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Selvagens - Diário de viagem

O adeus aos fuzileiros

Docentes insatisfeitos com o novo regime de avaliação ao seu desempenho

A primeira noite da ilha deu para ver como vai ser daqui para a frente. Há uma banda sonora incansável a grasnar até de madrugada. As cagarras parecem sofrer de insónias e não largam o portinho. E são tão temerárias que podem passear no alpendre sem medo da nossa presença. O espaço aqui é de todos. Incluindo das aves marinhas.

Um dos faroleiros foi corajoso e resolveu dormir ao ar livre. Não consta que tenha passado mal a noite. Pelo menos, está bem disposto e não tem olheiras. O pequeno-almoço é tomado ao ritmo de cada um, na mesa grande do alpendre, ao ar livre. Há mel, doce, manteiga e pão de pacote.

Em duas semanas, formou-se uma pequena comunidade provisória no lugarejo. Os fuzileiros e o vigilante passaram a fazer refeições conjuntas. A solidão e o ambiente inóspito aproximam, invariavelmente, as pessoas. "Se podemos nos ajudar uns aos outros e confraternizar porque não o havemos de fazer?", diz Manuel José, o vigilante.

Os fuzileiros vieram preparados para tudo. Trouxeram, inclusive, sacos com reservas de água para os seus banhos. Mas usaram o chuveiro de campanha poucas vezes. Está meio abandonado na plataforma de cimento onde existe um estendal de roupa. O vigilante acabou por lhes ceder a casa de banho. O chuveiro é de água salgada (bombeada para um depósito da casa do parque).

Foram as primeiras instruções que recebemos: como gerir a água e a electricidade.

A água doce é um grande problema logístico. Talvez o maior. O que há na ilha vem da chuva e chove muito pouco. A caminho do farol, foi construído um reservatório para onde escorre a água que vem das partes mais elevadas. É uma cisterna com seis metros de profundidade que é preciso gerir com inteligência. Uma vez passaram-se três anos sem chover. "Se acaba a reserva temos de nos socorrer dos navios-patrulha, que nos dispensam água dos seus depósitos", diz Manuel José.

No lavatório, a torneira da esquerda é água do mar e a da direita é água doce. A loiça deve ser lavada com água salgada e só no fim se passa por água doce. E não se pode tomar banho todos os dias, mesmo com a bomba de água salgada. É demasiada gente. A alternativa é ir ao mar.

Com a energia, a política também é de poupança. A electricidade é produzida através de três painéis solares instalados no terraço da casa do parque. É preciso estar sol para que a energia acumulada durante o dia aguente bem os gastos da noite. Com a presença dos fuzileiros, Manuel José decidiu racionalizar mais os usos. Durante o dia está tudo apagado. Assim, à noite ainda é possível ver um pouco de televisão.

Antes do almoço, vamos até ao planalto com Rafael Matias, o biólogo, e Cristina Medeiros, a engenheira florestal, funcionária do parque tal como Manuel José. Rafael está cá há um mês e vai voltar mais duas vezes este Verão, para poder terminar o estudo que está a fazer sobre o comportamento das cagarras, através de uma bolsa de investigação do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA). Cristina veio fazer monitorização de plantas invasoras, controlando o que resta das tabaqueiras azuis, uma planta que alguns pescadores tentaram introduzir na ilha para lhes servir de lenha nas estadas que faziam dantes, até aos anos 70, quando vinham caçar cagarras.

Rafael tem acompanhado uma série de ninhos dispostos num muro de pedra em pleno planalto. E todos os dias tem de tirar com uma luva as aves dos ninhos, uma a uma, medi-las e pesá-las. É um processo monótono, mas com algumas surpresas: cada ave tem um temperamento diferente. Umas deixam-se estar quietas, outras dão bicadas. Não são muito diferentes de nós.

De regresso à base, há uma pilha de caixotes metálicos na rampa prontos para embarcar nos botes. Os fuzileiros e os polícias marítimos aguardam instruções para partir. A fragata João Belo foi ontem até à Selvagem Pequena, poucas milhas para sul, e passou lá a noite, fazendo depois um patrulhamento pelos limites da Zona Económica Exclusiva.

As despedidas são feitas com alguma emoção. Sobretudo depois de ontem à noite. Segundo me contaram (estava cansado e fui dormir mais cedo), houve tertúlia até bastante tarde, com uma relação directa no stock de álcool. As reservas de vinho entraram em falência técnica.

Vão ser dias menos congestionados, sem os militares. O dr. Zino andou um pouco desconsolado com a confusão que encontrou. Não lhe tinham pedido autorização para acampar no terraço e isso transtornou-lhe a agenda. "Só hoje ao final do dia é que devo ter condições para começar a trabalhar e estar em casa. O terraço é tudo. É lá que fazemos a nossa vida". O médico trouxe um computador portátil onde está a escrever um diário da estada e, além disso, tem pela frente idas diárias ao planalto, onde está a estudar mais de 100 famílias de cagarras, para comparar os seus hábitos em relação à colónia que existia no início dos anos 80. "Quero entender as diferenças entre agora e a época em que existiam cabras e coelhos".

À noite, com baixas significativas entre os convivas, temos o primeiro churrasco. Os pacotes de vinho que sobraram ainda vão dar para uma sangria.