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Expresso

Os segredos da revolução

Kissinger nomeia Carlucci

Descontente, mesmo irritado, com a prestação do advogado Stuart Scott à frente da embaixada lisboeta, Kissinger decide substituí-lo por um funcionário sénior e da sua total confiança. A escolha recai em Frank C. Carlucci III, que fora subsecretário da Saúde, Educação e Segurança Social. Com apenas 45 anos, Carlucci tem uma folha de serviços no estrangeiro assinalável, com passagens pelo Zaire, Zanzibar e Brasil, onde aprendeu português.

A nomeação, a 16 de Novembro, é logo conhecida em Portugal. Num encontro com Ferreira da Cunha, um grupo de visitantes soviéticos aconselha as autoridades a “não aceitar Carlucci como embaixador, por ser perigoso”. O chefe de gabinete do Presidente responde que o assunto “não lhes dizia respeito”. A embaixada sente que esta abordagem deve ser levada a sério: “A URSS pode ser uma fonte de informação para as especulações da imprensa de esquerda sobre os interesses e actividades da CIA em Portugal”, pelo que , uma campanha do género poderia afectar a “eficácia” do novo titular. Scott sugere que a embaixada soviética em Lisboa seja avisada, “de uma forma discreta, de que estamos a par deste tipo de ataques”. Para tal, Scott propõe um almoço com os soviéticos, para o qual aguarda a indispensável autorização de Kissinger. (Desconhece-se qual a sequência deste pedido).

A ajuda económica dos EUA a Portugal volta a ser discutida em Dezembro, aquando da visita do presidente do sindicato automóvel. Leonard Woodcock promete contactar o senador Edward Kennedy para, juntos, pressionarem Kissinger no sentido de um apoio financeiro. “O timing é mais importante que o valor”. A intenção é boa, mas choca com a política já definida: uma ajuda económica em larga escala só quando deixar de  haver ministros comunistas no Governo.

No mesmo mês, os representantes do PPD, Sá Carneiro e Pinto Balsemão, visitam o Departamento de Estado. Apresentam o PPD como “o único partido não marxista com possibilidade de vencer as eleições”. A força do PCP continua a ser fonte de preocupação. A previsão do PPD é que os comunistas registem entre 10 e 15 por cento dos votos. Sá Carneiro sustenta que “os EUA deveriam abandonar a atitude de “wait and see”” e adoptar uma política mais construtiva. Washington reitera a posição de não apoiar “nenhum partido político em particular antes das eleições”. Segue-se um encontro com Kissinger, para uma breve conversa e a foto da praxe.

Pinheiro de Azevedo chefia a delegação portuguesa à cimeira ministerial da NATO. Um dos três sobreviventes da primitiva Junta, coube ao almirante (e futuro primeiro-ministro) substituir o Presidente da República durante a sua viagem aos EUA. No entanto, um telegrama da embaixada reconhece “não haver informação sólida sobre o seu passado e ideias políticas actuais”. É a debilidade da embaixada mais uma vez exposta perante Washington.