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Expresso

Selvagens - Diário de viagem

A pescaria

Docentes insatisfeitos com o novo regime de avaliação ao seu desempenho

Há um único despertador na Selvagem Grande que, além do mais, não serve para acordar ninguém. A sua função é alertar Manuel José, o vigilante, para as horas em que tem de fazer comunicações por rádio para as informações de rotina. Para o resto, é a natureza a ditar as suas regras: acorda-se naturalmente, adormece-se naturalmente.

É dia útil e Manuel José sobe a encosta virada para a ponta do Inferno de manhã com Cristina, a engenheira florestal, para ver se encontram tabaqueiras azuis, a planta invasora mais conhecida da ilha, dada como praticamente erradicada. Rafael, o biólogo, vai também para cima, de volta para o muro do planalto onde tem estudado casais de cagarras. Frank e Buffy têm andado, desde ontem, mais em cima dos dois pedreiros porque o tempo passa a correr e arriscam-se a regressar ao Funchal sem as obras terminadas. Ainda assim, o médico arranjou maneira de se livrar durante a manhã.

O casal inglês vai também a caminho do planalto. Querem dar uma vista de olhos ao trabalho do biólogo. Frank e Rafael foram ficando mais próximos ao longo da semana. O biólogo tem andado encantado com as anilhagens nocturnas na varanda dos Zinos, onde às vezes nem é preciso a rede para as aves irem lá ter, de encontro à luz. O médico diz que na Selvagem Pequena o fenómeno é ainda mais impressionante: "Não podem deixar o petromax ligado à noite, porque os calcamares estão sempre a lá parar. Caem na sopa".

Logo à noite, há jantar na varanda dos Zino para todos os residentes. É uma despedida solene às Selvagens. A refeição tem implicações práticas: vai ser preciso pescar em quantidade. A meio da manhã, com toda a gente de regresso ao portinho das cagarras, junta-se uma pequena tripulação no cais: eu, José e Filipe, mais os Zino, Cristina, a engenheira florestal, e Manuel José. O bote vai com a lotação esgotada, mas foi enchido de novo com uma bomba eléctrica para reforçar as condições de navegabilidade.

O mar está calmo. Ao largo do Calhau de Ferro, na ponta sudeste da ilha, é possível parar o motor. O bote embala suavemente nas ondas. Manuel José e Frank mergulham com arpões, enquanto os outros ficam a bordo. Há três rolos de linhas com anzol e duas sardinhas para servirem de isco. O céu está meio nublado mas como o mar é pouco profundo, conseguimos ver os peixes a circularem lá em baixo. Lanço a linha e deixo-a ir quase até ao fundo. A pele da sardinha, no isco, faz o anzol brilhar no fundo. Passados poucos minutos, tenho sorte. Sinto a pressão na linha e puxo-a rapidamente para a superfície. É uma garoupa. Contorce-se no ar, com o anzol preso na boca aberta, enquanto eu a tento pôr no balde.

Buffy felicita-me. É o primeiro peixe que pesco na vida. Ponho a linha de novo na água, sem a deixar ir demasiado para baixo, e acompanho o movimento de um novo grupo de peixes. À vez, vão mordendo no isco, até que um deles cai na armadilha e se prende no ferro. Quando sai da água, retorce-se no ar com força. Peixe-porco. Frank já nos tinha falado desta espécie, mostrando uma cicatriz na perna. Tem os dentes afiados e perigosos. "São capazes de cortar um dedo". Filipe e Cristina assustam-se com os movimentos frenéticos do novo tripulante. Na hora seguinte, apanho mais três iguais. O mar está cheio de peixes-porco. "Na Madeira também são conhecidos por peixe-burro", diz Cristina. "Deixam-se apanhar com facilidade".

Buffy veste o fato de mergulho e vai ter com o marido, para uma pequena volta. Meia hora depois, está novamente toda a gente no bote. Frank e Manuel José apanharam alguns bodilhões e um ou outro sargo. Foi uma boa pescaria. Os peixes são logo preparados no cais: tripas fora, escamas também. Não vai haver falta de comida para o jantar.

A meio da tarde, com Manuel José de regresso à base, acontece um imprevisto. Em contacto com Dília Menezes, a responsável do Parque Natural da Madeira pela reserva das Selvagens, o vigilante descobre que afinal o navio-patrulha Zaire vai partir do Funchal ainda hoje e chega cá amanhã de manhã, antecipando a viagem um dia. Há um pequeno problema que fica, assim, por resolver: os guardas da Selvagem Pequena tinham pedido mais gasóleo, porque as reservas deles estão quase no limite. O combustível é essencial nestas ilhas. Não só fazem os botes andar, como alimentam o gerador eléctrico que mantém os frigoríficos e o rádio de comunicações ligados no caso dos painéis solares falharem.

A notícia significa também que vamos ter, provavelmente, menos dois dias de reportagem. A previsão anterior era de que partiríamos da Selvagem Grande só depois de amanhã ao final da tarde. Um novo contacto com o Funchal, feito por mim directamente para a marinha, clarifica a informação. O navio-patrulha chega à Selvagem Grande de manhã, leva os faroleiros à Selvagem Pequena para eles fazerem a manutenção do farolim da ilha e depois passa de novo pelo portinho das cagarras para fazer o embarque do restante pessoal.

Os Zino estão em contra-relógio. Os pedreiros aceleram o passo, substituindo os parafusos que prendem o telhado da varanda, em lusalite. Os últimos foram colocados há 16 anos e, apesar de galvanizados, cobriram-se de ferrugem. Alguns apodreceram.