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Expresso

Imigração: À procura do sonho europeu

Do liceu para a Europa

Abandonaram escola e família e lançaram-se ao mar em frágeis "cayucos" rumo à Europa. Os dramas e os anseios de menores africanos detidos nas Canárias.

Malik, Cheik, Bubakar, Mamadou... Praticamente privados de liberdade, no centro de menores El Hojar (Tenerife), com grades nas janelas, fazem parte dos cerca de 850 adolescentes chegados desde há pouco mais de um ano às ilhas Canárias em "cayucos" (550 dos quais este ano), as frágeis embarcações que partem de África para a Europa carregadas de imigrantes ilegais. Aos cuidados das autoridades das Canárias, que por falta de capacidade e de meios económicos procuram distribuí-los o mais rapidamente possível por outros "centros de menores" na Península, a maioria não esconde o desespero.

Correram o risco de morrer afogados e atravessaram mil dificuldades para atingir o eldorado europeu, pensando que iam encontrar logo um bom emprego, para ajudar a família. Agora estão "condenados a estudar" até fazer 18 anos, idade em que poderão receber os documentos que tornam legal a sua presença em Espanha.

 

Malik Ba, 17 anos, Costa do Marfim

Se não houvesse guerra civil no seu país, Malik Ba, nascido em Bouaké, não teria deixado o liceu. "Depois do ‘bac’ (de Baccaleureat, fim do ensino secundário) pensava entrar na Universidade, para estudar Direito", diz ele num bom francês. Porém, já sem mãe, perdeu três irmãos na guerra, e desde 2004 que não tem notícias do pai nem dos outros dois irmãos. Ficou apenas ao cuidado da avó.

"Não sei como, mas a minha avó, já com 70 anos e sem recursos económicos, arranjou 400 mil francos CFA (cerca de 600 euros). Com esse dinheiro, que representa uma verdadeira fortuna no meu país, viajei até Kafountine (Senegal), onde não me foi difícil encontrar uma embarcação, para tentar a minha sorte em Espanha". Mas, agora, quando pensa nos 12 dias da travessia, "sempre de cócoras e molhado até aos ossos", fica estrangulado pela emoção e esconde a cara entre as mãos, para chorar: à partida do Senegal o "cayuco" transportava 120 pessoas, mas só 117 chegaram com vida a Tenerife. "Os quatro últimos dias da viagem foram terríveis, dramáticos! Não tínhamos comida nem água doce e bebíamos água do mar. Duas pessoas morreram de fome. Outra enlouqueceu: não se cansava de repetir ‘estamos perdidos’ e acabou por se suicidar, lançando-se ao mar".

Malik aspira agora a converter-se em "trabalhador social", para ajudar outros adolescentes africanos nas mesmas condições. Já começa a dominar o espanhol e assume, com toda a naturalidade, um papel de líder.

 

Bubakar Corea, 17 anos, Guiné-Bissau

É natural de Engore, na Guiné-Bissau, domina melhor o francês que o português, e chegou às Canárias no dia 18 de Agosto, a bordo de um "cayuco" de 30 metros de comprimento, no qual se apinhavam 132 "sem papéis" africanos, cinco dos quais menores.

Bubakar confessa que a decisão de partir assim para a Europa não foi sua. Frequentava já o segundo ano do liceu no Sul do Senegal, que faz fronteira com a Guiné-Bissau, quando a família decidiu - "unicamente por razões económicas" - metê-lo num "cayuco", rumo à Europa. "Afinal de contas, só se morre uma vez", diz ele com ar fatalista, explicando: "Os meus pais já não podem trabalhar, tenho 15 irmãs e cinco irmãos, o mais velho tem 60 anos e o mais novo apenas 12".

A família vive da agricultura, sobretudo da produção de noz de caju, cujo preço no mercado passou bruscamente de 400 para 100 francos CFA por quilo.

"É como se a Europa rica se tivesse posto de acordo para condenar toda a população africana a morrer de fome. Assim, já não havia dinheiro para pagar os meus estudos. Para sair da miséria, os meus pais e os meus irmãos tomaram a decisão de me mandar para a Europa, para ajudar a família", conta Bubakar.

Para pagar a viagem foi necessário recorrer a todas as economias da família. "Nunca pensámos que quando chegasse a Espanha, da qual nada sabia, seria enviado para um centro escolar, e que só poderei sair daqui, para trabalhar e ajudar a família, quando fizer 18 anos de idade".

 

Mamadu Samba Boiro, 16 anos, Senegal

Com apenas 16 anos, Mamadou Samba Boiro sabe que ainda terá de ficar dois anos num centro escolar espanhol - como El Hojar em Tenerife - "sob uma rigorosa vigilância e duras regras de disciplina", mas está "feliz da vida". Vem da região senegalesa de Casamança (Sul do país), "onde não reina a paz" (é uma zona de guerrilha), e confessa que, nos 13 dias que durou a travessia - durante a qual viu morrer dois outros indocumentados senegaleses - pensou muitas vezes que também "estava condenado a sofrer a mesma sorte no meio do oceano".

De carácter alegre e cheio de vitalidade, diz: "Mesmo sabendo o que sei hoje, estaria disposto a recomeçar a mesma aventura. Venho de um país com quase 200 mil quilómetros quadrados, supostamente muitíssimo rico, mas que não tem grande coisa para oferecer aos jovens, que representam mais de metade da população".

Único membro "com estudos" da sua família, explica: "Tenho duas irmãs e dois irmãos (o mais velho tem 32 anos), que vivem da agricultura, mas quero ter uma vida muito diferente da deles, num país moderno e civilizado, como a Espanha". Reconhece, no entanto, que "tem uma grande dívida" para com a família, que lhe permitiu estudar até ao 4º ano do liceu, e sem a ajuda da qual não teria podido comprar o "bilhete de entrada" na Europa, que custou uns 600 euros - a sua participação na compra de um "cayuco" (com dois bons motores), gasolina, água doce, arroz e biscoitos.

"Só voltarei à minha terra com um bom carro e dinheiro suficiente para construir uma boa casa para a família. Quero ser um exemplo de êxito", conclui.

 

Mamadou Ciré Diallo, 17 anos, Guiné-Conacri

Vem de Labé e chegou às Canárias em meados de Agosto, juntamente com um dos seus três irmãos já adultos, num pequeno "cayuco", onde viajavam 64 indocumentados africanos, a maioria dos quais senegaleses.

"Só agora, perante as histórias dramáticas vividas por outros companheiros que estão aqui no centro, é que me apercebo que tive muita sorte! Por muito difícil que tenha sido fazer mais de 1.400 quilómetros num barquito, através do Atlântico, a viagem durou só oito dias - em péssimas condições, é verdade, mas felizmente sempre com bom tempo e sem que nos tenha faltado comida nem água doce", confessa Mamadou.

O jovem admite também que, como o pai é "negociante de plásticos» e tem um «nível de vida razoável", não foi para "fugir da miséria nem de guerras» - mas sim por «espírito de aventura" - que deixou o liceu onde estudava, em Labé, para embarcar em Elinkin, no Sul do Senegal, rumo à Europa.

"Sabia que podia morrer no mar, mas ninguém me avisou que, mesmo sendo menor de idade, corria também o risco de ser apanhado pela polícia espanhola". Sobre os traficantes de mão-de-obra clandestina africana?, diz saber "que existem", mas que "não é necessário passar por eles". "Na região senegalesa de Casamança o que mais se vê são pequenos barcos de pesca à venda, praticamente nas barbas da polícia, que não tem meios para controlar 500 quilómetros de costa". Mamadou vê o futuro com optimismo: "Quando deixar este centro escolar, já com os documentos em ordem, ficarei em Espanha e trabalharei como mecânico".

 

Cheik Hamadou, 15 anos, Kebe Senegal

Senegalês da região de Casamança, no Sul do país, tem apenas 15 anos de idade, mas apresenta um físico, um olhar e uma atitude de homem adulto, disposto a "sacrificar-se pela família". Tem quatro irmãos e outras tantas irmãs, o pai está reformado e, em princípios de Agosto, sem que ninguém o tivesse obrigado, deixou o liceu (estava já no segundo ano) e o clube Belfort, onde jogava futebol, para se meter num "cayuco", "já com o casco de madeira meio podre", em direcção ao eldorado europeu, com o objectivo de "ajudar a família".

"Só no último dia, diz ele em francês, é que revelei a minha decisão à minha mãe, porque sabia que ela nunca a teria aprovado e lhe iria causar muita pena. O meu pai, que era comerciante mas tem já 70 anos, deu-me todo o seu apoio desde o primeiro momento, tal como os meus irmãos mais velhos. Aliás, foram eles que financiaram a operação, com a ajuda dum banco, que lhes emprestou uns 600 mil francos CFA (mil euros), que terei agora de devolver".

Cheik não gosta de recordar a travessia. "Durou 13 dias, que nunca poderei esquecer. À partida de Casamança éramos 90 pessoas no barco, mas duas morreram de fome. Calculámos mal as necessidades de comida e água doce. No final da viagem, só comíamos um biscoito por dia e bebíamos água do mar".

Agora, Cheik só tem um sonho: aprender bem espanhol, regularizar a sua situação e encontrar um agente que lhe permita cumprir o sonho de ser futebolista. "Admiro Raúl, do Real Madrid, e quero ser a sua versão africana".

 

Mamadou Mouktar Diallo, 17 anos, Guiné-Conacri

Não foi a miséria que levou Mamadou Mouktar a deixar a sua cidade natal de Labé (Guiné-Conacri), para embarcar num "cayuco", juntamente com um amigo de 25 anos e outros 96 "sem papéis", a maioria senegaleses. "O meu pai ganha bem, vendendo roupa e tecidos nos mercados da Gâmbia, país onde estudei até aos 15 anos. Deixei o liceu, no 4º ano, para começar a trabalhar. Quando vi o ar próspero de alguns amigos, todos a trabalhar já com papéis em Espanha, quando regressavam a Labé para as férias, decidi também tentar a minha sorte", diz ele.

Mamadou é o mais novo da família e nesta sua arriscada aventura valeu-lhe a ajuda dos irmãos, que convenceram o pai a financiar a "travessia". "De Casamança às Canárias foram 11 dias. Não nos faltou comida (arroz e biscoitos), mas nos últimos dias, sob um sol abrasador, ficámos sem água doce e bebemos água do mar". O amigo que com ele seguiu de Labé não resistiu à dura prova. "Começou a delirar e quando estávamos já perto das Canárias vi como ele se suicidou, durante a noite, lançando-se ao mar, sem que ninguém o pudesse socorrer". Mamadou está convencido, no entanto, que nada poderá travar a avalancha de "cayucos". "Mesmo sabendo que podem morrer no oceano e que muitos serão repatriados, só na região de Casamança vi milhares de jovens do Senegal, da Gâmbia, da Guiné-Conacri, etc., que também esperam a primeira oportunidade para partir. Chegar à Europa e arranjar um bom emprego é hoje o sonho de todos os jovens africanos!"