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Expresso

Os segredos da revolução

Vasco Gonçalves primeiro-ministro

A tensão entre Spínola e o MFA leva à queda do Governo de Palma Carlos ao fim de oito semanas. A nomeação, a 13 de Julho, do coronel Vasco Gonçalves como primeiro-ministro surpreende a embaixada (ver noutro local). Os perfis dos membros do II Governo Provisório já são mais completos. Ainda assim, estão patentes sérias lacunas e mesmo erros. Do ministro sem pasta major Melo Antunes, por exemplo, escreve-se que, “para uns tem a reputação de ser um “liberal”, para outros seria um “esquerdista” ou “marxista””. A embaixada acolhe a “impressão” de Mota Amaral, segundo a qual, Melo Antunes “é membro do PS”.

O novo executivo obriga à substituição de alguns membros do Conselho de Estado, em representação do MFA. São indicados quatro novos conselheiros: Franco Charais, Canto e Castro, Pinto Soares e Vasco Lourenço. Para além da curta biografia oficial, a embaixada nota “não dispor ainda de dados sobre a sua orientação política”.

Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa de Angola chega a Luanda a 25. Para o cônsul, Everett Ellis Briggs, tudo indica que Luanda “não mais receberá ordens de Paço d’Arcos” – um óbvio lapso do diplomata, que terá querido referir-se ao... Terreiro do Paço. O primeiro discurso do almirante “não deixa dúvidas em como deseja trazer o “espírito do 25 de Abril” a Angola”.

Tal como com Vasco Gonçalves, correm os rumores de que Coutinho seria “comunista”. Há quem afiance que foi “membro do PCP na sua juventude”. O cônsul duvida: “Não temos meios de avaliar estas acepções, mas (...) estamos inclinados a duvidar que ele seja qualquer outra coisa senão um liberal e muito determinado a separar Portugal de Angola”. A propósito, o cônsul pede a Lisboa ou a Washington informações biográficas sobre Coutinho. Elas só chegam em Outubro e são surpreendentes: o almirante “é, sem qualquer dúvida, amigo dos EUA”. Apesar de ser visto por “alguns angolanos brancos como comunista (...), não nos parece que seja de esquerda; ele é liberal na questão da independência para Angola”.

Briggs mostra-se bem informado sobre Angola e com acesso fácil aos principais intervenientes da cena política. Num telegrama sobre uma conferência de imprensa de Rosa Coutinho, não duvida em informar que “o MPLA aparece cada vez mais a ser favorecido” pela Junta Governativa. – uma apreciação que o futuro se encarregaria de confirmar.

Por sugestão e iniciativa do coronel Silva Cardoso, Rosa Coutinho recebe a 1 de Agosto vários funcionários norte-americanos, incluindo o cônsul. O resumo da conversa é enviado com a nota que “o almirante surpreendentemente não fez perguntas acerca da política norte-americana sobre Angola”.