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Cannes 2010

Cannes 2010: A Palma de Ouro dos nossos desejos

Charlotte Gainsbourg entrega a Palma de Ouro a Apichatpong Weerasethakul

O tailandês Apichatpong Weerasethakul - mais conhecido por "Joe" - triunfou no Festival de Cannes com uma obra-prima absoluta: "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives."

Francisco Ferreira, enviado a Cannes (www.expresso.pt)

"Este filme tem seis bobinas e cada uma delas foi rodada num estilo diferente e num local diferente. 'Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives' será também um dos últimos filmes a ser rodado em 35mm na Tailândia. Fala-nos da extinção de espécies, de culturas, de desejos, de fantasmas, da extinção da capacidade de sonhar - e fala-nos também, à sua maneira, da extinção do cinema que eu amo", disse-nos "Joe" em entrevista que há-de vir.

Quem é Apichatpong, esse cineasta de 'nome impronunciável' a que Cannes se rendeu esta noite, é mais que certo, pela presença divina de Tim Burton no júri? O autor de uma obra desarmante, audaz, jovem, iniciada no ínício dos anos 90 ("Joe" não completou ainda 40 anos). Um dos grandes (talvez o maior) dos cineastas asiáticos do momento e aquele que melhor aponta um caminho, uma possibilidade para o futuro, entre cinema e arte contemporânea ("Joe" formou-se em Chicago e é em simultâneo realizador de cinema e artista plástico, sem que o seu trabalho se distinga entre um e outro terreno).

Começou por ser notado pela sua segunda longa-metragem, "Blissfully Yours", de 2002, estreada aqui em Cannes. Em 2004, voltou a deixar a Croisette de boca aberta com "Tropical Malady", Prémio do Júri do festival desse ano. "The Syndromes and a Century" (2006), o seu melhor filme até à aparição deste extraordinário "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", era igualmente pessoal e íntimo. Influenciado pela biografia de "Joe", filho de dois médicos de um hospital da província da Tailândia, convocava ao mesmo tempo o passado e a floresta (a floresta tão importante em "Tropical Malady" e no novo filme), uma biografia e a história do cinema, uma história recheada de espectros - é esta a família de "Joe."

Transmigração de almas, reencarnação e sonho misturados com a história de um país tão amável e de criaturas tão amáveis - e porém novamente a ferro e fogo e à beira de uma guerra civil? Vejam-se as notícias que trazem agora a Tailândia às bocas do mundo... Parecem coisas incompatíveis, mas são possíveis no cinema de Weerasethakul. Atrás da câmara, há o olhar de um sensualista que espreita. Um olhar não linear entre a realidade e a ilusão. Nesse olhar, são a infância e o cinema - eternos aliados - os peões que estão em jogo.

O tio Boonmee

A personagem principal de "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives" sabe que vai morrer. Vítima de doença renal irrecuperável, Boonmee é alguém que escolheu retirar-se para a floresta, para o nordeste da Tailândia, esperando aí pelos últimos dias na companhia dos seus. Boonmee é um homem flagelado pelo seu passado. Um passado de guerra, cheio de cadáveres ("os comunistas e os mosquitos que eu matei...", diz ele). É uma daquelas personagens de tal modo complexas que podiam representar um país inteiro, toda a história contemporânea da Tailândia que agora voltou a mergulhar no escuro. Acompanham Boonmee a sua irmã, o seu sobrinho Tong e um empregado.

Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives

Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives

Do outro lado do espelho

Mas "Joe", que, tal como Tourneur, acredita em almas penadas e na transmigração destas entre humanos, plantas, animais e... fantasmas, não tarda a levar-nos para uma concepção da natureza e para uma expressão cinematográfica onde é ténue a fronteira entre a vida humana, animal e vegetal. Mergulhado numa extraordinária máquina do tempo e numa mise-en-scène majestosa, "Joe" permite-nos ver, de Boonmee (o tal homem do título que é capaz de rever as suas vidas passadas), o que ele é e o que terá sido: um búfalo, uma princesa? O fenómeno é extrasensorial. E será (tal como no filme de Oliveira, curiosamente) um fenómeno definitivamente paranormal quando, a Boonmee, lhe aparecem os fantasmas da sua esposa morta e, mais tarde, do seu filho, transformado num macaco-fantasma de olhos vermelhos que mete medo ao susto. Todos se sentarão à mesma mesa nesta elegia panteísta, todos habitarão o mesmo espaço e o mesmo tempo, chamem-lhes da infância e do regresso ao passado, chamem-lhes de uma magia negra ou da maldição de uma violência política bem presentes.

Uma questão de justiça

"Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives" é um filme siderante, de carícias, belo de secar o Mediterrâneo. Superiorizou-se a tudo o que a competição de Cannes mostrou este ano. E ganhou a Palma de Ouro (surprise!), colocando finalmente Apichatpong Weerasethakul, cineasta praticamente desconhecido em Portugal, no panteão dos grandes que ele merece.

Outros prémios

Outro desconhecido em Portugal, o francês Xavier Beauvois, realizou ao quinto filme (nenhum deles estreado em salas lusas) um filme de duas faces, a dos homens e a dos deuses, inspirado numa tragédia: a do massacre de sete monges católicos decapitados nas montanhas argelinas dos anos 90, às mãos de fanáticos muçulmanos. "Des Hommes et des Dieux", prova das atrocidades humanas praticadas em nome da religião, filme muito sério sobre a resistência do corpo perante um combate que é espiritual, venceu o Grande Prémio, o galardão mais importante de Cannes depois da Palma.

Mathieu Amalric inventou um 'cabaret' generoso e fraterno em "Tournée" e saiu de Cannes com o prémio de Melhor Realização.

O chadiano Mahamat-Saleh Haroun, único representante africano da competição, ficcionou as desgraças de "um país em que não há quase nada" (tal como o cineasta referiu na cerimónia) na história de um velho empregado da piscina de um hotel que vê o seu mundo desabar com a ameaça do desemprego e, mais tarde, com a chamada do seu filho único para a guerra. O filme de Haroun chama-se "Un Homme qui Crie": venceu o Prémio do Júri.

Javier Bardem e Elio Germano dividiram o Prémio de Interpretação Masculina pelos seus trabalhos (respectivamente) em "Biutiful", do mexicano Alejandro González Iñárritu, e em "La Nostra Vita", do italiano Daniele Luchetti. No campo das interpretações femininas, Juliette Binoche triunfou em "Copie Conforme", de Abbas Kiarostami.

O prémio do Melhor Argumento foi para o coreano Lee Chang-dong, argumentista e realizador do drama de uma 'avó-coragem' que educou sozinha o neto e que tenta agora, depois de se saber vítima de Alzheimer, escrever o poema que concentre toda uma vida. Filme muito bonito, podia ter ido mais longe no palmarés: chama-se "Poetry."

Ontem, "O Estranho Caso de Angélica", de Manoel de Oliveira, mereceu uma menção no júri do "Un Certain Regard", presidido pela cineasta Claire Denis. O vencedor desta secção paralela de Cannes (que esteve este ano muitos furos acima da competição) foi também um filme coreano: "Ha Ha Ha", de Hong Sang-soo.

Um balanço de Cannes 2010 será publicado na próxima edição impressa do Expresso, na "Actual".

PALMARÉS

PALMA DE OURO

"Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia/Reino Unido/França/Alemanha/Espanha)

GRANDE PRÉMIO

"Des Hommes et des Dieux", de Xavier Beauvois (França)

MELHOR REALIZAÇÃO

Mathieu Amalric por "Tournée" (França)

PRÉMIO DO JÚRI

"Un Homme qui Crie", de Mahamat-Saleh Haroun (Chade/França/Bélgica)

MELHOR ACTOR (ex-aequo)

Javier Bardem por "Biutiful", de Alejandro González Iñárritu (Espanha/México) e Elio Germano por "La Nostra Vita", de Daniele Luchetti (Itália/França)

MELHOR ACTRIZ

Juliette Binoche por "Copie Conforme", de Abbas Kiarostami (França/Itália/Irão)

MELHOR ARGUMENTO

Lee Chang-dong por "Poetry", de Lee Chang-dong (Coreia do Sul)

PALMA DE OURO - CURTA-METRAGEM

"Chienne d'Histoire", de Serge Avédikian (França)

PRÉMIO UN CERTAIN REGARD

"Ha Ha Ha", de Hong Sang-soo (Coreia do Sul)

CAMÉRA D'OR

"Año Bisiesto", de Michael Rowe (México)

  1. Festival de Cannes (em português)

  2. Informação sobre a competição

  3. Informação sobre o "Un Certain Regard "

  4. Quinzena dos Realizadores (em pdf)

  5. Semana da Crítica

  6. Cannes 2009