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Expresso

Os segredos da revolução

Histórias

Os funcionários americanos em Lisboa registaram todo o tipo de episódios, confidências e segredos.

Galvão de Melo prepara serviços secretos

Galvão de Melo visita o Brasil em Junho. O convite – explica o general a um funcionário norte-americano – é do país irmão e visa “estabelecer contactos com os serviços secretos brasileiros, tendo em vista o seu auxílio aos esforços que Galvão de Melo está a fazer para criar o novo serviço de informações português, na sequência da extinção da DGS”. O general deixa que o diplomata leia um relatório que apresentou à Junta de Salvação Nacional, sobre a instalação da democracia em Portugal.

Mota Amaral e a independência dos Açores

Em Junho, Mota Amaral conta à embaixada dos EUA que foi contactado por Vítor Cruz, que lhe deu uma cópia do manifesto de um “Movimento para a Independência dos Açores” (MIA). Apresentado como um dos dirigentes do “centrista PPD”, Mota Amaral admite, “a brincar, que se São Tomé e Príncipe vai ser independente, porque não os Açores?”. Acrescenta que, “dependendo do que vier a acontecer em Portugal, poderá valer a pena pensar na independência dos Açores”. Quanto ao MIA, “não deve ser levado a sério de momento”.

Cônsul em Luanda sugere substituição do Governador

O Governador geral de Angola reúne-se com os jornalistas quatro semanas após chegar a Luanda. “Foi uma conferência de imprensa desastrosa”, é como o cônsul dos EUA em Luanda descreve a prestação do general Silvino Silvério Marques. Utilizou uma “linguagem enrolada, provavelmente ininteligível” para a maior parte das pessoas. “Foi embaraçoso ouvi-lo”, acrescenta Everett Briggs, que inclui uma selecção das piores respostas aos jornalistas. É porventura, um dos telegramas onde mais se sente a opinião crítica do diplomata. O cônsul Everett Briggs conclui: “Uma exibição muito triste, que ilustra a necessidade de substituir o Governador geral”.

Editorial do “Expresso” a pedido de Costa Gomes

A cobiça dos árabes pela base das Lajes subjaz ao editorial do “Expresso” de 1 de Novembro que, nos termos de um resumo feito pela embaixada, sugere que “a base aérea possa ser uma forma de os portugueses atrairem investimento árabe”. A questão ganha relevância porque se aproxima a renegociação do acordo da base. Num almoço, Marcelo Rebelo de Sousa, editor do semanário, chama a atenção da embaixada para o facto de o editorial ter sido escrito pelo director, Pinto Balsemão, “por sugestão do gabinete do Presidente Costa Gomes”. A intenção, diz Marcelo, não é tanto aceitar a possível ajuda árabe, como “alertar os EUA para as opções políticas do Governo português”.

“Bal Say Maown” e “Sah Car Ney Row”

O PPD visita Departamento de Estado, em Washington, em Dezembro. Um memorando prepara Kissinger e os seus colaboradores para o primeiro encontro os dois principais dirigentes do partido. O texto começa por uma lição de fonética: Sá Carneiro deve-se pronunciar “Sah Car Ney Row”, enquanto Balsemão deve soar qualquer coisa como “Bal Sey Maown”. O objectivo de Carneiro é mostrar que “Soares não é a única voz moderada em Portugal”. No entanto, o memorando lembra a posição dos EUA: “Não temos nenhum partido favorito” em Portugal e “ajudaremos todos os grupos políticos democráticos e pró-ocidentais”.

Guineenses recusam elogiar Cabral

Mário Soares sugere que o reconhecimento da independência da Guiné se realize a 12 de Setembro, dia do aniversário do líder do PAIGC, Amílcar Cabral (assassinado em 1973). A cerimónia, contudo, é antecipada para 10, por sugestão do próprio PAIGC. A explicação é dada a Soares pelo presidente da Argélia, onde foi assinado o acordo entre Portugal e a guerrilha da Guiné. Boumediene diz que “foram os guineenses da delegação que vetaram o dia 12 porque, do seu ponto de vista, isso seria um elogio a um cabo-verdiano (embora nascido na Guiné, Cabral era cabo-verdiano)”. Para Soares, este é “mais um indicador da gravidade da disputa racial” no interior do PAIGC.