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Expresso

Tráfico de seres humanos

A Educação pelo entretenimento

A MTV lançou uma campanha contra o tráfico de seres humanos através de «spots», concertos, documentários, Internet… Simon Goff, o director de campanhas, garante: “Bombardeamos literalmente as audiências com o tema.”

A Fundação MTV Europa tem objectivos claros: despertar os jovens europeus para temas sociais críticos, levá-los a envolverem-se e a agir e ajudar instituições que se ocupam no terreno destes assuntos a lançar iniciativas criativas que promovam e efectivam uma mudança positiva.

Em 2003, houve quem se apercebesse do poder da MTV junto dos jovens e fundou esta entidade legalmente independente da MTV, mas que beneficia de todas as vantagens técnicas e de credibilidade global da "marca".

Simon Goff é o director de campanhas e falou ao EXPRESSO durante a sua participação, no início desta semana, no Seminário Internacional sobre Tráfico e Exploração Sexual realizado no âmbito do Projecto CAIM, organizado pela Organização Internacional das Migrações.

O que inventou a MTV nestes primeiros 25 anos de existência?
A grande diferença em relação a todos os outros canais é a enorme influência que tem sobre os jovens. Mudou realmente a maneira como as pessoas vêem televisão, foi o primeiro canal a que os jovens puderam chamar seu. E mudou os formatos de programação. O crescimento astronómico que a MTV teve deveu-se à ligação com o público jovem.

Como se virou a MTV para os temas sociais?
O primeiro tema social a que se ligou foi o HIV/Sida porque foi simultâneo no tempo com a criação da MTV. Esta fez uma campanha lançada globalmente em 1988 «MTV Staying Alive», que ainda hoje passa. A MTV Europa, que foi lançada em 1988, sempre fez algumas peças aqui e ali sobre esses temas, mas nunca de modo coordenado.

A ideia por trás da Fundação, a partir de 2003, foi coordenar e olhar os temas sociais como um produto. A MTV faz dinheiro trabalhando com marcas, com subsídios e venda de anúncios. Pode vender um produto para a Motorola ou para a Vodafone e é precisamente assim que pode também vender um tema social.

São as mesmas estratégias comerciais aplicadas à educação?
Sim. O tráfico de seres humanos é tratado num «spot», num concerto ou num documentário, é um «website» (em 19 línguas), são media digitais, telemóveis, é tudo. Chamamos a isto uma abordagem de 360º porque bombardeamos literalmente as audiências com o tema. E o tráfico de pessoas é um assunto que afecta os jovens e para os quais ainda não tinha sido criada uma linguagem apropriada ao nível global. As pessoas traficadas têm idades equivalentes às das nossas audiências, a faixa entre os 15 e os 24 anos. Agora a MTV Europe emite na Europa por via de 15 canais europeus que fazem passar a mensagem contra o tráfico de pessoas nas suas próprias línguas. Produzimos vídeos para a MTV Rússia, para a Roménia, Ucrânia, ex-Jugoslávia, dessa maneira falamos para audiências específicas com problemas específicos na sua linguagem mais próxima.

Que financiamento tem a fundação? E que percentagem de educação cabe num contexto de entretenimento?
Somos o clube 1%. As empresas britânicas que mais contribuem para mecenato fazem-no com 1% dos seus lucros. Sabíamos que nunca teríamos tipo dois milhões de libras em dinheiro dadas pela MTV, o que ela nos daria era tempo de emissão e o uso da marca. O nosso objectivo máximo era ter 1% do seu tempo de emissão, o que equivale a menos de meia hora por semana. Não é muito. Mas se olharmos o tempo de emissão que realmente gerámos noutros canais… Na fundação somos só duas pessoas, podemos é utilizar toda a gente de todos os departamentos, criativos, produção, tudo.

A credibilidade é essencial. Porquê?
É uma vantagem usar pessoas reais e histórias reais. Nós queríamos pedir testemunhos a vítimas reais, mas é muito difícil porque as organizações que lidam com elas vedam-nos o acesso em nome da sua protecção. Claro que não iríamos mostrar a identidade das vítimas, nunca. Sem pessoas reais é muito difícil fazer comunicação porque não se chega ao público mantendo a mensagem abstracta.

Qual é o futuro da Fundação MTV Europa?
Estamos a desenvolver-nos geograficamente lançando-nos na Ásia. Na Europa, onde continuaremos, não temos dinheiro para fazer coisas novas. Na Ásia estaremos a começar de raiz, o que implica uma investigação para ver como iremos actuar. O tráfico na Ásia é muito diferente, tem menos o foco no crime organizado e as relações entre o urbano e o rural são muito diferentes. É preciso ver como se criam utensílios de comunicação adaptados àqueles meios e ver como se chega a eles. Instituições como a OIM que já estão no terreno são essenciais para penetrar nessas sociedades, porque os grupos vulneráveis na Ásia não têm seguramente acesso à MTV. Chegaremos lá em pareceria com essas organizações, distribuindo informação, indo às escolas, estando com as pessoas...