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Expresso

Os segredos da revolução

Mas quem é este Vasco Gonçalves?

A figura do primeiro-ministro do II Governo é um enigma. Liberal? Marxista? Comunista? Scott vai duas vezes a São Bento para o conhecer.

A nomeação, a 13 de Julho, de Vasco Gonçalves para primeiro-ministro do II Governo Provisório causa “surpresa generalizada na maioria dos observadores”. É uma espécie de “segundo 25 de Abril”, acrescenta Scott, para sublinhar o clima entusiasta e de vitória entre vastos segmentos políticos, contrários ao projecto populista protagonizado por Spínola. Esperava-se que o coronel Firmino Miguel fosse o escolhido para chefe de Governo. O seu nome chega a ser referido, na véspera, à embaixada, pelo secretário-geral do PPD, Manuel Alegria. Marcelo Rebelo de Sousa, director-adjunto do “Expresso”, faz circular a mesma informação nos meios jornalísticos e diplomáticos. No entanto, e em poucas horas, o MFA impõe o nome do coronel Vasco Gonçalves.

Do novo primeiro-ministro “pouco se conhece”, para além de ser um dos “líderes originais do MFA” e membro do Conselho de Estado. É grande a confusão relativa ao espectro político a que pertencerá: “Muitas pessoas nos disseram que Gonçalves é um político liberal e “ideólogo” da comissão coordenadora do MFA. Outros vão mais longe e rotulam-no de “esquerdista” ou “marxista”. Uma fonte considerou-o mesmo como “o mais anti-spinolista do MFA””. Quanto à sua personalidade, a embaixada regista “um homem calmo, de poucas palavras e sem sentido de humor”. Consta que “gosta de viajar, de matemática, filosofia, música e “bom teatro””.

Do novo gabinete fazem parte oito militares, alguns deles com reputação de “intelectuais de esquerda”, como Melo Antunes, Vítor Alves e o próprio Vasco Gonçalves, o que confere ao executivo “uma orientação mais à esquerda que o seu antecessor”.

Antes ainda da posse do novo Governo, um influente banqueiro pede uma reunião urgente com Stuart Scott. A conversa decorre a 15 de Julho, na residência do embaixador, no bairro da Lapa. A fonte de Scott, que não quer ser identificada, apresenta-se como porta-voz de um grupo de banqueiros e industriais. Diz mesmo que acaba de sair de “uma reunião com dez dos mais proeminentes banqueiros do país”. O telegrama não menciona os presentes na reunião, assinala apenas a ausência forçada de António Champalimaud, o dono do Banco Pinto & Sotto Mayor, e bem conhecido do embaixador. 

O grupo de banqueiros está “desesperadamente assustado” com a que consideram ser a iminente tomada de poder pelos comunistas, que parece apenas uma questão de tempo. A ida de Vasco Gonçalves para o Governo é, dizem, “uma grande derrota” de Spínola. Acreditam que os comunistas estão a “organizar-se e a actuar com eficiência soberba”. De passagem, dizem que o PCP terá recebido 35 milhões de dólares, “cash”, da URSS e da Jugoslávia. O alarme transmitido pelo representante dos banqueiros e industriais exprime o ambiente de “desespero” e “impotência” sentido por aquela classe, escreve Scott. Resta-lhes pedir uma “intervenção dos EUA”, qualquer que ela seja, “para salvar o país do comunismo”. Entre o controle da URSS ou dos EUA, não hesitam em escolher a segunda hipótese. O embaixador não faz comentários, parece até tranquilo, até porque, nota, as opiniões em Portugal tendem a mudar rapidamente.

O II Governo Provisório toma posse a 18 de Julho. No mesmo dia, Kissinger chama Scott a Washington, para consultas. Antes, porém, o embaixador avista-se com António de Spínola, Vasco Gonçalves e Mário Soares, uma diligência que visa reunir informação para transmitir ao Secretário de Estado. A audiência com o primeiro-ministro é logo no dia seguinte à sua tomada de posse. É o primeiro encontro entre os dois. De Vasco Gonçalves, Scott retém um homem “inteligente e de alguma forma tímido” e, afinal, com sentido de humor. Mário Soares faz de intérprete para Gonçalves que, apesar de perceber francês, prefere falar em português. O coronel dá a conhecer a sua vontade de estreitar relações com os EUA. As alegadas actividades da CIA em Portugal são um dos temas da conversa. A imprensa publica quase diariamente artigos sobre a secreta norte-americana. O primeiro-ministro diz não acreditar nos rumores, mas mostra-se preocupado. Scott explica que Lisboa, tal como todas as embaixadas norte-americanas, tem um representante da CIA, cuja identidade é conhecida da autoridades nacionais.

Kissinger recebe Scott a 24. Witney Schneidman escreve (em “Confronto em África”) que a conversa esteve longe de ser agradável para Scott, que “regressou a Lisboa, não tendo mais contacto directo com Kissinger”.

Na sequência da crise do 28 de Setembro, é empossado um novo Governo, o III provisório, à frente do qual se mantém Vasco Gonçalves. A sua figura continua a suscitar dúvidas. Num relatório elaborado pelo Departamento de Estado, lembra-se que Spínola “o descrevia como um comunista”. Diferente é a opinião de Costa Gomes que confidenciou “ter apoiado pessoalmente Vasco Gonçalves para o cargo de primeiro-ministro e que ficaria surpreendido caso se viesse a revelar como sendo comunista”.

Uma das primeiras iniciativas de Vasco Gonçalves à frente do III Governo é telefonar aos directores dos jornais, pedindo-lhes “para não publicar qualquer crítica a Spínola”. Este contacto é confirmado à embaixada por Pinto Balsemão, director do “Expresso”. A razão próxima parece ter sido um comunicado de um pequeno sindicato, reclamando a prisão de Spínola – uma notícia a que a imprensa não fez qualquer alusão.

No final de Outubro, o primeiro-ministro pede para se encontrar com o embaixador, que se faz acompanhar de Post. É o segundo e último encontro de Scott com Vasco Gonçalves. O assunto volta a ser a vaga de notícias sobre a CIA nos jornais portugueses, bem como a “imagem sombria e errónea” de Portugal veiculada pela imprensa internacional. Vasco Gonçalves diz que está a “promover uma investigação para descobrir a fonte dos artigos anti-CIA”, mas lembra que “Portugal é uma sociedade livre e o Governo já não pode controlar a imprensa”.  

Pouco depois, a instabilidade política conhece novos desenvolvimentos, com o rumor de resignação de Vasco Gonçalves. Álvaro Cunhal fala mesmo de um eventual golpe reaccionário. O motivo da crise seria um alegado “esgotamento nervoso” do primeiro-ministro e que este teria ido descansar para o Norte. As fontes da embaixada são Marcelo Rebelo de Sousa e Caetano da Cunha Reis, da Juventude do CDS. As duas fontes contam à embaixada que o primeiro-ministro colocou o lugar à disposição no dia 15 de Novembro e que se travava dentro do MFA uma luta pela sucessão. Em confronto estavam a facção de Melo Antunes e de outros militares de esquerda, com um sector mais à direita, liderado pelo tenente-coronel Rafael Durão. No entanto, o telegrama dava conta do ambiente de calma que se vivia em Portugal. Como se sabe, Vasco Gonçalves só viria a cair dez meses depois, em Setembro de 1975.