Siga-nos

Perfil

Expresso

Selvagens - Diário de viagem

Uma aldeia de duas casas

Docentes insatisfeitos com o novo regime de avaliação ao seu desempenho

Antes da alvorada, já nas proximidades das Selvagens, a fragata detecta um barco de pesca e faz uma abordagem de rotina. É o Peixe Atum, vindo dos Açores, e já está nas redondezas há várias semanas. Tem autorização para pescar atum bonito (chamam-lhe gaiado por aqui) mas a desconfiança e a cautela das autoridades têm feito com que seja interceptado por sucessivas equipas da marinha sempre que é visto na faina.

O mar piorou durante a noite e está encapelado. O boliche parece um baloiço equipado com colchões. O navio adorna bastante, balançando de um lado para o outro com vigor. A classe João Belo não foi pensada para navegar no mar aberto do Atlântico. A forma como adorna tornou-se mais vincada depois de, há uns anos, lhe terem tirado duas pesadas peças de artilharia. Como ficou mais leve, passou a ser sensível ao movimento das ondas. "É como se fosse um boneco sempre em pé. Deita-se para o lado lentamente mas retoma muito depressa a sua posição vertical", diz um marinheiro.

O desembarque na ilha é feito com a João Belo ao largo. É um risco levar a fragata até à costa, porque é demasiado lenta a mover-se para reagir à presença de um rochedo. Três zebros com fuzileiros e com o vigilante da natureza vêm de terra para fazer o transporte da carga e dos passageiros. As caixas e as mochilas são descarregadas com cordas para os barcos. Um bidão de água parte as pegas e cai à água. Os dois fuzileiros com quem vou divertem-se a recuperá-lo, tentando abraçá-lo no meio das ondas.

O único cais da ilha está protegido por um rochedo, formando uma pequena baía de águas mais calmas onde foram construídas duas casas. A primeira visão do lugarejo é desoladora. Um funil de escarpas de tom cinzento e triste. Não faz o género das ilhas desertas dos postais turísticos. O cais, na realidade, é uma rampa modesta para botes. A casa maior, onde a rampa desemboca, foi pintada de amarelo e tem a bandeira de Portugal hasteada. A casa mais pequena mal se nota vista do mar. É um caixote de cimento dissimulado na falésia e com uma varanda que está agora coberta por uma rede de camuflado verde, montada pelos fuzileiros. É lá, ao relento, que eles têm estado a dormir há duas semanas, desde que chegaram do continente em missão de patrulha e vigilância das Selvagens.

O lugarejo chama-se Baía das Cagarras ou Portinho das Cagarras e não há mais nenhum local habitado na ilha. A casa grande só é grande quando comparada com a casa vizinha, mas mesmo assim tem três quartos com dez camas, a maioria delas em boliches. Foi sendo acrescentada ao longo dos anos. A sala inclui uma cozinha americana, com um balcão. Além dos cadeirões e da televisão com TV Cabo (o único luxo em todo o subarquipélago das Selvagens), a sala é um centro de comunicações, com um telefone satélite e um rádio de ondas médias com o qual se consegue falar para o Funchal.

A ilha está sobrelotada. Normalmente, durante a maior parte do ano, só tem dois habitantes: uma dupla de vigilantes. O facto de estar apenas um nesta altura é pouco comum, mas é porque, desta vez, tem a companhia de um biólogo e de uma engenheira florestal. E a ajuda ainda de oito fuzileiros.

Desde o Verão de 2005 que o Estado português decidiu passar a enviar equipas de fuzileiros para a ilha, depois de um incidente em Maio desse ano. Um barco de recreio que estava ao largo a fazer caça submarina ilegal foi abordado pelos vigilantes, mas os dois acabaram por ser ameaçados com um arpão e foram obrigados a retirar-se.

Um helicóptero Merlim descolou do Porto Santo com polícias marítimos para acudir à situação mas só chegou às Selvagens duas horas e meia depois (é o tempo que levam: uma hora para levantar voo e mais uma hora e meia de viagem). Já não apanhou o veleiro, que entretanto tinha abandonado a Zona Económica Exclusiva Portuguesa. Os polícias ficaram na ilha três dias de prevenção e, mais tarde, os fuzileiros passaram a aparecer com regularidade durante o Verão.

O mar está ainda pior à tarde. No Portinho das Cagarras não se nota a ondulação porque se encontra protegido. "Tem de se olhar mais para fora. Quando se vê carneirinhos no mar é porque está mais encrespado", diz um dos fuzileiros.

Há mais de uma semana que o tempo não está famoso. Os fuzileiros têm feito dois patrulhamentos diários - um em terra e outro no mar. Hoje há dúvidas se vale a pena sair para o mar. Mas lá se decidem. A ronda dura pouco mais de meia hora. Como sempre, por segurança, saem dois zebros. Em cada um deles vai um polícia marítimo, caso encontrem alguma embarcação e seja necessário abordá-la. Primeiro, tentam ir para norte mas assim que chegam à ponta da ilha perdem a protecção oferecida pela costa e o mar tornar-se ingovernável. Os botes saltam as ondas e ficam suspensos no ar, caindo com estrondo nos baixios de massa de água. Resolvem inflectir e agora que seguem a favor da ondulação a navegação torna-se mais suave, mas logo que atingem o extremo sul da ilha, o episódio repete-se. Não está para brincadeiras.

Filipe Araújo, o documentarista, queixa-se e o patrulhamento é abortado. De novo em terra, percebo o que se passou: Filipe tem as mãos em sangue, pela força que fez para se agarrar às amarras. E lamenta-se do estado deplorável em que ficou a sua coluna, com os embates do bote nos baixios. Estava demasiado tenso e isso só piorou. Felizmente, a equipa de fuzileiros inclui um socorrista.

À noite, durante o jantar, não há outro tema de conversa. É uma pequena história para os fuzileiros contarem quando voltarem ao continente. E se rirem com ela.

. Leia na Única, sábado dia 17 nas bancas, a reportagem "O senhor das Selvagens"

. Veja o documentário completo "Selvagens: A última fronteira" na SIC Notícias, dia 17, às 18h