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Selvagens - Diário de viagem

A gruta do capitão Kid

Docentes insatisfeitos com o novo regime de avaliação ao seu desempenho

É fim-de-semana, mas não se nota. Os dias são todos iguais aqui. Não há para onde fugir. Às nove já os residentes na casa da reserva estão todos de pé. O plano para hoje de manhã: acompanhar Frank no controlo de ninhos na costa oriental, perto da ponta do inferno e do calhau de ferro. A maré está baixa e com sorte dá para descer a falésia até à gruta do capitão Kid.

O tempo mantém-se inalterável: céu nublado e um pouco de fresco durante a manhã. É mau para as fotografias. Temos notícias de que no continente continua a fazer temperaturas de 40 graus no Alentejo. Manuel José comunica com o posto de rádio do Funchal. Afinal, a directora do Parque Natural da Madeira, Susana Fontinha, já não vem em visita à ilha no dia 17. E o navio-patrulha Zaire só deve chegar cá na quarta-feira de manhã. Devemos embarcar nesse dia à tarde para o Funchal, passando a noite a bordo, tal como na viagem para cá. Tínhamos pensado em pedir uma caixa de garrafas de vinho para brindarmos com todos os residentes, mas com as alterações de calendário, a ideia é abortada. 

No alpendre há uma cagarra morta. Tem uma asa ensanguentada e uma fractura exposta. Rafael, o biólogo, encontrou-a ontem na falésia, ao final do dia, ainda viva e trouxe-a para baixo. Não foi capaz de a matar. "Estava em sofrimento mas para mim é sempre difícil fazer isso a uma ave". Frank, que é médico e tem 40 anos de experiência com aves, faz o favor de tratar do assunto, partindo-lhe o pescoço com a rapidez necessária para a cagarra sofrer o menos possível.

Fernão Rebelo de Freitas, o deputado, e os três faroleiros regressam das falésias a leste carregados de lenha, brandindo-as no ar para os residentes que ficaram em casa. É, de alguma forma, uma façanha. Foram apanhar restos de madeira que o mar traz para terra com as correntes, subindo e descendo a encosta com o peso às costas ou debaixo dos braços. Há um local habitual para a recolha de lenha, numa espécie de piscina a caminho da ponta do inferno que está seca durante a maré baixa.

Partimos para nordeste, com Frank, Buffy e Manuel José. Vamos conhecer uma nova fileira de ninhos que os Zinos têm vindo a estudar há muitos anos. Para aproveitar a maré baixa, vamos primeiro descer a falésia e aceder à gruta do capitão Kid. Se demorarmos muito a ir, arriscamo-nos a não poder voltar porque o mar vai cobrir dentro de algumas horas as lajes que dão acesso à gruta.

É uma descida difícil para quem não se sente à vontade com grandes alturas. Pé ante pé, progredimos em fila indiana, em pequenos ziguezagues, apoiando os pés nas reentrâncias das rochas. São 70 metros até lá baixo. No fim, Filipe, o documentarista, está a escorrer suor do stress provocado por alguns dos trechos mais complicados.

É uma visão quase lunar. A falésia tem uma face esculpida pelo mar, com grandes buracos redondos e cinzentos que foram sendo alisados pela água. Na esquina, um rochedo faz lembrar uma cara humana de perfil, com um nariz saliente, boca e sobrolho.

A gruta do capitão Kid tem uma atmosfera de mistério, ajudada pelo vapor da água do mar que enche a cavidade profunda e achatada. Os tectos são verdes e em muitas partes a humidade torna-os viscosos, pegando-se aos dedos. Há teias de aranhas e algumas cagarras resolveram fazer aqui os seus ninhos. Uma delas não esteve com meias medidas e pôs o seu ovo a meio do chão da gruta, numa posição desprotegida.

O capitão Kid era um pirata inglês do século XVIII que terá escondido algures nas Selvagens um enorme tesouro roubado à coroa espanhola na América do Sul. Uma expedição portuguesa veio à procura do ouro e das jóias no final dos anos 30 e ainda são evidentes os vestígios das escavações. Há um buraco cavado por pás que o mar tratou de alargar nas décadas seguintes. À entrada ainda existe um monte de entulho e numa das paredes da gruta dois cabides de madeira espetados na rocha acumulam musgo.

A cadela acompanha-nos sempre, qualquer que seja o sítio para onde vamos. Não sofre de vertigens. Se bem que Frank não tem confiança absoluta na Selvagem. Por isso, vai-lhe deitando um olho, para ver se o animal não se põe a escavar ninhos e a incomodar cagarras. Mas, pelo que temos visto, ela porta-se bem. Na verdade, parece tão inserida na ilha que nem cheira a cão, nem tem os parasitas do costume: pulgas e carraças. Não há disso por aqui.

O caminho de volta pela falésia é mais descontraído. Frank conforta Filipe, o documentarista: "Para subir todos os santos ajudam". Buffy é mais prática e oferece-lhe o seu bordão: "Dá muito jeito porque serve como mais um ponto de apoio".

Na baía, um catamaran lançou âncora para passar a noite num local abrigado antes de prosseguir viagem. Tem hasteada a bandeira inglesa e, pelos binóculos, dá para ver que são um casal de meia-idade.

O ambiente está a mudar. Rafael, o biólogo, tem estado a estudar, entre outras coisas, o número de aves que chegam à ilha ao longo das semanas e percebeu que há flutuações regulares da população de cagarras que correspondem mais ou menos a um ciclo semanal. Ele espera que o pico máximo durante a nossa estada aconteça entre hoje e amanhã.

Às cinco da tarde, a sinfonia tem início. Vêm do mar em grande quantidade e conseguimos vê-las aos círculos sobre a baía. Vão sobrevoando as falésias, fazendo várias tentativas para aterrar. É um ritual que os investigadores ainda não conseguem explicar bem. José, o fotógrafo, veste o colete com o material fotográfico, põe os auscultadores nas orelhas e coloca-se estrategicamente numa das escarpas do portinho, para fotografar as aves. Algumas pousam a poucos centímetros dele e observam-no com desdém.

Eu e Filipe, o documentarista, escalamos com Rafael a falésia até um sítio próximo. José manda-nos embora, para mais longe: não quer que perturbemos as suas cagarras. Resolvemos instalarmo-nos 20 metros ao lado, no mesmo cabeço. É uma formação rochosa esponjosa com pequenas cavidades muito fotogénicas. Há ninhos em todos os buracos e à medida que a noite se vai aproximando todos os espaços livres são ocupados por aves e mais aves que não param de chegar a terra. Sobrevoam as nossas cabeças, piando a plenos pulmões. A falésia está sobrelotada e algumas cagarras disputam os melhores lugares, dando bicadas umas às outras. Pergunto a Rafael o que é lhe faz lembrar o som exótico que elas emitem. Ele pensa um pouco e depois diz: "O pato Donald". Talvez tenha razão. É como se milhares de patos Donald estivessem a ladrar como cães.

No regresso a casa, mais uma boa nova gastronómica. Manuel José tinha prometido e cumpriu: pôs pão a cozer no forno de lenha. Não há monotonia na cozinha. Primeiro, os faroleiros prepararam umas postas de bacalhau com alho. E as últimas duas garrafas de vinho são abertas. O sábado à noite tem de ser assinalado. A dividir por dez, o Quinta do Cardo e o Enxurros, um vinho da Madeira, são ainda assim um pequeno luxo asiático.