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Expresso

Mundial - 2010

A lição italiana

Pode elogiar-se a Itália? Pode, certamente, após ler com atenção. Campeões do mundo souberam cair de pé. Pretendentes à sucessão, sobretudo os de menor pedigree, têm de aprender com os clássicos.

Paulo Paixão (www.expresso.pt)

Os últimos 20 minutos do Itália-Eslováquia foram um regalo para os sentidos. Segundo as crónicas, tratou-se da exceção aos 70 minutos anteriores. E a antítese dos dois primeiros jogos da squadra azzurra, com Paraguai e Nova Zelândia, que terminaram empatados. 

Com efeito, foi uma Itália pastosa que iniciou o Mundial. Repetiu a dose contra uma esforçada equipa da Oceânia, prosseguiu no mesmo ritmo no decisivo jogo. Só acordou perto do fim. Demasiado tarde. 

Mas quem gosta de futebol e pensa que percebe alguma coisa é impossível ter ficado indiferente àqueles 20 minutos: arrebatamento, suspense, alterações no marcador, jogadores a disputarem cada lance como se fosse o último. 

Superação dos limites 

A perderem por 1-0, os italianos arregaçaram as mangas. De banais trocas de bola a meio-campo ou de lançamentos de linha lateral criavam jogadas de perigo. Cada homem jogando nos limites, mas sempre com um forte sentido coletivo. Atletas voluntaristas e solidários. Um espírito de sacrifício a toda a prova, bem espelhado nos rostos. 

Uma otimização dos recursos técnicos, jogadas diversificadas, sempre em luta contra o tempo. Até o adversário, embalado no ritmo frenético, quase de baliza a baliza, prescindiu do antijogo. 

Naqueles últimos minutos, os transalpinos nunca se deram por derrotados. Apesar de terem levado vários socos: mais dois golos eslovacos; erros próprios, como o que originou o 3-1, consentido após um lançamento de linha lateral; decisões injustas do árbitro.  

A tudo isto foram reagindo os italianos, levantando-se do chão incentivados pelos companheiros no banco. Ainda marcaram dois golos e a pouco segundos do final esteve à vista o 3-3, que daria o apuramento.  

Dignos vencidos 

Ao longo da sua história, a squadra azzurra salvou muitas partidas com um espírito assim. Desta vez não deu. Mas o seu ADN futebolístico, raramente vistoso mas muito eficaz, fez prova de vida. Infelizmente para eles, somente por uma vintena de minutos. 

Os campeões (na foto, Maggio e Cannavaro) caíram de pé. Rever os últimos 20 minutos do jogo é sentir a essência do futebol italiano

Os campeões (na foto, Maggio e Cannavaro) caíram de pé. Rever os últimos 20 minutos do jogo é sentir a essência do futebol italiano

Bernat Armangue/AP

Após o derradeiro apito do árbitro, nova lição italiana, credora de elogios. O capitão Fabio Cannavaro, o mesmo que há quatro anos ergueu a taça de campeão do Mundo, abeira-se de companheiros prostrados e aos soluços. Ergue-os e conforta-os com um abraço.  

O treinador, Marcello Lippi, deu o peito às balas, assumindo todas as responsabilidades pelo fracasso da campanha. O guarda-redes Gianluigi Buffon, um dos históricos (praticamente não jogou, devido a lesão), considerou justo o prematuro regresso a casa.  

Nem um queixume, quanto mais críticas desbragadas ou desculpas esfarrapadas sobre a equipa de arbitragem. 

Estofo de campeão 

Os campeões caíram de pé. Rever os últimos 20 minutos do jogo é sentir a essência do futebol italiano. É perceber como ao longo da história ganharam muito mais do que perderam - e as razões pelas quais voltarão certamente a ganhar; e é perceber também, pelo contraste com a restante prestação neste Mundial, as razões pelas quais fizeram as malas. 

Os campeões caem de pé. Vem esta recordatória muito a propósito, quando a prova está na fase decisiva: tudo para o ganhador, nada para o perdedor, como bem sintetiza Carlos Queiroz.

Nos Mundiais ganham os melhores, que podem nem ser os da nota artística mais elevada. Vencem os que na hora H encontram as respostas adequadas. Triunfam os mais aptos - como nos oitavos-de-final já foi demonstrado eloquentemente por Alemanha, Argentina e Brasil. 

Na África do Sul, os campeões em título souberam perder. Os candidatos à sucessão têm, simplesmente, de saber como ganhar.