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Expresso

Mundial - 2010

20 mil kms ao volante para ver a selecção

O trio comprou uma carrinha e partiu no dia 25 de Abril, rumo à África do Sul

Atravessaram África numa carrinha com 30 anos e 180 litros de vinho, cerveja e aguardente a bordo. Estão vivos e dormem à porta do hotel da selecção. Para quê? "A Federação prometeu-nos bilhetes."Clique para aceder ao dossiê Mundial-2010

Rui Gustavo (www.expresso.pt)

Estavam há quatro dias à espera da "princesinha", como chamam à Mercedes Benz 613 decorada com fotos de jogadores e já era noite quando a receberam - só se pode entrar no Sudão por ferry, uma viagem de 27 horas e a carrinha foi num barco e os homens noutro. No Sudão ninguém conduz à noite, mas eles seguiram. "Andámos 100 quilómetros com dois jipes de ingleses atrás de nós quando fomos ultrapassados por uma pickup com uns seis tipos e uma metralhadora atrás. Mais à frente pararam e barraram-nos o caminho".

Carlos Brum, Jorge Franco e Joaquim Batista conheceram-se na Coreia, durante o Mundial em que João Vieira Pinto deu um soco num árbitro e Portugal caiu na fase de grupos. A selecção descia ao ponto mais baixo de sempre e estes três homens decidiram passar a segui-la por todo o lado. Este ano juntaram dinheiro, compararam uma carrinha, esconderam 180 litros de vinho, cerveja e aguardente no meio de camisolas e cachecóis de Portugal e partiram no dia 25 de Abril, da Torre de Belém.

20 mil quilómetros em mês e meio

Os três bebem aguardente à porta do hotel da selecção, perante o ar espantado e divertido de meia dúzia de polícias, e Joaquim, que tem uma empresa de espaços verdes, continua a história: "Começaram a gritar que eram polícias e que queriam entrar na carrinha. Mas não tinham fardas, pedi-lhes a identificação, disse-lhes que erámos conhecidos em todo o mundo e não sei bem porquê lá se foram embora".

Num mês e meio fizeram 20 mil quilómetros e atravessaram Espanha, França, Tunísia, Líbia, Egipto, Sudão, Etiópia, Quénia, Tanzânia, Moçambique e África do Sul. As garrafas escaparam todas, apesar das várias revistas à carrinha e só em Moçambique tiveram mesmo azar. "Fomos para uma almoçarada num resort e a janela ficou aberta", explica Carlos Brum, que ganha a vida a importar jóias da Ásia. "A culpa foi do Jorge, que se esqueceu de fechar tudo". Voaram 50 CD, um computador, quatro pares de ténis, um telemóvel, um pacote de manteiga e outro de arroz. A viagem custou 60 mil euros, parte é coberta por patrocínios e há uma recompensa garantida: "A Federação prometeu-nos bilhetes", diz Joaquim.

Jorge, dono de um hotel de 18 quartos em Setúbal, mostra o telemóvel, orgulhoso, com uma mensagem de Carlos Queiroz "Well done, rapazes"."E o Carlos Godinho ligou-nos quase todos os dias". Os jogadores podiam "ligar-nos mais, mas no outro dia o Bruno Alves passou por nós, fez fixe com o dedo e eu senti que ele nos achava uns malucos com tomates".