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Expresso

Os segredos da revolução

Comunistas num Governo ocidental

Scott telefona a Spínola para pedir uma primeira audiência com o novo Presidente. A embaixada especula sobre a composição do Governo em formação. A principal preocupação é “se irá incluir membros comunistas”. O nome de José Tengarrinha “é apontado como uma possibilidade, mas não excluímos o secretário-geral do PCP, o próprio Álvaro Cunhal”. Até porque a JSN pode querer “comprar o bom comportamento do PCP em troca de lugares no Governo”. O embaixador está tranquilo: “Se as nossas previsões se confirmarem, as relações Portugal-EUA não devem deparar com especiais dificuldades nos próximos meses”.

O Governo toma posse a 15. Presidido pelo advogado Adelino da Palma Carlos, trata-se de uma “coligação de centro-esquerda”, escreve Scott, e à excepção do titular da Defesa, “inteiramente civil”. A embaixada desconhece alguns dos membros do Governo, com destaque para os ministros da Defesa, tenente-coronel Firmino Miguel, da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, e do Trabalho, Avelino Pacheco Gonçalves. “Unknown to Embassy”, escreve Scott. De realçar a presença de dois ministros comunistas: o do Trabalho e Álvaro Cunhal (a quem não é atribuída qualquer pasta). As dificuldades da embaixada em lidar com a nova realidade política continuam a manifestar-se em numerosas incorrecções, tais como a insistência em apresentar o ministro Pereira de Moura como líder do PS e na designação de Salgado Zenha como candidato da CDE (frente liderada pelo PCP) em 1969, em vez da CEUD (frente conotada com os socialistas).

Kenneth Rush, o Secretário de Estado-adjunto, pede à embaixada uma análise da situação política emergente. Especial cuidado deve ser dado ao papel a ser desempenhado no futuro por figuras como Mário Soares e Álvaro Cunhal.

A primeira vez que o embaixador se reúne com o primeiro-ministro é a 21. A invulgar rapidez com que a audiência é agendada e se realiza leva-o a escrever que “este é de facto um novo Portugal” e que “o novo Governo está ansioso por manter boas relações com os EUA”. A conversa com Palma Carlos é “cordial”, com ambos a identificarem várias afinidades: advogados com larga experiência, ambos professores de Direito e ex-bastonários das respectivas ordens, novos nas lides políticas. Tal nível de identificação leva-os a tratarem-se, simplesmente, “de advogado para advogado”. Na reunião, Scott entrega uma carta de felicitações do presidente Nixon. Palma Carlos, apontado como “um homem submerso por um mar de problemas, mas determinado a ultrapassá-los”, garante a fidelidade do seu Governo à NATO.

Em Washington, o embaixador de Portugal, João Hall Themido, explica que o ministro dos Estrangeiros substituiu todos os embaixadores, porque a nova política externa do Governo “implica novos protagonistas”. A única excepção a este profundo “abanão” é Washington, onde se mantém Themido “como um sinal de que o Governo português deseja fortalecer as suas relações com os EUA”. Themido não se escusa a comentar a personalidade de Soares, que classifica de “muito moderado”. Reconhece que os comunistas “são actualmente o único partido verdadeiramente organizado” mas mostra-se “optimista em como as coisas mudarão antes das eleições”, previstas para o ano seguinte.

O Conselho de Estado toma posse a 31. São 21 membros: os sete elementos da Junta, outros sete da comissão coordenadora do MFA, e sete designados pelo Presidente da República. O telegrama que traça o perfil destes últimos e confirma os graves lapsos de informação da embaixada. Os professores catedráticos Isabel Magalhães Colaço e Henrique de Barros (cunhado de Marcelo Caetano e futuro presidente da Assembleia Constituinte!) são “unknown to embassy”. Diogo Freitas do Amaral é apontado como “associado à Opus Dei”. O documento observa que é “evidente que os militares estão determinados a controlar totalmente este órgão”, na medida em que detêm 16 dos 21 lugares.

O general Diogo Neto, na qualidade de Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, encontra-se a 5 de Junho com um alto responsável pela aviação norte-americana. O membro da JSN aproveita para apresentar uma ambiciosa lista de pedidos, desde a formação de pilotos até ao fornecimento de novos aviões. Interrogado sobre a forma de pagar o contributo americano para a modernização da Força Aérea portuguesa, Diogo Neto responde que seria ao abrigo das “negociações” do acordo sobre a base das Lajes – uma questão que estará frequentemente presente nos contactos bilaterais.

Jorge Sampaio está nas Nações Unidas a 7 de Junho. Enviado especial do ministro dos Negócios Estrangeiros, confirma a um diplomata americano ter sido convidado para representante permanente de Portugal na ONU. Acompanhado por João Cravinho, encontram-se com cerca de 30 delegações. Sampaio exprime a sua “satisfação e surpresa por nenhum dos africanos (incluindo os argelinos) com quem falou ter pressionado no sentido de precipitar a independência dos territórios africanos”.