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Expresso

Os segredos da revolução

Ferreira da Cunha, via directa

Uma visita de Álvaro Cunhal à URSS aguça a curiosidade das chancelarias. O seu propósito é alvo das atenções no estado-maior da NATO, em Bruxelas. O representante português, embaixador Lopes da Costa, após um encontro pessoal com Cunhal, tranquiliza os seus pares: “ao contrário do que relata a imprensa ocidental, a ajuda económica soviética a Portugal nem sequer foi discutida”, tendo-se limitado a um mero acordo comercial.

Com a nomeação de Costa Gomes para Presidente, a 30 de Setembro, o coronel Ferreira da Cunha assume as funções de chefe de gabinete. Semanas depois, convida Scott para almoçar e transmite o desejo de Costa Gomes de o ter como canal directo nos seus contactos com a diplomacia americana. A presidência está particularmente interessada em saber o que Kissinger discutiu em Moscovo sobre Portugal. Em troca, acena com um relato da recente visita de Cunhal a Moscovo. Scott duvida que Portugal tenha sido discutido em Moscovo, mas pede instruções a Washington com urgência.

Ferreira da Cunha reclama o estatuto de interlocutor privilegiado numa segunda conversa, mantida com Alan Lukens, director do Gabinete de Assuntos Ibéricos do Departamento de Estado. O coronel queixa-se da exclusão de Portugal do Grupo de Planeamento Nuclear da NATO e da alegada falta de confiança política que ela representa.

Em resposta ao pedido de Scott, Kissinger assegura, num telegrama secreto, que Portugal não foi tema de discussão com os soviéticos e acrescenta: “Estamos interessados no que Ferreira da Cunha nos possa contar sobre a visita de Cunhal a Moscovo, mas não queremos aparecer como se estivéssemos a pressionar para obter informação”. Com estas instruções, Scott e Lukens jantam em casa de Ferreira da Cunha, a 13 de Novembro. Os americanos informam que Portugal não foi mencionado nas conversações de Kissinger. Num acto classificado de “ingénuo”, o português mostra uma fotocópia do acordo assinado na visita de Cunhal a Moscovo. Cunha acentua a sua íntima ligação, pessoal e profissional a Costa Gomes, desde 1939, e “exprimiu interesse em manter um canal directo de informação, fazendo notar que não se podia confiar no Ministério dos Estrangeiros e noutras possíveis ligações, devido à infiltração de comunistas”. Indo ao encontro das expectativas de Ferreira da Cunha, Scott dispõe-se a “manter o canal aberto para Cunha, que pode ser útil futuramente”.