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Expresso

Imigração: À procura do sonho europeu

“Não se aflijam, estão em boas mãos”

Não param de chegar «cayucos». Mas a solidariedade das populações começa a ceder ao medo.

No porto de Los Cristianos, em Tenerife, onde chegam diariamente «cayucos» (pirogas) cheios de imigrantes exaustos, desidratados e assustados, ninguém trata mal ninguém. Como diz o comissário Luis Carrión, “cumprimos o dever de colocar esta pobre gente à disposição da justiça, mas somos seres humanos”.

É em silêncio e de cabeça baixa que os imigrantes abandonam a embarcação. Não oferecem resistência ao primeiro controlo da polícia, que opera com máscara e luvas e os obriga a deixar os seus magros bens, em geral uma mochila que, diz um agente, contém em geral produtos de higiene policial e fotografias da família. Só depois intervém a Cruz Vermelha, que lhes oferece chá quente, bolachas, sandálias, uma manta e roupa limpa. Para já, o pesadelo ficou para trás: uma travessia de 1.200 quilómetros desde as costas do Senegal (nove dias no mar, no melhor dos casos) apinhados, de cócoras e roupa molhada, num barco meio podre, pelo qual pagaram uns 200 euros ‘por cabeça’ e outro tanto para a compra de gasolina, farinha e arroz para a viagem.

Toda a operação se desenrola a 100 metros dos navios ‘Fred.Olsen’ e ‘Armas’ cheios de turistas. A polícia avisa: “Nada de perguntas”! É ela que protege os imigrantes da curiosidade excessiva da imprensa... Sentados no chão, o olhar perdido, a maioria deles deixa-se fotografar, outros choram em silêncio, escondendo o rosto.

Desta vez, a maioria dos recém-chegados são senegaleses. Thierry, um voluntário franco-belga da Cruz Vermelha, tenta saber se há menores entre eles e procura animá-los: “Não se aflijam, estão em boas mãos”. Exausto, um jovem africano murmura que quer dormir, enquanto outro, mais desperto, ensaia o espanhol perguntando à enfermeira: “Como te llamas?”.

Perante a avalancha de «cayucos» (mais de vinte só na última semana), cerca de 1.500 ‘sem-papéis’ passarão ainda dois ou três dias praticamente ao ar livre, no comissariado de polícia, para serem interrogados. A cena repetir-se-á no tribunal, onde juízes, funcionários e advogados trabalham 17 horas diárias. Passará uma semana até que os últimos clandestinos sejam ‘despachados’ para um ‘centro de retenção’, donde só sairão ao fim de 40 dias, sem papéis, sem trabalho e com uma ordem de expulsão... “que não será executada, por falta de cooperação dos países de origem e por culpa de Zapatero”, denuncia o Partido Popular.

Catando os destroços

Os «cayucos» abandonados no porto de Los Cristianos apodrecem na água, à espera de serem destruídos, ou são arrastados pela maré. Na Playa de Santiago, uns pescadores revistam um deles, chegado na véspera. Não são os sacos de farinha e arroz, nem os coletes salva-vidas, a roupa, as mochilas ou os bidões de plástico ali deixados que os motivam, mas sim duas âncoras. “Valem 200 euros cada uma!”, diz um deles.

O presidente da Câmara, Ramón Plasencia, confessa-nos, algo envergonhado: “Quando chegaram os primeiros «cayucos», houve um grande movimento espontâneo de solidariedade, mas a situação está a mudar e começa a instilar-se um clima de medo aos imigrantes e de alarme social”.

CURIOSIDADES

O Governo autónomo canário denuncia que, desde Janeiro de 2006, já foram recuperados cerca de 490 corpos de imigrantes clandestinos mortos afogados nas águas do arquipélago e nas costas africanas e situa entre 2000 e 3000 o número de “desaparecidos”.

Os imigrantes ilegais passam um máximo legal de 40 dias num centro de retenção (CRI), privados de liberdade, saindo com uma “ordem de expulsão” que geralmente não pode ser executada, por falta de colaboração dos países de origem ou de trânsito da imigração clandestina.

Os CRI nas Canárias têm actualmente 7500 “sem-papéis”; outros 2000, chegados na última semana, só poderão ser enviados para um CRI depois do interrogatório da Polícia (três dias no máximo) e depois da burocracia judicial. Este ano, o Governo central já transferiu mais de 13.000 “sem-papéis” das Canárias para a Península: 80% estão em centros das ONG financiados pelo Estado, e os outros 20% estão em centros das Comunidades Autónomas.

A Europa dos emigrantes

ESPANHA

Espanha tem oficialmente 44,4 milhões de habitantes: 3,9 milhões (8,7%) são estrangeiros, dos quais cerca de um milhão “sem-papéis”, cujo número baixou de 639.000, em 2005 (processo de legalização dos trabalhadores clandestinos estrangeiros). Os “sem-papéis” têm acesso à saúde pública, educação, etc., desde que tenham declarado a sua “residência” às autoridades municipais.

Entre 1986 e 2006, Espanha realizou oito “processos de regularização” que beneficiaram a 1,2 milhão de “sem-papéis”: 480.000 durante os governos do Partido Popular (1996/2003) e 720.000 com os socialistas no poder. Segundo o partido da oposição, o Partido Popular, 1,3 milhões de imigrantes encontram-se ainda em situação irregular.

Segundo estudos recentes da Caixa de Catalunha e do Banco de Espanha, nos cinco últimos anos Espanha recebeu 3 de cada 5 imigrantes chegados à União Europeia; sem a contribuição da imigração, a riqueza espanhola (PIB) não teria crescido mais de 3% por ano, mas sim caído 0,6%; os imigrantes compram 400.000 automóveis por ano; contribuem em 70% para o crescimento da população; representam 1/3 do mercado de arrendamento de casas; constituem 13% da população activa (em 2005, representaram 90% dos “novos activos”).

O governo socialista anunciou um esforço orçamental de 2.000 milhões de euros entre 2006 e 2009, para as políticas de integração dos imigrantes.

ITÁLIA

O novo Governo de centro esquerda decidiu este ano regularizar 517.000 trabalhadores clandestinos, em vez dos 170.000 previstos pela direita. Além disso, baixa de dez para cinco os anos de residência necessários para pedir a nacionalidade italiana.

FRANÇA

Em 2004, 4,9 milhões de imigrantes residem legalmente na França metropolitana, ou seja, 8,1% da população. O ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, previu limitar a 6.000 as regularizações excepcionais dos «sem papéis» pais de filhos escolarizado. Havia 30.000 pedidos.

500.000

É o número de «sem-papéis» que chegam todos os anos à Europa. O continente conta 56 milhões de migrantes, dos quais 10% em situação irregular.