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Expresso

Imigração: À procura do sonho europeu

Uma amizade controversa

Espanha e o Senegal renovaram o acordo de cooperação para travar a imigração ilegal. Mas não sem algumas «gaffes» do país africano.

Em inícios de Agosto, quando o dispositivo ‘Hera’ – destinado a travar a imigração ilegal nas Ilhas Canárias – começou as operações, não tinha autorização para patrulhar as águas do Senegal. O acordo entre Espanha e este país africano foi assinado somente a 24 daquele mês. Ambos os países arrastavam desde Junho divergências que tinham levado o Senegal a suspender o acordo de repatriamento com o Governo espanhol, depois de 99 ilegais retornados terem relatado maus-tratos e humilhações por parte da polícia local. O novo protocolo deu aval ao envio de efectivos da Guardia Civil a Dacar, assim como de meios logísticos e uma quantia de oito milhões de euros.

A partir de então, o Senegal mostrou-se ambíguo nas suas declarações, classificando num dia o problema da imigração ilegal como “drama humano” e noutro como “praga” que é preciso combater. Mas o episódio mais controverso aconteceu a 8 de Setembro, aquando da visita oficial a Espanha do ministro do Interior senegalês, Ousmane Ngom, onde se reuniu com o seu homólogo Alfredo Pérez Rubalcaba e, mais tarde, com o presidente do Governo, José Rodríguez Zapatero.

Na manhã do dia em que estava agendada a visita, Ngom deu uma entrevista à agência noticiosa do seu país na qual afirmava que “a legislação espanhola permite que os imigrantes clandestinos, depois de permanecer 40 dias nos centros de asilo, sejam repatriados ou libertados em solo espanhol”, o que “estimulava a emigração”. Na noite do mesmo dia, numa conferência de imprensa ao lado de Pérez Rubalcaba, elogiou o trabalho espanhol no campo da imigração e disse que o presidente Abdoulaye Wade costuma citar a cooperação com Espanha como “um caso exemplar de eficácia”.

Mas o próprio Wade, um dia antes, ignorando ostensivamente a reunião oficial do seu ministro, tinha acusado o Governo de Zapatero desde Berlim, aos microfones da emissora Deutch Welle. “Espanha não cumpriu os seus compromissos no âmbito do acordo acabado de assinar para lutar contra a imigração ilegal”. “No meio de tudo aquilo que prometeram, nada fizeram”, completou, referindo-se em concreto a um atraso na transferência das verbas e no envio de um helicóptero e duas patrulhas.

Poucos dias depois, a “calma” diplomática parecia regressar, com a notícia da delegação oficial que Wade fez chegar à Gran Canária para identificar senegaleses ilegais. Em dois dias, fizeram-se dois mil interrogatórios. Uma fonte da delegação revelou que o Senegal irá manter o compromisso de aceitar todos os repatriamentos procedentes do arquipélago e que o Governo do seu país, para evitar que os cidadãos repatriados embarquem de novo num «cayuco», está a estudar prendê-los por um período que pode ser de dois anos.