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Exames Nacionais 2010

"Exames não servem para estragar a vida aos alunos"

Hélder Sousa, director do Gabinete de Avaliação Educacional, garante em entrevista ao Expresso que, apesar de haver quem defenda que os exames deviam ser feitos por uma entidade que não estivesse sob tutela do ME, "nunca houve nenhuma interferência da tutela para se fazer fácil ou difícil". Clique para aceder ao dossiê Exames Nacionais 2010

Isabel Leiria (www.expresso.pt)

As provas de aferição realizadas este mês pelos alunos do 4º e 6º ano a Português e Matemática voltaram a causar polémica. Há quem critique o facto de não contarem para a nota e há quem diga que são pouco exigentes. O director do serviço que realiza estes testes e os exames nacionais afirma que não está provado que assim seja.

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Cerca de 90% dos alunos do 4º ano têm positiva nos testes de aferição de Matemática e Português. Não é a prova de que são muito fáceis? A nossa preocupação é que a avaliação externa seja uma continuação da avaliação feita a nível interno. E esses resultados espelham grosso modo o trabalho que é feito nas escolas. Ver as provas como uma ameaça para os alunos não é de todo positivo. Mas isto não pode ser lido como sendo facilitismo.

Mas há quem diga, professores incluídos, que têm sempre demasiadas perguntas fáceis Qualquer prova tem de ter perguntas fáceis, de dificuldade média e difíceis. As perguntas fáceis, que têm uma estimativa de acerto na ordem dos 90%, permitem perceber se aprendizagens que são, de facto, elementares estão consolidadas. Por vezes há surpresas. Temos depois um universo de dificuldade média e ainda um conjunto de perguntas onde a expectativa de acerto é francamente mais baixa e que permitem distinguir os alunos que atingiram uma maturidade intelectual superior.

Quem decide o peso de cada? Há uma matriz de prova a partir da qual se gere esse equilíbrio. Tentamos que haja uma distribuição equitativa dos graus de dificuldade ao longo dos testes. É mantendo esse equilíbrio e com a experiência dos anos anteriores que percebemos se o desempenho dos alunos está a melhorar.

Os relatórios das provas mostram que há dificuldades que se mantêm, por exemplo na resolução de problemas. Há alguma dificuldade em promover ganhos qualitativos. Mas não podemos esquecer que nos últimos 30 anos foi feita uma revolução ao nível da inclusão dos alunos na escola. Passámos de uma frequência no básico e no secundário muitíssimo baixa para valores equiparáveis a muitos países desenvolvidos.

Isso obriga a que os testes sejam menos exigentes do que há 30 anos, quando só a elite estava na escola? No Gave já fizemos comparações pontuais, recuperando exames antigos. Aplicando indicadores de análise de dificuldade dos itens, não é notório que as provas sejam mais fáceis hoje. Porventura estamos a elaborar sobre alguns mitos. Apesar de existir uma margem enorme de melhoria dos resultados, essa progressão não pode ser feita à custa de uma inflação da dificuldade, que se traduziria numa queda brutal dos resultados. Isso deixava-nos com a ideia de que existe uma elite que consegue atingir esse patamar e uma massa enorme de jovens com resultados extremamente negativos. O equilíbrio na distribuição da dificuldade das perguntas é muito importante para escalonar os alunos nos diferentes patamares.

Como é que se define esse grau de dificuldade? Através de mecanismos estatísticos e comparação com os resultados de perguntas semelhantes que foram testadas antes. O que tentamos é criar provas com graus de dificuldade similares. Os exames não são um palco para fazer experiências de puxar para cima ou para baixo. Sabemos a importância que têm para a vida dos alunos, sobretudo ao nível do secundário. Mas nos testes intermédios, que não são determinantes, fazemos esta experimentação. Quando colocamos o grau de dificuldade um pouco acima do esperado, normalmente os alunos não reagem bem e há uma quebra de resultados. Se correspondessem, isso daria um sinal de que, porventura, poderíamos subir o nível de dificuldade dos exames.

Essa avaliação da dificuldade causa muitas vezes grande perplexidade... Qual é o critério que vale? É uma opinião a priori, baseada na experiência e expectativas que um grupo de professores possa ter em relação ao que é o nível de exigência adequado? Ou devemos guiar-nos pela dificuldade comprovada pelos resultados, que nos dizem, a partir de anos anteriores, que determinadas perguntas não são fáceis para os alunos? E essas temos de colocar no ano seguinte para perceber se houve evolução. Esta análise é que é importante. A nossa função não é estragar a vida aos alunos. Quando tentámos subir ligeiramente os graus de dificuldade o efeito não foi o mais positivo. Se decidíssemos elaborar uma prova com critérios de dificuldade extremamente elevados, assistiríamos ao colapso nacional.

Quais são as maiores dificuldades dos alunos? Uma que é dominante e que é visível, tanto no básico como no secundário, é a enorme dificuldade em usar o Português para a compreensão das perguntas ou para estruturar um raciocínio.

Isso não é dramático? É a realidade. Mas não temos de ser pessimistas. Nada nos pode fazer pensar que os alunos de hoje têm menor potencial do que nós tivemos.

Porque é que as provas de aferição têm o mesmo formalismo de um exame e depois não contam para a nota? A questão é saber se, tendo efeito na nota final, poderiam fazer chumbar um aluno. E sabemos que a retenção, sobretudo a um nível precoce, pode ter um efeito pior do que permitir a transição, desde que haja efectivamente um acompanhamento do aluno. Só em dois países europeus essas provas contam para a progressão nos 1º e 2º ciclos.

Quem é que elabora os exames nacionais? Os testes são todos feitos por professores, que trabalham nas escolas. Somos ainda assessorados por universidades, especialistas em linguística e colaboradores que auditam a avaliação.

As médias nos exames ficam sempre abaixo das da escola. Os professores inflacionam as notas? Há vertentes que podem ser valorizadas na avaliação interna e que não cabem num exame de duas horas. Temos de ter em conta aquilo que o sistema nos diz que os alunos são capazes de realizar. Sabemos que o desempenho nos exames será, eventualmente, mais baixo. Mas também não tem qualquer valia um exame que fique 5, 6 valores abaixo da nota interna.

Devia então diminuir-se a exigência dessas provas? Seria fácil aproximar a nota do exame da classificação interna. Mas nunca será feito, porque o sinal que temos de dar é o de exigência. Há áreas de aprendizagem que não estão consolidadas.

Há quem defenda que os exames deviam ser feitos por uma entidade que não estivesse sob tutela do ME. Garanto que nunca houve nenhuma interferência da tutela para se fazer fácil ou difícil. Mas quem quiser sugerir que há manipulação política de resultados vai sempre encontrar uma ligação.

Entrevista publicada na edição do Expresso de 22 de Maio