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Expresso

Os segredos da revolução

Cunhal “seduz” embaixador americano

A nomeação do líder do PCP para o Governo alarma o mundo ocidental. Scott quer conhecer Cunhal. A conversa, em «excelente francês», deixa o diplomata encantado.

A primeira referência a Álvaro Cunhal é feita a 29 de Abril, a propósito da chegada de Mário Soares, vindo do exílio em Paris. A partir daí, a embaixada passa a dedicar natural atenção ao secretário-geral do PCP – são 66 os telegramas que se referem a Cunhal durante 1974.

A conferência de imprensa de 17 de Maio é longamente reportada pelo embaixador Stuart Scott, que destaca o “tom moderado, mesmo apologético” de Cunhal. “Com a participação de numerosos jornalistas, incluindo três da URSS, foi a primeira conferência de imprensa dada alguma vez [em Portugal] por um dirigente comunista”, que utilizou o “formato de De Gaulle” – o general que presidiu aos destinos da França após a II Guerra Mundial -, “com perguntas escritas entregues previamente, permitindo ao orador responder de forma organizada e sem interrupções”. À retórica da luta de classes, “o partido acrescentou agora a paciência e a cautela como palavras de ordem”.

Ministro comunista num país ocidental – situação absolutamente ímpar -, Cunhal desperta a inevitável curiosidade das chancelarias, que desconhecem o perfil político do líder do PCP. É mesmo o tema de uma diligência feita pela embaixada da Jugoslávia junto do Departamento de Estado, a quem confidencia que “ouviu dizer de fontes romenas que o líder do PCP Álvaro Cunhal era um comunistas independente dentro do espírito romeno ou jugoslavo e não um alinhado fiel com Moscovo”. O interlocutor do Departamento limita-se a responder que “nós sabíamos relativamente pouco sobre Cunhal, mas a impressão geral é que ele era um comunista ortodoxo pró-soviético”. Este telegrama é assinado pelo próprio Secretário de Estado Adjunto, Kenneth Rush. Por outro lado, aproveitando a ida de Jorge Sampaio às Nações Unidas, o embaixador William Bennett sonda-o sobre a personalidade de Cunhal. “Sampaio foi cuidadoso (...), tendo-o descrito como muito leal a Moscovo”.

No fim de Maio, Scott pergunta a Henry Kissinger se deve contactar os ministros comunistas do Governo. Relata que estivera com todos os ministros do antigo regime e, já depois do 25 de Abril, com o Presidente, primeiro-ministro e ministro dos Estrangeiros. Seguem-se na hierarquia governamental os três ministros sem pasta, entre os quais o secretário-geral do PCP. “Seria interpretado como um acto mesquinho se eu contactasse com todos os ministros excepto Cunhal e o ministro do Trabalho”, Pacheco Gonçalves, igualmente comunista. Scott argumenta que tal diligência ajudaria a dar uma imagem mais positiva dos EUA.

O encontro de Scott com Cunhal realiza-se a 11 de Junho. Segundo o telegrama emitido no próprio dia, o diálogo decorre em francês, uma língua que Cunhal fala de forma “excelente”. O diplomata descreve o ministro comunista como falando com “bom senso, cuidado e reserva”. A conversa revela a Scott um Cunhal “afável, inteligente e imponente”. A pouca prática nas lides diplomáticas fazem-no “falar mais francamente do que devia”. Sem rodeios, aborda o assunto que o preocupa: a questão dos Açores. Cunhal defende que as negociações em torno da base das Lajes devem ser conduzidas pelo Governo que vier a ser formado após as eleições. Seja como for, deixa claro que o PCP se opõe à existência de bases militares estrangeiras em território nacional.

Scott fica encantado com Cunhal, conforme se comprova do comentário no final do telegrama: “Este é um homem atraente e com uma figura que se impõe. Insiste que não é diplomata e que fala com sinceridade, o que parece ser verdade (...). Distingue cuidadosamente, quando necessário, a sua posição de membro do Governo, da de líder do PCP. Na minha inocência, impressionou-me como sendo alguém com quem se pode lidar com franqueza e estabelecer acordos”. Desconhece-se a reacção de Kissinger a tão surpreendente elogio de um seu diplomata a um dos líderes comunistas ocidentais mais fiéis a Moscovo.