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Expresso

Mundial - 2010

A iniciação de um líder

No processo de consolidação do capitão de equipa, Cristiano Ronaldo, num verdadeiro líder haverá, certamente, um antes e um depois de 21 de Junho de 2010

Franck Robichon/EPA

Há quem diga que a Cristiano Ronaldo só falta a paciência para ser um grande líder. Assim sendo, o jogo com a Coreia do Norte marca uma viragem e é uma etapa na afirmação do capitão português.

Paulo Paixão (www.expresso.pt)

Um dos mais conceituados jornalistas espanhóis, Santiago Segurola, disse ao Expresso, antes do Mundial, que para Cristiano Ronaldo "ser um grande líder" só lhe falta a "paciência". Segurola, adjunto do director do diário desportivo "Marca", é um observador atento do Real Madrid e, como tal, um bom conhecedor da estrela portuguesa. 

Na primeira parte do jogo com a Coreia do Norte, ainda se viu um Cristiano Ronaldo por vezes sôfrego, pela falta do golo que perseguia. Em consequência, algumas vezes foi notória a tentativa de resolver individualmente jogadas que pediam soluções de conjunto. 

Algo se terá passado ao intervalo. Após o recomeço, e com o resultado a engordar rapidamente (4-0), viu-se um Cristiano Ronaldo como raramente há memória. Embora ainda buscasse desalmadamente o fim dos 16 meses de jejum (só quebrado ao minuto 88), em muitos momentos o avançado português assistiu companheiros em melhor situação. 

O paciente português

O que era um postal televisivo de outros ocasiões - Cristiano Ronaldo de rosto fechado por não ter a bola - transformou-se num sorriso largo, mesmo após o esbanjamento de sucessivas oportunidades, por ele e por outros. A ansiedade, quando não o amuo, deram lugar à paciência, à bonomia até. ´

Com o resultado tão dilatado, a alguém que por natureza tem a baliza nos olhos, até seria consentido algum egoísmo. Ronaldo preferiu o interesse colectivo ao individual.  Quando CR fez uma tabelinha com Fábio Coentrão e este, após uma cavalgada de área a área, falha por um triz na cara do guarda-redes, é um sorriso malandro que Cristiano Ronaldo exibe. Uma jogada assim merecia melhor sorte. 

Minutos depois, o próprio Cristiano remata à trave. O sorriso é o mesmo, e até o vernáculo soltado no momento reforça a boa disposição. 

Cristiano Ronaldo ofereceu a Tiago o prémio de melhor homem em campo, que a FIFA lhe atribuíra

Cristiano Ronaldo ofereceu a Tiago o prémio de melhor homem em campo, que a FIFA lhe atribuíra

Helmut Fohringer/EPA

Não foi só nos momentos de prazer que o capitão se mostrou confortável na sua pele. Quando, aos 69 minutos, Hugo Almeida levou um justo cartão amarelo por insistente discussão com o árbitro, foi Simão Sabrosa quem primeiro o foi afastar, para evitar males maiores.

Mas foi o homem da braçadeira quem se abeirou depois de Hugo Almeida: de modo discreto mas muito firme (como se percebe pelas imagens), Cristiano Ronaldo puxou dos galões e admoestou o companheiro. 

Um gesto fidalgo

Para o rescaldo do jogo estava guardado o melhor momento (fora a elevada performance plástica do 'golo da mochila'). Sabedor da sua manifesta superioridade sobre os demais, Cristiano Ronaldo ofereceu a Tiago o prémio de melhor homem em campo, que a FIFA lhe atribuíra. Cristiano considerou que Tiago foi o Man of the Match

Um gesto generoso, mas que antes de ser generoso é nobre, feito por alguém que é, definitivamente, o primus inter pares

Particularmente no futebol português, o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira. Será necessária uma partida mais viva, complicada mesmo - a cortesia asiática, que só cometeu três faltas, é uma vez sem exemplo -, para ver como responde o nervo (e os nervos) de Cristiano Ronaldo às vicissitudes do jogo, desde as naturais às provocadas deliberadamente por adversários.  

É preciso esperar para ver, portanto. Mas no processo de consolidação do capitão de equipa num verdadeiro líder haverá, certamente, um antes e um depois de 21 de Junho de 2010.