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Expresso

Mundial - 2010

A carroça coreana

A Coreia do Norte erguerá certamente a Portugal um muro idêntico ao levantado ao Brasil. Para os Navegadores, esgota-se o tempo das palavras e chega a hora do jogo jogado.

José Mourinho criou a expressão "autocarro à frente da baliza". Na Liga dos Campeões, no memorável Barcelona - Inter de Milão, o técnico português esmerou-se na sua criação: a barreira erguida aos catalães mais parecia um camião TIR, com atrelado.

No Brasil-Coreia do Norte, durante algum tempo pairou a ilusão de que o muro norte-coreano poderia resistir ao ataque brasileiro. A discreta equipa de jogadores desconhecidos montou uma apertada teia defensiva. Mas era à medida das suas capacidades: muito rudimentar, a lembrar mais uma carroça do que um autocarro.

A barreira aguentou 55 minutos. Sem precisar de acelerar, fiel aos processos de jogo, confiando na qualidade individual ou na eficácia dos movimentos colectivos, o Brasil marcou. Uma e duas vezes. A ilusão da carroça coreana foi só isso mesmo.

Os que seguem em frente                        

Neste Mundial já houve autocarros de sucesso. Notável, e à frente de todos, o da Suíça. A equipa bateu um recorde negativo de posse de bola na história dos mundiais, deu todo o campo à Espanha, mas derrotou os campeões da Europa. Improvável foi a resistência da Nova Zelândia ante a Itália, forçando os campeões do Mundo ao empate. Heróico, o desempenho da Austrália frente ao Gana, com a selecção da Oceânia a resistir durante mais de uma hora com menos um jogador.

Mesmo os autocarros não são para quem quer, mas para quem pode (ou em certo dia tem do seu lado a estrelinha da sorte). Só que a quem pode verdadeiramente nem os autocarros são obstáculo.

Com efeito, na história dos mundiais ganham os melhores, ainda que nem sempre os mais vistosos. A Itália tem escrito páginas ímpares desta escola. A própria Alemanha nunca precisou de grandes exibições para somar triunfos. Inclusive o Brasil, desde há década e meia, sacrifica parte da estética à eficácia.

Na África do Sul, a Argentina tem aliado aos resultados uma elevada nota artística. O Brasil tem-se imposto pela eficácia e pela aparente facilidade com que supera obstáculos, como se confirmou com a Costa do Marfim. Sem grandes alardes, a Holanda já está na segunda fase. Com competência, Uruguai e México também estão quase lá.

Novas oportunidades

Mas a fase de grupos tem uma lógica de reinserção. Apesar de já terem desperdiçado uma ou duas jornadas, alguns membros da nobreza habitual das fases finais terão ainda oportunidade para seguir em frente. É o caso de Alemanha (um exemplo de bipolaridade), Itália (dentro da sofrível mediania que já muitas vezes a balanceou para resultados notáveis) e Inglaterra (uma promessa duplamente adiada). Já quase impossível é a tarefa francesa, em estado de implosão, e que dependeria sempre do suicídio futebolístico de terceiros.

E a Portugal - que antes do Mundial começar teve jogadores e responsáveis a sonhar em voz alta com a final, e que desde a primeira jornada vive em jogos florais -, o que lhe resta? Portugal só terá de ultrapassar a carroça coreana. Traduzir os discursos em resultados, passar do jogo falado ao jogo jogado. Se a muralha asiática for demasiado alta, então tudo terão sido palavras vãs. E um equívoco bem português: colocar a carroça à frente dos bois.