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Expresso

Cannes 2010

Viagem secreta

Juliette Binoche no novo filme de Kiarostami

Abbas Kiarostami foi a Itália rodar "Copie Conforme", com Juliette Binoche. Um candidato à Palma de Ouro.

Francisco Ferreira, enviado a Cannes (www.expresso.pt)

"Copie Conforme", primeiro filme de Kiarostami fora do seu Irão natal, é uma história de amor na Toscânia. Pode dizer-se que, aparentemente, é uma história de amor igual a tantas outras. Está baseada nos mesmos clichés do romanesco. Podia ser uma comédia sentimental americana. Mas não é, à partida, filme fácil de colocar no planeta Kiarostami. E o romanesco, influenciado por um filme caro a Kiarostami ("Viagem a Itália", de Rossellini), evoluirá de forma completamente inesperada.

Estamos longe dos actores amadores que Kiarostami invariavelmente transforma, desde os anos 70, nos heróis das suas ficções persas: em "Copie Conforme", produção europeia, há uma estrela francesa (Juliette Binoche) e um barítono britânico (William Shimell) no elenco.

O ambiente é irremediavelmente burguês e intelectual: esta é a história do encontro entre James (Shimell), escritor britânico que vai a Itália apresentar um livro de ensaio (valerá o original de uma obra de arte mais do que a sua cópia?) e uma galerista francesa (a personagem de Binoche não tem nome), que leu esse livro e está na conferência com vontade de conhecer o seu autor. Provavelmente, com vontade de se apaixonar por ele.

Passa-se tudo num domingo, durante um final de manhã e um final de tarde. A galerista e o escritor conhecem-se e esta convida-o para um passeio, de Arezzo a Lucignano. Neste momento, já se notou que o homem, para lá do seu charme, é de um narcisismo intolerável. A mulher está caída por ele. O terreno é amoroso e tudo pode acontecer. Um flirt? Uma grande paixão? No filme mais palavroso e poliglota de Kiarostami (inglês, francês, depois italiano...), o jogo começa por aqui, pelo sabor das palavras.

Original ou cópia?

O título, o seu fundo filosófico e estético, começam a tornar-se na maior ideia do filme quando, de repente, num restaurante típico da Toscânia, aquele casal começa a tratar-se por 'tu'. E a imitar um casal que não existe. Sem flash-backs. No mesmo espaço e no mesmo tempo. A mulher e o homem, afinal, estão casados há 15 anos. Têm um filho. Discutem. Não deixam de ser gentis - mas a gentileza pode tornar-se uma coisa insuportável. Acreditamos no original, ou na cópia? "Copie Conforme" é a história de um encontro ou de uma separação? Fala de uma tarde domingueira na Toscânia ou de todas as idades da paixão?

Não se esperava de Kiarostami este 'salto no vazio', assim tão lynchiano, com um casal que, afinal, nos enganou: ainda mal entrámos no romance e já as personagens estão a sair dele. A ficção nada conta aqui: o que importa para Kiarostami é que acreditemos no simulacro. Numa vida que se imita e em que a cópia não é inferior ao original.

Há um momento em que a personagem de Juliette Binoche, pronta a seduzir James, vai a uma casa de banho pôr batôn e uns brincos da mesma cor. É um plano frontal (na foto), ela olha para a câmara, que para ela é um espelho - e o espectador está do outro lado. Mais tarde, James terá um momento semelhante. Ficámos a pensar neste espelho e na imagem reflectida. Para concluir que "Copie Conforme", no fundo, é a história de dois rostos que estão frente a frente, mas deixaram de ver-se. Não é um happy end.

Copie Conforme de Abbas Kiarostami (Competição)

http://www.youtube.com/watch?v=JM-jqyL3eHQ

 

 

  1. Festival de Cannes (em português)

  2.  

  3. Informação sobre a competição

  4.  

  5. Informação sobre o "Un Certain Regard "

  6.  

  7. Quinzena dos Realizadores (em pdf)

  8.  

  9. Semana da Crítica

  10.  

  11. Cannes 2009