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Selvagens - Diário de viagem

Postais para casa

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Dia de filmagens com o vigilante, finalmente. Planeámos uma entrevista mais longa, que servisse de suporte para o documentário que estamos a desenvolver a par da reportagem escrita para o Expresso. Há dias que vimos falando da gravação, mas Manuel José tem mostrado sempre alguma ansiedade. Agora, já é mais do que ansiedade. Está nervoso. A primeira parte é filmada no alpendre da casa, com a caixa de correio como pano de fundo.

As Selvagens têm o posto dos CTT mais a sul de Portugal. E, como em tudo o resto na ilha, é também o mais isolado. Foi inaugurado em 2003, para a visita do presidente Jorge Sampaio, e tem um modo de funcionamento muito peculiar. Qualquer pessoa que desembarque na Selvagem Grande pode comprar um postal e um selo por um euro e enviar para casa. O carteiro é o próprio vigilante, que leva a correspondência quando é rendido, entregando-a no Funchal aos serviços de correio, o que quer dizer que o postal pode seguir só três semanas depois.

A segunda parte das filmagens com Manuel José é feita nas rochas, sobre as águas quietas do portinho. Claro que chamar portinho a um conjunto de rochedos que formam uma baía é um exagero. Mas é o local de águas mais sossegadas, de qualquer forma. E um dos preferidos do vigilante. Dá para sair de casa e mergulhar de imediato. Peixes de várias cores - roxos, prateados com faixas amarelas, pretos com faixas azuis - passeiam-se sobre o cais submerso na maré-cheia. Daí o outro nome dado ao portinho: aquário.

Ao almoço, os faroleiros estão de novo em acção. Preparam um atum salteado com batata cozida. Mas vamos antes à varanda de Frank Zino, que nos convidou para provar um sushi de atum. O peixe está cru e é óptimo, com um pouco de vinho Serras de Azeitão, enquanto os pedreiros retomam os trabalhos, enxertando novas camadas de cimento sobre os muros. O médico inglês conta histórias antigas da ilha, com os antigos guardas que conheciam o território de olhos fechados. Almada era um deles. Antes de ser guarda, tinha sido um caçador de cagarras. Depois acabou por ser contratado pelo pai de Frank para cuidar da ilha e chegou a passar temporadas de dois meses no portinho.

O regime de banhos tornou-se uma rotina. Há quatro dias que não tomamos um duche de água doce. O esquema alternativo até é mais agradável: calço as barbatanas, ponho os óculos e, ao fim de um passeio pelos rochedos, lavo-me no cais. Tendo em conta que o tempo continua fechado e a temperatura não tem como subir no termómetro, a melhor hora é antes ou depois de almoço, quando o dia está mais quente. Ou - no caso desta semana atípica de Verão - quando faz menos frio.

Frank veio até ao alpendre da casa dos vigilantes trabalhar um pouco no seu computador, aproveitando para carregar a bateria. Tem estado a escrever um diário que inclui as pequenas peripécias destes dias. Mas é interrompido. Chamam-lhe do rádio. É um amigo basco que está perto da Selvagem Grande no seu iate para uma visita. Frank diz-lhe para não atracar na bóia e fundear ao lado, prevenindo-o para os baixios rochosos.

Uma pequena comitiva de boas-vindas faz-se ao mar de bote: o vigilante Manuel José, Frank e a mulher. O Arin não é bem um iate de recreio. É um barco de cinco milhões de euros, com mais de 20 metros de comprimento e potentes motores capazes de fazer a distância entre o Funchal e a Selvagem Grande em poucas horas. Foi preparado para a pesca grossa e da costa vê-se arrumada no convés uma imponente colecção de canas de pesca. Vinham a perseguir um blue marlin há 800 quilómetros por radar, mas acabaram por lhe perder o rasto e resolveram passar pela Selvagem Grande para jantar com os Zinos.

No alpendre da casa da reserva, os faroleiros e o deputado observam atentamente os movimentos no convés do Arin. Quando regressa a terra, a comitiva traz novidades. Por segurança, o patrão do barco decide ir passar a noite à Selvagem Pequena, onde o risco de chocar contra uma rocha é bem menor. Talvez amanhã regressem aqui para o almoço. Para já, a boa notícia é que nos ofereceram duas garrafas de Johnie Walker Red Label, terminando assim por mais algum tempo a nossa abstinência de álcool. Um punhado de voluntários oferece-se de imediato para preparar uma poncha com mel e sumo de laranja concentrado. Copos ao alto: "Ao Arin".

O mundo lá fora está mais distante do que os 300 quilómetros que nos separam da Madeira. É verdade que as transmissões de televisão são racionadas para evitar grandes gastos de energia, mas o hábito de termos relações cortadas com o exterior é contagiante e ninguém se lembra de ligar a SIC Notícias para saber o que se passa em Portugal. Desta vez, no entanto, concentramo-nos durante uns minutos nos cadeirões almofadados da sala para nos pormos a par. Scolari renovou o contrato com a selecção portuguesa por mais dois anos e a situação no Médio Oriente está cada vez mais crítica. Os israelitas têm atacado posições do Hezbollah no Líbano, que tem retaliado com bombardeamentos a Haifa.

Parece estranho, mas até agora só tivemos uma refeição de peixe desde que chegámos. Ao jantar, repete-se aquilo que já vem sendo uma tradição da nossa estadia: carne outra vez. Bifes com cogumelos e um molho feito a partir de sopa de rabo de boi, acompanhado de massas coloridas. "Vou para o Funchal mais pesado do que vim", diz o deputado Fernão Rebelo de Freitas.

À uma da manhã, o petromax que os Zinos têm na mesa da varanda ainda está ligado. Trabalham até tarde. Está nublado e deste lado da ilha não se vê a lua. A escuridão é total no portinho das Cagarras e o barulho que as aves fazem ao cruzar o céu da baía é ensurdecedor. Não se sentem intimadas pela presença humana e estão em todo lado, fazendo voos rasantes na falésia onde as casas estão situadas. As almas negras parecem cães desalmados a cantar, ajudando a que o cenário seja um pouco fantasmagórico.

Nestes momentos, tomamos consciência de que estamos numa ilha deserta. As luzes apagam-se em casa e a cadela aninha-se à porta de casa de banho, enquanto os residentes adormecem com a estridência na falésia, que vai durar até de madrugada.