Siga-nos

Perfil

Expresso

Os segredos da revolução

Americanos desatentos

O golpe militar de 25 de Abril de 1974 apanha a diplomacia americana e em particular a embaixada em Lisboa completamente desprevenida. Stuart Nash Scott, o representante de Washington em Portugal, nem sequer estava em Lisboa: convidado para presidir à reunião anual da Associação da Faculdade de Direito de Harvard, deixara Lisboa a 21. Como assinala Witney W. Schneidman (em “Confronto em África”, Tribuna, 2005), “na manhã do dia 25 de Abril, Scott foi acordado no seu quarto nas Lajes”, a base americana nos Açores, que visitara a caminho dos EUA. Foi o seu número dois, Richard Post, quem lhe telefonou, fazendo-o saltar da cama. Surpreendentemente, Scott não regressa a Lisboa e só viria a retomar o seu posto no dia 29 de Abril...

Advogado de Nova Iorque, com 68 anos, Stuart Scott apoiara a campanha presidencial de Nixon. Como acontece com frequência na política norte-americana, acaba por ser premiado com a nomeação para o posto de embaixador em Lisboa, vago desde Fevereiro de 1973, quando terminou a comissão do anterior titular, Ridgeway Knight.

Chegou a 10 de Janeiro a Portugal – um país de que “nada sabia”, como disse ao “Expresso” o embaixador Herbert Okun (que viria a ser o adjunto de Frank Carlucci, em Lisboa, entre 1975 e 1978). Scott apresenta as cartas credenciais ao Presidente Américo Tomás a 23, dia em que o Movimento dos Capitães divulgou dois telegramas de Moçambique sobre os incidentes na cidade da Beira com a população branca e que passaram à margem dos serviços americanos. Como explicou Herbert Okun, o então vice-chefe, Richard Post, “era um especialista em assuntos portugueses mas exclusivamente relacionados com o anterior regime”. Ligado à corrente africanista do Departamento de Estado, que suscitava as desconfianças de Henry Kissinger, Richard Post iniciara a sua carreira em 1952 na Etiópia. Seguiram-se postos quase sempre em África: Somália, Líbia, Suazilândia, Lesoto e, por fim, Luanda, onde foi o cônsul-geral entre 1968 e 1972, ano em que foi colocado em Lisboa, como número dois.

Exemplo paradigmático da desatenção da embaixada é o seu tão absoluto quanto estranho silêncio entre os dias 15 e 25 de Fevereiro, um período que marca o estertor do regime de Marcelo Caetano. A  própria publicação do livro do general António de Spínola, “Portugal e o Futuro”, a 22 de Fevereiro, só é reportada a 1 de Março ao Departamento de Estado. Os seus 50 mil exemplares, esgotados em 48 horas, “atingiram Portugal como um meteorito” e constituem uma “auto-nomeação para a liderança nacional”, lê-se no telegrama. O livro, que propõe a formação de uma federação de Estados lusófonos, como forma de superação das guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné, provoca “ondas de choque por todo o país” mas só é enviado para Washington oito dias depois...

A publicação do livro leva à destituição de Spínola e Costa Gomes da chefia das Forças Armadas. Tornada pública a 15 de Março, provoca a sublevação do regimento de Infantaria nº 5, nas Caldas da Rainha. A rebelião destes militares, muito ligados a Spínola, é prontamente abafada pelas forças leais ao regime, liderado por Marcelo Caetano e Américo Tomás. Só dois dias depois, a 18, é que seguem as notícias para Washington, praticamente baseadas nos relatos da imprensa portuguesa, sujeita, como se sabe, a uma apertada censura. Muito bem informada sobre as movimentações da extrema-direita – de que reportaria, em finais de Dezembro de 73, o fracassado golpe palaciano do general Kaúlza de Arriaga -, à embaixada escapam os crescentes protestos e movimentações dos quadros intermédios do Exército. Só no penúltimo dia de Março, num telegrama classificado de “secreto”, Scott fala de um “movimento de oficiais” que faz correr manifestos clandestinos e que está “a ganhar aderentes entre os militares nos territórios ultramarinos”. Na sua análise cita círculos políticos da extrema-direita, que admitem que uma próxima “revolta militar” já seria certamente “muito melhor planeada e executada que o impulsivo motim das Caldas”. Mas ficam por aqui os alertas da embaixada.

Na semana que antecede o golpe dos capitães, Washington recebe apenas três telegramas de Portugal. Um, de 23 de Abril, é proveniente do consulado do Porto, para dar conta de um incêndio num qualquer edifício da Universidade. Os restantes são oriundos de Lisboa: a 20, para pedir a Kissinger que reveja a proibição transmitida aos funcionários da embaixada de apoiarem “as ideias de Spínola” nos seus “contactos pessoais” de recolha de informação; a 23, sobre a próxima viagem a Angola de um sacerdote norte-americano de origem portuguesa. É este o último telegrama da embaixada dos EUA durante a ditadura de Salazar e Caetano.