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Selvagens - Diário de viagem

Regresso no Zaire

Docentes insatisfeitos com o novo regime de avaliação ao seu desempenho

Amanheceu com bom tempo na Baía das Cagarras. O navio-patrulha da Marinha pode aparecer a qualquer momento no horizonte. Como o mar está calmo, vai poder amarrar à bóia. Rosário, o vigilante que tomou o gosto de dormir ao relento, já arrumou o saco-cama. Foi o primeiro a estar pronto para a viagem. Um dos avisos que mais ouvi nos últimos dias foi para ter tudo a postos para partir porque há sempre imprevistos. Às vezes, a Marinha vem mais cedo e quer arrancar logo de seguida.

Com alguma tristeza, reconheço que não cheguei a fazer uma volta completa à ilha. Nem por mar, nem por terra. Como é que foi possível não o ter feito em nove dias e num pedaço de terra que não tem mais do que 245 hectares? Incrivelmente, a minha pequena agenda acabou por estar sempre preenchida com qualquer coisa que Frank ou o vigilante Manuel José tinham para fazer e que eu não queria perder de vista. Por outro lado, talvez fosse o meu inconsciente a trabalhar para ter um pretexto para voltar um dia às Selvagens.

Mas será um regresso difícil. O mais provável é nunca mais me cruzar com esta latitude perdida do oceano Atlântico, onde não há hotéis para turistas. Só quem tem autorização do Parque Natural da Madeira é que pode vir a terra. Talvez pudesse voltar se me oferecesse como voluntário para ajudar no trabalho de erradicação da tabaqueira azul. Conjecturas.

Passo a manhã no alpendre da casa do parque, a observar e a rever notas escritas. Os faroleiros e o deputado Fernão Rebelo de Freitas fazem-me companhia. Estamos à espera da nossa boleia. Engraçado como conseguimos ser tão iguais enquanto estivemos numa ilha deserta. E como aprendemos a estar em silêncio.

Frank e Buffy continuam tão atarefados como ontem à tarde, arrumando as últimas caixas e levando-as para junto da rampa.

O patrulha encostou à bóia, entretanto. O comandante e um dos imediatos vêm a terra e trazem uma encomenda especial para o deputado: a última edição do Expresso e uma caixa de vinho alentejano, Chaminé, produzido por um dinamarquês na Vidigueira. Foi um trunfo bem jogado, para dar dignidade à despedida. O almoço é servido na varanda natural que existe sobre a casa do parque, perto da churrasqueira e do forno de lenha. Brinda-se às Selvagens.

De volta ao alpendre, invertemos papéis. Eu, José e Filipe deixamo-nos estar sentados e é o vigilante Manuel José que brinca aos repórteres, depois de ter sido massacrado durante tanto tempo com as objectivas. Pega na câmara de filmar e, bem disposto, pergunta-me como é que foi a experiência de passar estes dias na ilha. Digo-lhe como acabou por ser uma surpresa bem preenchida e de como me faltou tempo para ler os livros que tinha levado na mala.

Embarcamos, finalmente. Manuel José está emocionado. Vai ficar para trás. Durante algumas horas ficará completamente sozinho na ilha, enquanto Cristina, a engenheira, e Rafael, o biólogo, nos acompanham até à Selvagem Pequena, onde dois vigilantes do parque têm estado sozinhos.

Mais pequeno do que uma fragata, o patrulha é, ainda assim, suficientemente grande para ter um bar com algumas mesas no piso do convés, mais à ré, onde vendem cerveja gelada. Há sempre homens em descanso, sentados de volta dos seus computadores portáteis ou a dormir nas camaratas debaixo do convés.

São dez milhas náuticas até à Selvagem Pequena. As águas são claras à volta da ilha. Vamos no bote dos vigilantes. O cenário é muito diferente da Selvagem Grande, que se parece muito mais com um rochedo. Aqui há uma praia numa pequena baía e uma planície com uma duna onde as aves marinhas têm ninhos em buracos. Nessa planície existe uma pequena barraca de madeira que serve de casa para os dois vigilantes do Parque. Dez metros quadrados com duas camas, um frigorífico, um televisor, um radiotransmissor e, lá fora, um alpendre com uma mesa de madeira.

É um momento de descompressão. Depois de um pequeno passeio por uma das margens, onde estão as camadas de ferrugem que sobram de um navio encalhado, estamos à soleira da barraca da Selvagem Pequena. Os faroleiros já regressaram do Pico do Veado, onde foram verificar o estado do farolim, e fazemos uma fotografia com toda a gente, os Zino, os pedreiros, o deputado, o biólogo, a engenheira florestal, os vigilantes. Parecemos um grupo expedicionário a África. São daquelas imagens para mostrar aos netos.

De novo no patrulha Zaire, já com a luz a começar a baixar sobre o horizonte. Vamos passar ao largo da Selvagem Grande, para deixar Rafael, o biólogo, e Cristina, a engenheira florestal. No convés vejo como as cagarras voam em direcção à ilha, quase coladas às ondas, como se fossem aves surfistas. São rápidas, e assim que querem se apressar, deixam o navio para trás.

Amanhã de manhã estarei no porto do Funchal. Não há alojamento para nós no patrulha, cada um terá de arranjar um cantinho para dormir. Que melhor sítio do que o bar, de pés esticados e um saco-cama sobre as pernas? No televisor algum marinheiro lembrou-se de pôr um filme sobre um submarino amaldiçoado. É um regresso apropriado para quem vem de uma ilha perdida no meio do Atlântico. Vai ser uma noite longa.