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Expresso

Os segredos da revolução

Negociações das Lajes e a oferta árabe

Nos EUA, após a resignação de Nixon (na sequência do escândalo Watergate), Gerald Ford assume a presidência a 9 de Agosto. No mesmo dia, Kissinger, confirmado como Secretário de Estado, envia um telegrama secreto para Lisboa, com uma mensagem de cortesia do novo Presidente para o seu homólogo português, general Spínola.

Simultaneamente, o secretário internacional do PS, Francisco Ramos da Costa, encontra-se com um diplomata dos EUA. O motivo é o começo das negociações sobre o acordo da base açoriana das Lajes. A embaixada está sumamente preocupada com o rumor de “uma oferta árabe ao Governo português, de 400 milhões de dólares e do termo ao embargo de petróleo, em troca não renovação do acordo das Lajes”. Ramos da Costa “confirmou com relutância aquela oferta”, mas escusa-se a dar qualquer “informação adicional”. Manifesta, tão somente, a esperança de que este facto não chegue à imprensa, uma vez que iria “complicar as coisas ao Governo”, que está apostado num acordo. (Numa breve nota, Post informa que esta história não foi noticiada).

Ramos da Costa garante que “os socialistas não causarão problemas, no Governo ou fora dele”, na renegociação. Por outro lado, confirma o que já contara a um outro funcionário: “Cunhal havia-lhe dito ter recebido instruções de Brejnev [líder da URSS] para que o PCP não criticasse os EUA publicamente”. O comentário do telegrama é elucidativo: “tanto quanto a embaixada sabe, nem os comunistas nem os socialistas criticaram os EUA em qualquer das suas manifestações públicas, ou nos seus comunicados à imprensa”.

Dias depois, Mário Soares desmente que o seu Ministério tenha recebido a oferta árabe referida pelo camarada e amigo Ramos da Costa. “Essa história não tem fundamento”. A questão já lhe fora colocada pelo Presidente da Argélia, aquando da sua participação na assinatura do acordo entre Portugal e o PAIGC. Soares admite que “o rumor original tenha sido espalhado por “agentes israelitas””.

O desmentido é feito num almoço com quatro diplomatas norte-americanos, em que também participam o embaixador nas Nações Unidas, Veiga Simão, e dois dos mais próximos colaboradores de Soares, Jorge Campinos e Manuel Sá Machado. Instado, Soares “negou que os soviéticos tenham pedido autorização para criar um consulado nos Açores”. Os americanos indagam sobre o número de funcionários da nova chancelaria soviética em Lisboa. Soares avança com o número aproximado de 23, o que leva o seu assessor, Sá Machado, a interromper, rindo, notar que “os russos teriam um staff pelo menos tão grande como o da embaixada americana”. Soares anuncia ainda que a China estava com vontade de estabelecer relações diplomáticas com Portugal, após a descolonização de Moçambique.

Agosto é mês de férias, mesmo no Portugal de 1974. Scott aproveita e passa seis semanas no seus país. A embaixada faz uma análise aos principais partidos e às suas perspectivas eleitorais – apesar das primeiras eleições só se realizarem a 25 de Abril de 1975. Os grandes partidos são o PCP, o PS, o PPD e o CDS. No entanto, “nenhum deles tomou uma decisão firme quanto à política de alianças ou linha estratégica”. Citando “a maior parte dos observadores”, prevê que o PCP “só tenha entre 18 a 20% dos votos” e que opte por apoiar “discretamente o MDP”. Quanto ao PS, “é o mais instável do espectro partidário, em virtude da sua decisão de institucionalizar no seu interior três correntes: a marxista, a católica progressista e a social-democrata”. Esta última e Mário Soares opõem-se a uma aliança eleitoral com o PCP. Não é feita qualquer estimativa sobre o “score” dos socialistas. Comparado com o PS, o PPD “é relativamente homogéneo”. Dentro do partido de Sá Carneiro, estima-se que uma eventual frente com os socialistas obteria 55% dos votos, contra 20% do PCP, 20% do CDS e 5% para a extrema-direita. O CDS, visto como “o novo partido de centro-direita”, está “cheio de dinheiro, bons gestores e uma liderança proeminente”. [As previsões da embaixada falharam redondamente. Os resultados das eleições constituintes foram os seguintes:  PS – 37,9%;  PPD – 26,4%; PCP – 12,5%; CDS – 7,6%; MDP/CDE – 4,1% e UDP – 0,8%].