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Expresso

Mundial - 2010

Estrela cadente

Depois das críticas a Carlos Queiroz, das quais se retractou entretanto, Deco ainda tem oportunidade para sair da selecção pela mesma porta por onde entrou.

Paulo Paixão (www.expresso.pt)

A porta de saída, costuma dizer-se, é mais larga do que a de entrada. No futebol, de tempos a tempo, a escapatória estreita-se.

A saída amuada de Deco em direcção ao balneário, quando foi substituído no jogo de ontem, frente à Costa do Marfim, faz lembrar outro ostensivo abandono do relvado. Foi o de Luís Figo, no Euro-2004, no célebre Portugal-Inglaterra.

Há seis anos, a 24 de Junho, no Estádio da Luz, Portugal perdia por 1-0. Aos 74 minutos, Luiz Felipe Scolari trocou Luís Figo por Hélder Postiga. O capitão escapuliu-se rapidamente para as cabinas, sem esconder a irritação, fazendo vista grossa ao banco de suplentes. Pouco depois, a terceira substituição: Miguel por Rui Costa.

Um golo de Postiga empatou a partida, outro de Rui Costa, já no prolongamento, deu vantagem aos portugueses. Após novo tento inglês, tudo se decidiu nos penáltis, na noite de glória de Ricardo: o guarda-redes defendeu sem luvas um remate inglês e depois marcou ele próprio o golo decisivo.

A reza de Luís Figo

Na euforia dos festejos, o incidente de Luís Figo foi sanado com mestria. É verdade que o craque soube ficar calado, ou então foi simplesmente o clamor da vitória a impedi-lo de falar. Scolari, sempre pragmático e sabichão, esvaziou a polémica, garantindo que o número 7 português foi para o balneário "rezar". Na onda patriótica então vivida, verificar a veracidade de tal revelação foi sacrilégio que ninguém se atreveu a cometer.

Agora, noutro contexto, já com o duche tomado, Deco ainda lançou gasolina na fogueira. Aos jornalistas, criticou as opções de Carlos Queiroz: "A maneira de abordar o jogo depois do intervalo não foi a correcta. Fui colocado mais do lado direito e toda a gente sabe que não sou extremo".

Voltando ao épico desafio do Europeu, já sem Luís Figo e Miguel em campo, o cidadão luso-brasileiro recém naturalizado português foi, curiosamente, uma das vítimas colaterais das mexidas tácticas de Luiz Felipe Scolari: fez todo o corredor direito, inclusive a posição de defesa lateral. E desempenhou bem o seu trabalho, rezaram as crónicas. E - vem agora ao caso recordar - Deco jamais se queixou de ter sido desviado da sua posição natural.

Ainda a tempo?

Já hoje, o médio português fez mea culpa, dizendo que não teve "intenção" de "colocar em causa a liderança e as decisões" de Carlos Queiroz. Justificou-se ainda pelas palavras "proferidas a quente".

Deco, na trajectória descendente da carreira, já fez saber que abandona a selecção após o Mundial. Se Carlos Queiroz lhe der a mão - ou melhor dizendo, face aos ecos sobre problemas na África do Sul, se Queiroz tiver mão no balneário -, talvez volte na segunda-feira, frente à Coreia do Norte, ao lugar onde mais gosta de jogar.

Então se verá se Deco ainda vai a tempo de se despedir da 'equipa das quinas' pela mesma porta por onde entrou.