Siga-nos

Perfil

Expresso

Selvagens - Diário de viagem

Partida no João Belo

Docentes insatisfeitos com o novo regime de avaliação ao seu desempenho

José Ventura

O taxista avança a medo pelos sinais de trânsito. Eles dizem "proibido a viaturas estranhas ao serviço", mas insisto para que siga em frente até ao cais principal. Que remédio: é obrigado a continuar, percorrendo o pontão do porto do Funchal. Não temos tempo de ir a pé.

A fragata João Belo está escondida por um enorme paquete inglês adormecido no pontão. Os motores da fragata estão a trabalhar há mais de duas horas (segundo mais tarde me disseram), largando uma nuvem branca de fumo. No cais, o comandante Félix Marques acena-nos com uma boa disposição surpreendente. Trocamos cumprimentos rápidos. Ele fica, nós vamos. "Boa viagem!" Somos os últimos a embarcar.

O dia começara com um contratempo muito chato. Na verdade, eu já perdera a esperança de viajar nesta altura do mês (estamos em Julho de 2006), mas tudo se precipitou e a pressa trouxe consequências imprevistas. Depois de alguns contactos cruzados com a marinha e com o Parque Natural da Madeira, que gere a reserva integral das Selvagens, só dois dias antes foi-nos garantido alojamento na ilha maior do pequeno arquipélago - a Selvagem Grande. Por isso as passagens de avião para o Funchal acabaram por ser adquiridas na Internet no sábado à noite e hoje de manhã, segunda-feira, uma surpresa desagradável estava à nossa espera no aeroporto de Lisboa: os bilhetes tinham sido comprados mas não chegaram a ser emitidos pela agência, o que nos fez perder o voo que nos punha no Funchal à hora de almoço, impedindo-nos de ir ao supermercado comprar os mantimentos para conseguirmos sobreviver durante a estadia com comida suficiente.

No fim, e depois de o voo onde seguimos ter tido um atraso de uma hora por causa de uma greve dos funcionários da limpeza do aeroporto da Portela, em Lisboa, a marinha resolveu dar-nos alguma tolerância, tendo em conta que a próxima partida seria apenas dentro de nove dias, fazendo os nossos planos iniciais caírem por terra. O problema dos mantimentos foi resolvido com pragmatismo militar: comprámos algumas caixas de comida ao próprio comando naval, que decidiu por conta própria o que nós deveríamos precisar e tratou de armazenar tudo a bordo, na arca frigorífica, sem que tivéssemos de pensar mais no assunto. O único senão: não vamos ter opção de escolha nas bolachas e nas batatas fritas. Nem no vinho. Estamos à mercê do bom gosto dos militares.

A fragata João Belo sai assim - por nossa inteira culpa - com mais de uma hora de atraso. É um navio de guerra velho e cansado. Deu nome à sua classe de fragatas por ter sido o primeiro de três a serem entregues à marinha portuguesa, em 1967, para ajudarem no esforço da guerra do Ultramar, na África portuguesa. Deverá também ser o último dos três a ser abatido. Por enquanto, vai dando para o serviço de patrulhamento da zona marítima portuguesa - o que já é bastante, tendo em conta os Açores e a Madeira, além da costa continental, que vai desde a Galiza até ao sul de Espanha.

Além dos mais de 170 tripulantes e da equipa do Expresso, seguem a bordo outras pessoas com destino às ilhas Selvagens: três faroleiros, o vice-presidente da Assembleia Regional da Madeira, Fernão Rebelo de Freitas, um médico inglês chamado Frank Zino mais a sua mulher Elisabeth, também inglesa, e dois pedreiros que vão com o casal. Todos eles vão lá ficar durante os próximos nove dias.

Preocupa-me sobretudo o ânimo de José Ventura, o fotógrafo, que soube que ia para as Selvagens na antevéspera, acabado de regressar de uma reportagem de quatro dias em Madrid. Vai ser um choque cultural - da capital espanhola para uma ilha praticamente deserta durante tantos dias. Mas a boa disposição das primeiras horas - e apesar dos contratempos - faz crer que tudo vai correr bem.

Espera-nos uma longa viagem. O navio parte às seis da tarde, ainda com o sol levantado sobre o horizonte, e só deverá chegar ao seu destino às oito horas da manhã do dia seguinte. Podia demorar menos tempo, mas seria contraproducente. "Não está a ver nós tentarmos um desembarque durante a noite, pois não?", diz um dos imediatos.

As Selvagens ficam a 162 milhas (mais de 250 quilómetros) da Madeira e são o ponto mais a sul do território português. E o mais isolado. A semana que se segue vai ser, de longe, a mais povoada do ano inteiro.

A vida a bordo parece pouco divertida, ainda que os marinheiros se esforcem em fazer do navio algo vagamente parecido com uma casa habitável. Nas áreas mais profundas, debaixo do nível do mar, onde o barulho é ensurdecedor, há cartazes de chimpanzés com alcunhas de marinheiros escritas a caneta de feltro. É uma paródia entre o pessoal. O sistema de ar condicionado não é de origem, mas é suficientemente obsoleto para ocupar muito espaço. Está instalado na mesma sala onde funcionam duas máquinas de transformação de água salgada em água doce. A água produzida nestes dessalanizadores serve para os banhos e para a cozinha, evitando o racionamento que existe noutros navios tão velhos como o João Belo mas mais pequenos.

Num canto mais escondido, os chimpanzés dos cartazes foram substituídos por modelos seminuas. A presença de mulheres militares a bordo limita a forma como os homens expressam as saudades de terra e obriga a que sejam muito criteriosos em escolher os locais para pendurar os calendários mais despudorados. Como elas não fazem parte da equipa do ar condicionado, o risco de darem de caras com o mostruário é insignificante.

Mas não se pense que as mulheres têm privilégios. Algumas trabalham em sítios ainda menos agradáveis. Duas ou três delas fazem turnos na sala das máquinas - as verdadeiras catacumbas. O cheiro a gasóleo é permanente e o barulho dos êmbolos não estimula grandes conversas. O único sítio suportável é uma pequena cabina de vidro imune ao cheiro, ao calor e ao barulho, onde os marinheiros montaram um pequeno sistema de colunas para ouvirem música durante os períodos mortos. É daqui que se controlam os cavalos do navio e a velocidade a que ele vai.

O navio é auto-suficiente e é capaz de passar muitos dias sem ter de reabastecer, se bem que o máximo que a velha classe João Belo faz é ir até ao Mar do Norte ou aventurar-se um pouco mais para baixo na costa africana, como aconteceu no final dos anos 90 quando foi dar assistência à Guiné-Bissau, depois de Assumane Mané e os seus homens se revoltarem contra o regime do presidente Nino Vieira.

Na câmara de oficiais, o jantar é organizado por turnos. Não há lugar para todos ao mesmo tempo. É a sala mais agradável a bordo. Tem um espaço com sofás e uma televisão capaz de apanhar, em alto mar, a TV Cabo por satélite. Uma porta dupla de madeira e vidro dá para uma pequena varanda a estibordo. Nas paredes, quadros a óleo retratam grandes veleiros, conferindo alguma nobreza às refeições.

"Temos a melhor escola de cozinha das forças armadas", diz um dos oficiais à mesa, enquanto somos servidos de almôndegas e puré de batata artisticamente arranjado sobre umas rodelas de laranja. É provável que tenha razão.

O serão é curto. Depois de estendermos as pernas na ponte de comando e observarmos as cartas electrónicas que mostram as Selvagens e a extensão da Zona Económica Exclusiva Portuguesa, recolhemo-nos aos aposentos. É provável que amanhã o dia comece muito cedo.

Dormimos numa camarata que tem a alcunha de Cova da Onça, mais à ré, debaixo do corredor principal da fragata. É um alojamento pouco promissor. Calhou-nos um boliche de três camas onde o maior cuidado, além de tentar dormir, deve ser com a cabeça. Uma tentativa mais brusca de levantar o corpo pode dar um galo simpático. Da forma como o mar está, vai ser um sono bem embalado.

. Leia na Única, sábado dia 17 nas bancas, a reportagem "O senhor das Selvagens"

. Veja o documentário completo "Selvagens: A última fronteira" na SIC Notícias, dia 17, às 18h