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Exames Nacionais 2010

"Os explicadores não fazem milagres"

Em contagem descrescente para o arranque de mais uma época de exames, António Merim, professor de Física e Química e autor de "Tira Melhores Notas" revela ao Expresso os segredos do sucesso escolar. Clique para aceder ao dossiê Exames Nacionais 2010

Carlos Abreu (www.expresso.pt)

Professor de Física e Química há cerca de dez anos, António Merim decidiu ensinar os alunos a aprender. Convicto de que a falta de objectivos e de métodos de estudo afectam negativamente as classificações, pôs mãos à obra e redigiu um manual com propostas que quem já estudou sabe de cor, mas que muitos alunos continuam a ignorar.

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Qual é o segredo do sucesso escolar? Na prática não há um segredo mas vários, isto é, um conjunto de estratégias adoptadas ao longo do tempo por alunos das mais variadas áreas que conseguiram, assim, melhorar os seus rendimentos.

E que estratégias são essas? São estratégias muito simples que quem passou por todos os patamares de ensino sabe que funcionam. Refiro-me, por exemplo, a estudar de forma disciplinada e à definição de objectivos. Desorganizado e sem motivação é muito mais difícil ser-se bem sucedido.

A primeira estratégia que enuncio no livro é precisamente traçar um objectivo concreto e credível. Por exemplo, querer tirar 20 valores logo no primeiro teste não é um bom objectivo. O ano escolar termina em Junho e é aí que se fazem as contas. Não vale de muito tirar um 20 em Setembro e terminar mal o ano. O que importa é a evolução e acreditar no objectivo final.

Também é muito importante que o estudante tenha uma boa atitude mental, isto é, que seja capaz de superar os fracassos. As notas menos boas que surgem durante o ano lectivo têm de ser rapidamente ultrapassadas, caso contrário não terão um lugar no pódio. O importante é acreditar sempre. Uma boa atitude mental é meio caminho andado para o sucesso.

Plantas ou lixo

No livro recomenda também aos estudantes que aproveitem ao máximo o tempo de aula. É aí que nascem as boas notas? Em geral é assim que funciona. É aí que os alunos tomam contacto com o conhecimento e se for mal interpretado é possível rectificar essa primeira aquisição. Em casa, através da leitura do livro, poderá não haver ninguém por perto que ajude o aluno a interpretar correctamente esse conhecimento. Até costumo dizer aos meus alunos que isto é como um jardineiro que no seu jardim tem sempre duas possibilidades: ou cultiva plantas ou acumula lixo.

É possível explicar os maus resultados em alguns exames com a forma conturbada como decorrem as aulas em muitas escolas? De certa forma sim. Se o tempo de aula é passado em condições adversas, o resultado final reflecte-o. Claro que, excepcionalmente, há alunos que conseguem superá-lo.

Apagar fogos

Qual é o erro mais comum na preparação dos alunos para os exames? Persistir no erro. Ou seja, para uma dada tarefa agem sempre da mesma forma, como se fossem um computador. Imaginemos um aluno que tira uma negativa por ter adoptado um mau método de estudo. É frequente voltar a adoptar o mesmo método de estudo e voltar a tirar negativa. E não sai daí. Este livro procura mostrar ao aluno que ele deve parar para pensar e alterar a sua estratégia. Essa persistência no erro também acontece porque o estudante não tem o apoio externo que poderia ajudá-lo a mudar a sua estratégia. Daí a grande procura de explicadores, que até nem fazem milagres, mas orientam os alunos no seu estudo.

Mas recomenda a contratação de um explicador, ou não? A partir do momento em que o explicador consegue ajudar o aluno a encontrar o bom caminho e os resultados surgem, claro que sim. Muitas vezes os pais não têm capacidade para ajudar os filhos a encontrar esse caminho.

Essa ajuda deve chegar logo no início do ano lectivo ou mais próximo dos exames? No fim do ano é para apagar fogos. A partir de Maio a procura de explicadores cresce consideravelmente e quem o faz está à espera de um milagre. O ideal será no início do ano lectivo, para traçar esse caminho e muito provavelmente, lá para Janeiro, até poderia ser dispensado porque o aluno já estaria encaminhado.

E o professor percebe que o aluno está a receber explicações? Nos alunos que têm classificações negativas nota-se muito bem. Sobretudo naqueles casos em que os explicadores cometem o erro de lhes fazerem os trabalhos de casa. Ora, quando um aluno que durante o ano nunca fazia os TPC, de repente até se oferece para ir ao quadro, claro que notamos logo.

Um estudo realizado pela Universidade de Aveiro em 2004 revelou que os alunos de Matemática tendem a decorar os exercícios que podem sair nos exames. Já testemunhou este tipo de situações? Claro que sim. E até há instituições de ensino que só se dedicam a preparar os alunos para os exames. Há alunos que no final do 11.º ano mudam de estabelecimento e procuram quase sempre aqueles que surgem nos dez primeiros lugares dos rankings. Essas instituições ministram um ensino virado para os exames.

Como é que os alunos deveriam organizar-se durante as duas semanas que antecedem o arranque da época de exames? Antes de mais, aqui no colégio e em muitos outros estabelecimentos de ensino, há aulas específicas para tirar dúvidas. Durante esse período os alunos estão a rever matérias que já estudaram há algum tempo - o exame de Física e Química, por exemplo, é de 10º/11º anos - e é natural que surjam dúvidas. Além disso, convém pegar nos exames realizados em anos anteriores para afinar a máquina.

No livro faço algumas sugestões específicas sobre os tempos de estudo. Sugiro, por exemplo, que os alunos, por cada período de 35 a 40 minutos a estudar, façam uma pausa de cinco a dez minutos. Muitas horas seguidas a estudar só acaba por cansar o cérebro e desmotivar o aluno. Claro que isto depende muito de aluno para aluno.

António Merim: Os tempos livres são fundamentais porque funcionam como um 'tubo de escape'

António Merim: Os tempos livres são fundamentais porque funcionam como um 'tubo de escape'

Rui Duarte Silva

Parar é fundamental

E como é que devem ocupar os tempos livres? Os tempos livres são fundamentais porque funcionam como um "tubo de escape". Caso contrário, o stresse vai-se acumulando. Praticar desporto, andar a pé ou ir ao cinema são boas formas de ocupar esses tempos livres. É fundamental parar e fazer outras coisas completamente diferentes.

Durante o exame como é que o aluno pode manter a concentração, mas sobretudo combater a ansiedade? O estudante deverá começar por responder às questões sobre matérias que melhor domina. Começar por uma pergunta para a qual não sabe a resposta é criar um factor de desmotivação para os 90 minutos do exame.

Assim sendo, convém começar por ler o exame. Sim, claro. E à medida que vamos lendo e encontramos perguntas para as quais sabemos a resposta, devemos resolve-las logo e deixar aquelas que parecem mais complicadas, ou que não estamos logo a ver como é que se revolve, mais para o final. Até por uma questão de gestão do tempo.

E o exame de Física e Química, por exemplo, está feito de forma a facilitar a entrada do aluno na prova? É diferente dos testes que realizamos durante o ano, desde logo porque costuma ter textos mais longos. Há provas de Física e Química com 16 páginas. Nos últimos anos, tem-se verificado um esforço por parte das equipas que fazem os exames no sentido de encurtá-los. Mas um exame é sempre um exame e tem de haver um certo rigor.

Uma das principais fontes de ansiedade é a pressão social e familiar. Afinal, os estudantes estão num momento crucial da sua vida. É verdade. A ansiedade está directamente ligada ao medo de falhar, que as pressões familiares só vêm agudizar. Ora, não há que ter medo de falhar. Há é que ter medo de não tentar. Não interessa o tamanho do obstáculo se o aluno estiver suficientemente motivado para o transpor. Não há ninguém que tenha atingido o pódio sem derrotas pelo meio. O importante é saber superá-las.

E os professores ensinam os alunos a estudar? Há professores que fazem um esforço para aconselhar os alunos a esse nível, mas a obrigatoriedade de cumprir os currículos e a realização de outras actividades lectivas durante as aulas, deixam muito pouco tempo disponível aos docentes para recomendar ao aluno determinado tipo de estudo. O pior que poderia acontecer é o aluno chegar ao exame nacional e verificar que o professor não tinha ensinado determinada matéria.

Mas se o método de estudo é tão importante porque é que não se arranja tempo para ensiná-lo? Penso que só será possível fazê-lo quando os currículos forem mais adequados e libertem o tempo necessário para ensinar a aprender. Se os professores tiverem margem de manobra para apoiar mais os alunos, penso que os resultados começarão a melhorar.

Entrevista publicada no Guia do Estudante em 29 de Maio 2010

António Merim, 33 anos, nasceu em Paris onde viveu até aos 15.

De regresso a Portugal, instala-se em Monção onde conclui o ensino secundário. Licenciado em Física (ramo de ensino) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, começou a dar aulas no ano lectivo de 2000/2001 na Secundária Infante D. Henrique, no Porto.

Actualmente, é professor do quadro do Colégio dos Carvalhos, uma instituição de ensino privada que em 2009 ficou na 26ª posição no ranking SIC/Expresso das escolas secundárias no exame de Física e Química, a disciplina de António Merim, com uma média de 11,61 valores.

Consciente de que os resultados alcançados pelos seus alunos são afectados negativamente pela falta de estratégias e métodos de estudo, decidiu redigir um documento com recomendações e conselhos que publicou no site do colégio. "Tira Melhores Notas", editado em Dezembro de 2009 pela Porto Editora, nasce desse projecto inicial.

Entretanto, António Merim ainda teve tempo para regressar como aluno à Faculdade Ciências, para frequentar o mestrado em Astronomia (ramo educacional). Sempre que pode, ruma à cidade-luz. "Gosto de visitar Paris como se fosse a primeira vez", remata.