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Expresso

Os segredos da revolução

Nixon, o amigo americano

A 19 de Junho, realiza-se a cimeira dos Açores, entre os presidentes Spínola e Nixon. Durante duas horas, têm um encontro a sós (presenciado apenas pelo general Vernon Walters, director-adjunto da CIA, mas como tradutor-intérprete), do qual não está disponível qualquer telegrama. A iniciativa é de Spínola, que deseja fortalecer os laços luso-americanos e procura apoio para a sua política africana, contestada pelo MFA e rejeitada pelos movimentos de libertação.

O memorando preparatório da reunião aponta os objectivos de Nixon: “Promover um ambiente pessoal de sinceridade e cordialidade com o general Spínola, o que será útil aos EUA aquando das negociações para a renovação do acordo da base açoriana”, que caducou em Fevereiro e que é vital para os EUA – como se viu pelos serviços prestados durante a guerra israelo-árabe do Yom Kippur, em 1973. O documento descreve o novo Governo português como “uma equipa cuidadosamente equilibrada de comunistas, socialistas, centristas-liberais e tecnocratas não-políticos”. Este texto inclui uma curiosa lista de pontos a mencionar e a evitar na cimeira. Entre estes últimos, o debate detalhado de aspectos relacionados com o acordo da base dos Açores e propostas relativas à auto-determinação de territórios africanos.

Nixon faz-se acompanhar dos generais Scowcroft e Haig e do embaixador Scott. Com Spínola, viajam o ministro sem pasta Sá Carneiro, o embaixador Hall Themido e o general Diogo Neto. De notar a ausência de Soares. À margem da cimeira decorrem negociações paralelas entre comitivas. Com receio da influência soviética e chinesa, os portugueses pedem intervenção para  moderar os movimentos de libertação. Os americanos, porém, nada garantem. A comitiva portuguesa queixa-se do apoio financeiro fornecido por instituições norte-americanas à FNLA de Holden Roberto. Dois meses após a revolução, a embaixada faz uma análise da estrutura do poder em Portugal. As forças militares – Junta e MFA – são quem, em última instância, controla o país. Na descrição do cenário de equilíbrio de poderes, a embaixada aponta que o MFA está “apreensivo em que Spínola possa tentar construir a sua autoridade pessoal e popularidade num culto de personalidade e num género de ditadura, apesar de benévola”.