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Selvagens - Diário de viagem

Passeio de domingo

Docentes insatisfeitos com o novo regime de avaliação ao seu desempenho

Ontem tivemos um fim de noite divertido, dentro das possibilidades. Reaprendi as regras da sueca na mesa do alpendre e fiz equipa com José, o fotógrafo, contra Manuel José, o vigilante, e Cristina, a engenheira florestal. Volta e meia, um roque de castro embatia contra as vidraças, entontecido pela luz da casa. Perdemos todos os jogos de cartas menos um, em que conseguimos um empate técnico. Em compensação, provámos um pão com chouriço ainda quente e fizemos companhia a Rosário, o faroleiro, durante meia hora nos cadeirões da sala. Rosário estava a ver o filme O Patriota, no canal AXN, com Mel Gibson. Mas como nos podíamos concentrar na televisão com a passarada irrequieta lá fora?

De manhã, silêncio. Com a alvorada, parte das cagarras foi para o mar e a outra parte está a aproveitar o sossego para manter tranquilamente os ovos quentes nos seus ninhos. De acordo com Rafael, os primeiros ovos devem eclodir entre hoje e amanhã. O período de incubação começou no final de Maio e normalmente dura dois meses.

Na mesa do alpendre, o ambiente está descontraído. Há pão fresco para barrar com manteiga. As pessoas tentam mentalizar-se que é domingo. Frank vem ter connosco, para carregar a bateria do computador. Talulah, o catamaran que veio passar a noite às águas do portinho, foi-se embora sem contactar uma vez sequer com a ilha por rádio. Frank lamenta o facto: "Acho inacreditável". E, a propósito de comunicações por rádio, conta um pequeno episódio que não sei se é verdadeiro ou não: um navio encontrava-se em apuros, navegando descontrolado contra as rochas, e o comandante nada dizia no rádio, até que do outro lado lhe pediram. "For god sake, at least say good bye".

Bufy, a mulher de Frank, acrescenta uma pequena piada sobre o mestre de um barco que estava a afundar no mar e que gritou no rádio: "Mayday, mayday. We are sinking". Do outro lado respondeu um alemão: "What are you thinking about?" Humor de linguagem.

Saímos para o mar pela segunda vez. Como é domingo, é mais um passeio do que um patrulhamento. A ondulação acalmou desde que chegámos à ilha e, em princípio, não vamos repetir a experiência de saltos aéreos que tivemos com os zebros dos fuzileiros. Corremos a costa sul de bote, fazendo o reconhecimento das falésias que já percorremos várias vezes a pé: a baía das galinhas, logo à saída do portinho das cagarras, e a baía das quebradas, o local onde se vai buscar lenha normalmente. Na encosta há uma mancha de pedregulhos em posição instável que lembra a forma de um coração gigante. Manuel José chama-lhe Adidas, por causa do logótipo da marca.

Cristina, a engenheira florestal, conduz o barco durante um bocado, com Manuel José ao lado, atento à maneira como ela gere a velocidade com o punho do motor. "É a primeira vez que pega num bote? Não acredito".

Tentamos virar para a costa nordeste, para revermos de longe a falésia da gruta do capitão Kid, mas como o vento vem dessa direcção, o mar não está muito convidativo. Voltamos para trás, para percorrermos a costa ocidental. Perto da falésia do pico da Atalaia, há uma gruta com acesso apenas de barco. É uma espécie de corredor rochoso, com dezenas de grandes caranguejos encarnados espalhados pelas paredes de basalto que fogem assim que dão conta da nossa presença. Mesmo com o tempo encoberto, a água mantém a cor. É um azul petróleo que se transforma provavelmente em turquesa quando há sol. Ponho os óculos e mergulho a cabeça, de corpo deitado no bote. Devemos ter assustado os peixes também. Não vejo nenhum no fundo.

Paramos numa plataforma rochosa, um pouco mais para norte, de onde se avista o farol lá no alto. Manuel José tira uma lapa de uma poça e come-a viva à nossa frente. Diz que é saborosa mas não me convence a provar. Imagino o corpo viscoso do molusco a dar luta dentro da boca. Dantes, o velho Almada, que já vem sendo uma personagem recorrente nas histórias sobre a ilha, descia a parede íngreme da encosta com mais de 100 metros de altura, para encher sacas de lapas. E voltava para cima ao fim de meia hora com dezenas de quilos às costas. Isso era ainda no tempo em que a apanha de lapas não estava proibida pelo parque.

No regresso, com as nossas roupas ensopadas das ondas mais vivas, nova sessão de mergulho sem garrafa. Bastou pôr o pé na água, junto ao cais, e boiar de barriga para baixo. O local está sobrelotado de pequenas espécies de peixes. José, o fotógrafo, leva migalhas de pão na mão e à medida que as distribui vai sendo cercado por cardumes. "Tenho pena de não ter trazido uma caixa estanque para a câmara".

Os Zinos são convidados para o almoço na mesa do alpendre. Somos catorze. A ementa: caldeirada com bodilhões e peixe-cão. Rafael, o biólogo, explica que os bodilhões das Selvagens não são iguais aos do continente: "Os daqui na verdade são peixes-papagaio. Se repararem, têm uma boca parecida com a boca de um papagaio". A maior parte das espécies que se encontram debaixo de água, segundo ele, já são subtropicais. Daí a variedade de cores. Estamos ao lado de África.

Apesar da oferta fresca que existe à porta de casa, os peixes que estamos a comer vieram do congelador. Manuel José justifica-se: "Tenho de ir libertando espaço para os mantimentos que os próximos vigilantes vão trazer, dentro de duas semanas". Frank foi generoso e trouxe um balde com cervejas Coral, da Madeira. Dá uma para cada. E ainda vieram mais três garrafas de vinho tinto alentejano do Monte das Ânforas.

Os bodilhões têm algumas espinhas, mas são saborosos. Rafael tem menos sorte, porque lhe calha um peixe-cão. "Alguém quer trocar? Preferia não o comer. É a coisa mais próxima do cão que eu conheço", diz, emendando a seguir: "Estou a brincar". Mas Manuel José já tinha aproveitado a deixa para provocar a risada geral: "Isso não é verdade. A coisa mais próxima do cão é o cachorro quente".

A meio da tarde, o sol desponta. Demorou a semana inteira a aparecer. José, o fotógrafo, andava desanimado com a luz cinzenta que tinha para trabalhar e estava à espera que o tempo melhorasse para fazer um retrato em condições dos Zinos. Arriscava-se a embarcar para o Funchal de bolsos vazios, mas todos os diabos têm sorte.

Pôs-se um fim de tarde magnífico e o casal de ingleses acedeu a ir com José até à encosta da Atalaia, para serem fotografados com calma e paciência. Há ainda mais cagarras na ilha do que ontem. A sessão dura mais de uma hora, enquanto as aves vão lhes sobrevoando as cabeças. No mar, muitas delas aguardam pousadas sobre a água a melhor altura para virem para terra. Frank aponta para lá: "Chamam-lhes jangadas".