ª maior das fases finais. 

Manter os pés assentes na terra

O que muitas vezes faltou nos últimos tempos na selecção portuguesa - um jogo colectivo - foi nesta tarde uma arma nuclear da equipa das quinas, com Cristiano Ronaldo, sobretudo na 2ª parte, como principal agregador. Aliás, o capitão da equipa, eleito pela FIFA o melhor em campo, ofereceu o prémio ao companheiro Tiago, autor de dois golos. 

Com os 7-0, Portugal está a um passo dos oitavos-de-final, Carlos Queiroz readquire a tranquilidade de que necessita, os jogadores deram uma prova de competência. Num país de oito ou oitenta, difícil talvez até seja conter a euforia. 

O apelo de Queiroz à História de Portugal teve um final feliz. Dobrou-se o Cabo das Tormentas e há mesmo um caminho para trilhar em direcção ao Oriente. Neste caso, literalmente, até Durban, onde Portugal e Brasil medirão forças na sexta-feira. 

No encontro com o imaginário colectivo lusitano, foi pregada uma real partida aos norte-coreanos. Estes sabem agora que o Adamastor existe mesmo. Do lado português, feito o exorcismo do elemento mitológico, é agora tempo de continuar com os pés bem assentes na terra.