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Expresso

Os segredos da revolução

Os dias do golpe

Na manhã de 25 de Abril, já o golpe vai a meio, a embaixada ainda se está a preocupar com a emissão de um passaporte a um refugiado polaco. O primeiro telegrama sobre a revolução é difundido pelo Departamento de Estado e assinado pelo próprio Henry Kissinger. Emitido às 9h50 para as mais altas instâncias do poder (incluindo a CIA e a Casa Branca), refere que a “revolta militar em Portugal” foi conduzida por um “Movimento das Forças Armadas” (MFA), que derrubou o Governo e levou à constituição de uma Junta de Salvação Nacional (JSN).

Com o embaixador Scott nos Açores, a caminho dos EUA, a origem das notícias são o seu vice e o adido de Defesa, que, sem tempo a perder, prefere utilizar o telefone. Mais tarde, às 14h37, Richard Post telegrafa: “Embora a situação política em Portugal seja instável e incerta, a embaixada em Lisboa, não tem informações que possam sugerir perigo para as vidas ou propriedades de americanos (...). A embaixada aconselha os turistas americanos a permanecerem nos seus hotéis até uma clarificação da situação”.

Consumada a tomada do poder pelos jovens oficiais, a embaixada faz um curto resumo do discurso, na RTP, do novo Presidente da República, general Spínola, acompanhado de uma curta biografia dos restantes seis membros da Junta. Com a anotação de que são “profissionais competentes e respeitados” mas que “não são conhecidos” no país. Tentando disfarçar, funcionários do Departamento de Estado dizem ao “New York Times” que os responsáveis pelo golpe eram “bem conhecidos em Washington” – o que estava muito longe de ser verdade. A inesperada queda do regime num país da NATO é o tema de uma reunião do estado-maior desta aliança militar. Num curto relatório assinado por Donald Rumsfeld, então embaixador dos EUA na NATO, informa-se que o golpe foi “inteiramente orquestrado pelo exército, mas que a força aérea e a marinha optaram por continuar a trabalhar para o Governo que estiver no poder”.

A 29 de Abril, Mário Soares chega a Santa Apolónia, vindo do exílio em Paris. O telegrama alusivo revela, pelos seus erros, quanto a diplomacia norte-americana estava a leste do que se passava na oposição. Ao listar as figuras que receberam o líder socialista, menciona “Manuel Guerra, que dirigiu a revolta anti-salazarista de 1962” – trata-se de Manuel Serra e a referida intentona ocorreu em 1961. Outro lapso, é no nome próprio do economista e militante católico Pereira de Moura – apontado como João, em vez de Francisco. Quanto ao MDP/CDE (Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral), uma frente criada em 1969 para concorrer às eleições), é referida sistematicamente como MD.