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Expresso

Cannes 2010

Morto pela morta

Pilar López de Ayala: a morta que sorri; a Angélica de Manoel de Oliveira

"O Estranho Caso de Angélica", história de um fotógrafo siderado pelo rosto de uma mulher morta, é um filme de assombrações. Ghost movie que Manoel de Oliveira rodou aos 101 anos é magnífico e inaugura esta noite a secção "Un Certain Regard".

Francisco Ferreira, enviado a Cannes (www.expresso.pt)

A história vem de longe. Em 1952, durante a década mais miserável da história do cinema português, Manoel de Oliveira escreve o guião de um filme chamado "Angélica". O filme não se consegue fazer. Manoel de Oliveira não consegue filmar. No entanto, o guião, bem como a sua découpage (que tem ideias de génio), torna-se documento precioso.

"Angélica" contava a história de Isaac, judeu fugido das perseguições nazis e fotógrafo instalado em Portugal depois da II Grande Guerra. Numa estranha noite, Isaac é chamado de urgência por uma família rica da Régua. Pedem-lhe que faça o derradeiro retrato de uma das filhas da família, Angélica, jovem mulher, morta pouco depois do seu casamento.

Chamado à casa enlutada, Isaac prepara-se para o seu trabalho. Mas eis que fica siderado pela beleza da falecida. E quando finalmente fotografa Angélica, no momento em que faz a focagem, parece-lhe que a alma dela lhe está a sair do corpo. Como um sopro. Problema técnico da máquina fotográfica? Ou antes problema espiritual?

É esta a linha de partida do argumento dos anos 50 e, agora, do filme que Manoel de Oliveira rodou, enfim, aos 101 anos de idade, quase seis décadas volvidas sobre o texto original.

Manoel de Oliveira

Manoel de Oliveira

Fantasmas

Recheado de truques de Méliès, com o fantasma de Angélica (Pilar López de Ayala) a invadir os planos e a assombrar a vida de Isaac (Ricardo Trêpa), "O Estranho Caso de Angélica" é um filme denso e misterioso sobre o poder do cinema, a sua representação, a sua relação com a verdade e a mentira. Uma viagem - sempre arriscada - ao além. A procura de um amor absoluto que só se encontra depois da morte.

Para os olhos do fotógrafo, a morta ganha vida. E sorri, como se ela fosse um desejo impossível, mas verdadeiro. "O Estranho Caso de Angélica" é um filme de almas penadas e de atracções fatais. Um elogio ao erotismo, à paixão e à vida depois da morte, "essa morte sobre a qual nada se sabe, pois ninguém de lá voltou para contar", como em tempos disse Oliveira.

E nunca pensámos que uma canção popular como a "Oliveirinha da Serra" pudesse, afinal, naquelas terras do Douro, esconder a história de um amor louco. Este "estranho caso" que levará Cannes, novamente, a ajoelhar-se perante a mestria de Manoel de Oliveira, não é outra coisa. Sublime.

O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA de Manoel de Oliveira (Un Certain Regard)

  1. Festival de Cannes (em português)
  2. Informação sobre a competição
  3. Informação sobre o "Un Certain Regard "
  4. Quinzena dos Realizadores (em pdf)
  5. Semana da Crítica
  6. Cannes 2009