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Selvagens - Diário de viagem

A vertigem das falésias

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Começo a perceber que é difícil cumprir uma agenda nas Selvagens. Parece que há tão pouco para fazer aqui, mas a verdade é que as pessoas também não são muitas e o trabalho acumula-se rapidamente. A entrevista com o Manuel José, o vigilante, estava prevista para de manhã, mas o trabalho de Rafael, o biólogo, está a ficar atrasado e é preciso apoio. Acabamos por ir com Frank e a mulher na sua visita diária à encosta do Pico da Atalaia, para verificar parte da colónia de cagarras. Hoje levam uma pequena lata de tinta branca com eles para repintarem os números que identificam os ninhos das aves.

É um passeio emocionante, na ponta ocidental. O caminho não está todo marcado e é uma sequência de pequenos desvios para baixo e para cima, em volta das reentrâncias na rocha vulcânica da encosta que servem de apartamentos de cagarras com vista para o mar. Frank estuda esta encosta há mais de 20 anos. "Sei como os caminhos fluem. Dantes não havia números nos ninhos, mas eu conhecia-os todos de cor".

José, o fotógrafo, mede as coordenadas num aparelho de GPS: estamos a 100 metros de altura. A falésia continua para baixo, em direcção ao mar da costa ocidental, e também para cima, onde se situa o farol, no pico da Atalaia, o ponto mais alto da ilha, com 163 metros sobre o nível do mar.

Frank e Buffy fazem um bom trabalho de equipa. Enquanto ele identifica os números mais apagados e os vai registando no seu velho caderno de anotações, ela pinta-os de novo de branco com um pincel.

A encosta tem várias cambiantes de cor, à medida que as formações geológicas se vão transformando até chegarem ao mar. A zona dos ninhos, mais elevada, parece um enorme manto de pedra-pome de um castanho avermelhado.

Virados de costas para o mar, acompanhando a rotina do casal de ingleses, facilmente esquecemos a altura a que estamos. Há muitas pedras soltas e Filipe, o documentarista, escorrega ao subir para uma plataforma com a câmara e o tripé montados. Acaba por escorregar um pouco, levando o material ao chão. Foi um pequeno susto. A melhor forma de recuperar a calma é sentarmo-nos durante um bocado e apreciar simplesmente a paisagem. A poucas milhas, o barco Pesca Atum parou para continuar a sua faina do gaiado (atum).

Quando regressamos à base do portinho das cagarras, já são quase duas horas da tarde e o almoço está na mesa. Os faroleiros têm sido assíduos na cozinha. Desta vez foi Calaça a preparar uma sopa com um pouco de tudo lá dentro: massa, batatas, legumes e chouriço. É uma das surpresas da ilha: como estamos longe de tudo, damos valor às mais pequenas coisas. Talvez por isso a comida esteja sempre tão saborosa. É difícil perceber se é apenas da sugestão ou se os cozinheiros são realmente excepcionais.

À tarde, e dada a escassez de mão-de-obra, a equipa do Expresso é requisitada por Frank Zino para ajudar a montar uma rede de aves um pouco acima de sua casa, na encosta. "Quero apanhar roques de castro e almas negras", diz. São dois postos metálicos com uma rede fina no meio onde as aves são apanhadas de surpresa. A ideia é capturá-las, aninhá-las, medi-las e devolvê-las de seguida à natureza.

Entretanto, outra surpresa: o barco Pesca Atum resolve pernoitar nas águas mais calmas do portinho das cagarras. Com a aproximação do pesqueiro, o vigilante pega no bote e vai ter ao encontro deles. A intenção do mestre era atracar o barco à bóia, mas não vai ser possível. Está reservada apenas para a Marinha. Assim, terá de lançar a âncora ao mar. Quando Manuel José regressa a terra está toda a gente à sua espera. Qualquer coisa que acontece na ilha chama sempre a atenção. É uma recepção efusiva: o vigilante traz consigo um balde com cinco gaiados (pequenos atuns), oferta da tripulação do barco.

Não faltam mãos. Os três faroleiros, o deputado e o vigilante vão buscar facas e arranjam o peixe mesmo ali, junto ao cais. Vai servir de refeição para vários dias. Poucos minutos depois chega também Frank, vestido com um fato térmico e de arpão na mão. Veio de uma pequena incursão de caça submarina para arranjar jantar para si, para a sua mulher e para os dois pedreiros que estão em sua casa a reparar as paredes e os muros. Apanhou meia dúzia de bodilhões - uma espécie abundante junto à costa das Selvagens. 

Ao jantar, há no entanto novo churrasco de carne. Manuel José já tinha descongelado duas peças de picanha argentina para grelhar no patamar do forno de lenha, a acompanhar com um arroz frito com passas e pinhões. O único senão: só há água para beber.

A digestão é feita em casa de Frank. Sobre a mesa, na varanda, improvisou um pequeno laboratório de biologia. Há instrumentos de medição e seringas para tirar amostras de sangue aos roques de castro, aves parecidas com as almas negras, mas mais pequenas, com faixas brancas junto ao rabo, contrastando com o corpo totalmente preto. A rede apanhou 11 aves, já depois do anoitecer, no regresso delas aos ninhos das encostas. Algumas das aves são almas negras. Com os seus óculos sobre o nariz, Frank parece aquilo que é: um ornitólogo inglês dos velhos tempos e que tem uma paixão grande por locais remotos e agrestes. Anotando as medidas de comprimento do bico e das asas, a mulher dele tem o mesmo perfil aventureiro e romântico. Mas o seu ânimo é um pouco mais pequeno: "É a última ave, Frankie? Estou com sono".