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Expresso

Imigração: À procura do sonho europeu

Manual de instruções para ilegais

Um «site» da Web fornece seis pacotes com pistas concretas sobre como entrar na Europa sem ser apanhado e explica em detalhe a travessia de «cayuco» (piroga) às Ilhas Canárias. Garante uma taxa de sucesso de 91%.

Poderia trata-se de uma piada de mau gosto, feita por um amador apenas interessado em satirizar um assunto sério. Mas o conteúdo, lido ao pormenor, revela-se um verdadeiro manual de instruções para a imigração ilegal.

Um artigo posto em rede no «site» senegalaisement.com ensina a furar o sistema de fronteiras europeu, apresentando um elenco de seis pacotes que fornecem conselhos práticos sobre como transpor as muralhas da fortaleza sem ser apanhado e sobre como tirar proveito das leis em vigor. São eles o ‘Dia D’, ‘Casamento’, ‘Gravidez’, ‘Estudante’, ‘Homossexual’ e ‘Clássico’.

O Pacote Dia-D (numa alusão ao desembarque na Normandia na II Guerra) alicia à entrada nas Ilhas Canárias a bordo de um «cayuco» (piroga), transporte considerado de “risco nulo” e uma “boa solução para os homens senegaleses, especialmente para os mais jovens”. O artigo, assinado por Christian Costeaux – um francês condenado em 2004 a um ano de prisão por difamação – data de 9 de Junho de 2006, semanas depois do pico imigratório que se registou em Maio naquele arquipélago.

Itália, França e Espanha revelam-se os destinos principais, em especial esta última, detentora do “recorde mundial de regularizações maciças”, graças “à Al-Qaeda, que cometeu os atentados de Madrid antes das eleições”. Espanha é também a visada na hora de enumerar as vantagens do pacote Dia D, que custa entre 190 e 380 euros e permite chegar às Canárias seguindo apenas uma regra: esqueçam-se dos documentos de identificação! É a “chave” para entrar na Europa. O «site» explica porquê.

Não só a Cruz Vermelha ou a Amnistia Internacional garantem ao imigrante ‘apátrida’ cuidados e alimentação como, após alguns dias num centro de asilo, lhe é dado um bilhete de avião “pago por Zapatero”. O «site» aconselha a “ler a imprensa local para saber qual país está a projectar mais uma regularização maciça”.

Os restantes pacotes mais não fazem do que pôr a descoberto as brechas legislativas da Europa e os benefícios de que o imigrante pode auferir. A França, “um exemplo em termos de prestações sociais”, permite a um casal com quatro filhos “receber 1.710 euros sem trabalhar”. E como o preço dos pacotes não excede o equivalente a “dois meses” de prestações, “o investimento é amortizado em apenas alguns dias”.

Contas feitas, o artigo não poupa críticas à “deriva ditatorial” do Governo de Abdoulaye Watt: “Duplicando o número de partidas, o Senegal poderia esvaziar-se em menos de cinco anos – à razão de 70 ou 80 «cayucos» por dia! Se a polícia e a armada subscrevessem igualmente os pacotes Dia-D, apenas o Presidente e os seus ministros restariam no Senegal até 2010”.

«Packs» à vontade do freguês

Um olhar aprofundado sobre cada um dos pacotes mostra-nos o grau de pormenor com que Christian Costeaux, o autor do artigo posto em rede no «site» senegalaisement.com, fez questão de enumerar os benefícios e os inconvenientes que esperam o candidato a imigrante se levar avante a sua viagem rumo à Europa. No primeiro dos pacotes, o ‘Gravidez’, explica que o direito de solo praticado em França, por exemplo, permite às mulheres em idade fértil acederem ao estatuto de “inexpulsáveis” pela simples circunstância de engravidarem e se tornarem mães de uma criança nascida em solo francês. Claro que isso, afinal, não é assim tão simples: a necessidade de conseguir um visto de turista pode mesmo deitar os planos por água abaixo. Mas o autor aconselha a não desanimar. A taxa de sucesso, no caso de estas condições serem preenchidas e de a mulher em causa poder pagar os 610 euros que custa o pacote, é de 100%. E tem três vantagens de peso: “conforto da viagem de avião” e “protecção social instantânea” e “possibilidade de trazer rapidamente as outras crianças menores que ficaram no Senegal”.

Se o ‘Gravidez’ se restringe às mulheres, o ‘Dia.D’ concentra-se nos homens, especialmente nos jovens, em teoria mais aptos para os desconfortos do mar. O pacote consiste na travessia em «cayuco» até às Ilhas Canárias que, “ao contrário do que a imprensa ocidental faz crer”, possui “riscos nulos se as condições de segurança forem respeitadas”. Os preceitos a respeitar no mar alto (o «site» avança os melhores locais para o desembarque, a Norte de Dakar, sendo Saint-Louis o “ideal”) resumem-se a levar um colete salva-vidas e uma bússola. Mas, acima de tudo, a não levar nenhum documento de identificação. Para partir, o imigrante pode acenar com uma “pequena quantia” à polícia marítima, para esta “fechar os olhos” e o deixar embarcar. Uma vez chegados às Canárias, é só uma questão de manter a identidade no segredo dos deuses, sortear os interrogatórios e, graças à protecção da Cruz Vermelha e da Amnistia Internacional, receber todo o tipo de cuidados, alimentação e até a possibilidade de telefonar.

“Uma vez feito o desembarque, você está em território da Comunidade Europeia. A circulação é livre. Você pode escolher o país onde quer instalar-se”, reza o manual. Antes, porém, terá um “bilhete de avião gratuito para o continente (em geral para Madrid) pago por Zapatero”. O texto oferece pistas sobre os melhores percursos a seguir no caso de se pretender transpor a fronteira espanhola (“a saída mais prática é a linha Port-Bou-Montpellier”) e os locais onde é preciso mais atenção devido ao controlo policial. A fórmula repete-se até à exaustão: “Uma pequena parte dos subscritores do Dia-D fracassaram na sua empresa. A causa é sempre a mesma: uma fuga sobre a vossa nacionalidade”. Na hora de enumerar as vantagens do pacote, que custa entre 190 e 380 euros, refere-se a “técnica relativamente segura” e “pouco dispendiosa”, o “passeio turístico por diferentes países”, “não ser preciso passaporte (mesmo desaconselhado) ” e “os laços de amizade com os outros passageiros”. Como desvantagens, aponta-se o “desconforto da viagem”, “o período de retenção para identificação”, “a incerteza quanto ao destino final (Madrid, Barcelona, Málaga?)”, uma “ligeira dificuldade em passar as diversas fronteiras uma vez terem relaxado na natureza em Espanha” e “o trabalho difícil durante o período em que se está sem papéis”. É recomendado “ler a imprensa local para saber qual país projecta uma regularização maciça”.

O pacote ‘Casamento’ caracteriza-se pelo tom de escárnio – que, aliás, percorre todo o artigo – mas não deixa de oferecer algumas importantes informações: casar com um cidadão europeu, desde que a união se mantenha durante o prazo estabelecido por lei, dá direito à nacionalidade. A ideia é aproveitar a afluência de mulheres solteiras de meia -idade no contexto do turismo senegalês, para o qual se torna necessário frequentar zonas turísticas como Saly, Gorée, La Somone ou Nianing. A paixão pode trazer algumas regalias, como remessas monetárias regulares via Western Union e viagens de avião pagas até se concretizar o matrimónio. Mas nem tudo são rosas: não só o candidato deve estar predisposto a relacionar-se com alguém “10, 20 ou 30 anos mais velho” do que ele, como nem sempre é fácil encontrar a felizarda.

Mais prestigiado mas não muito recomendável é o pacote ‘Estudante’, cujo primeiro inconveniente será a obtenção de um visto só acessível a quem tenha “um político na família”. Quem o adquirir terá um caminho simples a percorrer, pois, em França, os diplomas universitários são canja e “83% dos estudantes saem da faculdade sem saber alinhar um parágrafo com menos de oito faltas por linha”. O preço do pacote, de 600 euros, afigura-se excessivo face às possibilidades de sucesso, de apenas 10%.

Já o ‘Homossexual’ apresenta uma taxa mais elevada. Se o imigrante se fizer passar por homossexual e se provar que corre perigo de prisão ou de vida no seu país poderá ser acolhido em França como refugiado. “O procedimento consiste em criar uma associação de homossexuais no Senegal. Sendo tal facto proibido, você pode pedir asilo em França argumentando que se arrisca a uma pena de prisão”, explica o «site». “Se você atingir alguma mediatização, pode mesmo ser alvo da Legião de Honra”, continua. “Contrariamente ao Senegal, você não corre perigo de ser linchado, graças à muito generosa e progressista lei francesa sobre a homofobia”.

Por fim, o pacote ‘Clássico’, apenas ao alcance de quem já tenha um membro da família num país europeu, exige um visto «difícil de obter», pelo que após três tentativas frustradas deve optar-se por um ‘Dia-D’ ou um pacote ‘Casamento’. As dificuldades na obtenção do visto prendem-se com a necessidade de provar, perante os organismos oficiais, que se é assalariado ou funcionário. Ora, num país “em ruína económica e social”, isso equivale a ter ganho a lotaria.

A crítica ao Governo de Abdoulaye Watt está presente do princípio ao fim do artigo. Em especial no último parágrafo, quando Christian Costeaux avisa o leitor daquilo que era óbvio: “Senegalaisement.com não tem nenhuma deontologia”. Utilizando terminologia pouco recomendável, esclarece que o «site» não pretende incitar à imigração, mas acusar aqueles que a promovem. O primeiro é Watt. O segundo, a própria Europa. Curiosamente, quando o portal Periodistadigital.com dedicou uma página ao assunto, um dos primeiros cibernautas que se predispôs a fazer comentários foi Costeaux, interrogando: “Vocês pensam seriamente que os senegaleses esperaram pelo meu artigo para partir numa piroga? Vocês acreditam que eles não sabiam, antes o de ler, que Espanha havia regularizado centenas de milhares de clandestinos?”.

Num pequeno dossier que acompanha o texto, é dito que França é o “exemplo mundial em termos de prestações sociais” e que Espanha detém “o recorde mundial de regularizações maciças”: “Em três anos, mais de 1,8 milhões de novos imigrantes chegaram a solo espanhol e esperam pela próxima regularização”. O sarcasmo não se faz esperar: “Com certeza, as próximas eleições farão mergulhar a Espanha no franquismo, pelo que é imperativo aumentar a frequência dos desembarques antes do apocalispe”. Humor negro ou não, verdade ou simples jogo, não se pense que o dito permanece arredado do seu destinatário. “A Internet é cada vez menos cara e cada vez mais acessível no Senegal”. E no resto do mundo.