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Expresso

Os segredos da revolução

O reconhecimento internacional

Veiga Simão, embaixador de Portugal na ONU, prepara afanosamente a  assembleia geral. Reúne-se em Lisboa com diplomatas americanos e aborda a próxima cimeira de Spínola com o Presidente do Zaire, Mobutu, em Cabo Verde. Adiada para 14 de Setembro, “é quase certa” a presença de Holden Roberto e Jonas Savimbi, líderes, respectivamente, da FNLA e da UNITA. Acrescenta que Lisboa está “a fazer contactos secretos com o MPLA, na esperança de convencer este movimento a enviar um representante”.

Simão está confiante em que desta cimeira resulte “a melhor imagem possível de Portugal na Assembleia Geral da ONU”. Num outro encontro, Veiga Simão promete que a Administração americana pode contar com o apoio de Portugal em assuntos sensíveis para a sua diplomacia, como o Cambodja, África do Sul, Rodésia, Namíbia e Médio Oriente. A influência do ex-ministro de Marcelo Caetano é reforçada com a sua nomeação por Spínola para a Comissão Nacional de Descolonização, criada a 8de Setembro. A embaixada observa que Veiga Simão passou a ter “um estatuto quase ministerial”, reforçando a sua posição “na cena política interna”.

Organizada pelo PCP, a “semana do Chile” destina-se a protestar contra o golpe de Pinochet. Numa manifestação de rua, que passa perto da embaixada, não se regista “uma única manifestação de hostilidade”. O telegrama correspondente repara que o PCP “está claramente a evitar qualquer manifestação de hostilidade contra os EUA, mesmo quando as oportunidades parecem as mais óbvias”. Na sua opinião, o partido “está a seguir instruções de Moscovo para evitar antagonizar os EUA visando promover os esforços mundiais da União Soviética no sentido da “detente””.

Num almoço com Scott, Soares dá uma ideia do que pretende dizer no seu primeiro encontro com Kissinger, marcado para 17, no Canadá. Tenciona chamar a atenção para as consequências da crise económica, que pode “dar aos países comunistas a oportunidade de ganhar uma posição de influência” . Espera que o acordo das Lajes funcione como “um mecanismo de auxílio” a Portugal perante a “iminente crise económica”. Acentua, porém, que a sua renegociação não está de forma alguma em causa. No comentário, presente na generalidade dos telegramas, Scott nota que existe em Portugal  um “sentimento crescente de desilusão perante os elementos mais liberais norte-americanos”. O líder socialista revela ainda os resultados de sondagens particulares sobre o cenário eleitoral, que dariam 18% ao PCP, 25% ao PS e 8% ao PPD. Avisa que “uma ajuda em larga escala dos países comunistas (...) poderia impulsionar ainda mais o PCP”.

Na véspera da jornada de 28 de Setembro, ponto alto da crise que viria a levar à resignação do Presidente Spínola, Scott sugere a Kissinger que  levante o embargo de armas a Portugal. Justifica com a mudança da política africana de Lisboa, após o golpe de 25 de Abril. Refere que a “invulgar calorosa recepção” dispensada a Mário Soares nas Nações Unidas é uma “forte prova de que a imagem do Portugal colonialista se inverteu”. Outro argumento é o facto de o embargo “constituir um motivo de irritação constante para os portugueses” e revelar a desconfiança dos EUA para com os esforços de descolonização. Saem ainda prejudicados os negócios de armamento dos EUA, face à França (“que acabaram de vender mais 88 helicópteros à Força Aérea Portuguesa”) e ao Canadá.

Outra iniciativa da embaixada é o convite aos líderes do PS, PPD e CDS para o envio de observadores às próximas eleições americanas.