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Expresso

Second Life: O jogo da vida

Portugal busca nova direcção

O marco do Cabo da Roca na ilha de São Jorge, o fado em tabernas virtuais numa Alfama de Second Life e uma Torre de Belém prestes a abrir são projectos em crescendo na utopia portuguesa.

Moinhos de vento saloios em colina descendo para o mar virtual são um sinal que o viajante de Second Life encontra por estes dias em alguns pontos da paisagem. A gesta portuguesa de Quinhentos parece querer voltar, agora que os portugueses se deitam ao mar de Second Life e aportam em novos destinos.
 
Após uma primeira leva de colonos que balizaram o terreno, surgem agora novos territórios, com novas propostas, porventura mais ambiciosas do que as iniciais. Como terá sucedido na saga do Infante, mais altos desígnios nos chamam, e isso explica que a visão de um Portugal que não é só de festa e jogo (e sexo também, estamos em Second Life) comece a delinear-se na paisagem. Esses oásis, outrora pontos dispersos num deserto para o viajante sedento de saber, começam a proliferar, invertendo a tendência. Isso explica que em São Jorge o visitante que desce dos céus, cruzando oceanos e um teletransporte para aceder àquele espaço que tanto pode representar uma ilha atlântica dos Açores como o pico de uma antiga cordilheira atlante (Second Life é sítio onde a imaginação pula e avança... como a bola de Gedeão), depare com um marco que, recorda, se lhe atravessou ao caminho no Cabo da Roca. Que fará esse marco, a lembrar os dos navegadores, longe de sua casa original?

A “culpa” é de Philip Glenbrook, proprietário da ilha de São Jorge, um refúgio bucólico que divide com Marina Xi, anfitriã que no momento da descida  inesperada do avatar ao serviço do Expresso senta ao redor de uma mesa com amigos dos quatro cantos do mundo (ou quase)... apreciando fotografias de férias. Parece um momento tirado de uma tarde de lazer na vida real, mas é um trecho da noite em Second Life. Convívio e comunicação além-fronteiras.

Selos e São Jorge

A ilha de São Jorge é, pelo nome, um sinal de um outro Portugal que vai crescendo em SL. Aqui é fruto da saudade de alguém, Philip, que buscou nas fotografias de férias no país que lhe encheu o olhar, as memórias que perpetuavam a experiência: azulejos com vistas típicas de Sintra, outros testemunhos do luso solo juntam-se na ilha onde bandeiras desfraldadas sinalizam a origem dos donos: Portugal e Estados Unidos. São Jorge porque... é o ponto português mais próximo do continente americano... Uma forma de Philipe ter mais perto de si, mesmo que através de uma vivência virtual, um pedaço da terra por que se apaixonou. A ilha que ambos ocupam é como que um farol condutor de viajantes entre destinos: um lugar de cruzamento de gente com experiências de vida diferentes. Reais e virtuais. Nos mares em redor baleias esperam os visitantes mais afoitos.

É desse potencial de troca de informação que Second Life vive, cada vez mais. O que explica que em Portucalis, lugar de referência por excelência na paisagem portuguesa, tenha aberto uma loja que clama bem alto o que vende: Portugal. O projecto de TPGLourenco Forcella, o avatar responsável pela ideia, é interessante: distribuir pedaços de Portugal num local que é também centro de apoio de novos habitantes de SL. Reproduções de selos – a filatelia é uma paixão de Rui Lourenço na vida real – são uma forma de mostrar o país, assim como azulejos e outros elementos que respiram o luso sentir. O espaço tem atraído estrangeiros, curiosos de saber mais. Os quadros podem ser adquiridos para embelezar casas, contribuindo para levar a imagem do país mais longe. E é só o começo, diz-me o jovem, que tem muitos projectos para dar uma nova imagem do luso rincão.
 
A utopia de fazer um novo Portugal em SL está a espalhar-se como um vírus pelo simulador. Isso explica que Aliobrac Oh tenha entrado por ali dentro e ficado “vidrado”. O avatar que responde por esse nome é, na vida real, Paulo Carboila realizador de filmes publicitários, entusiasta coleccionador de espólios fotográficos (compra em leilões coisas tão dispares como o retrato de Arpad Szenes e Vieira da Silva feito no seu estúdio, fotos de gente subindo de bicicleta a Calçada da Glória... ou cerâmicas de Bordallo Pinheiro), fotógrafo ainda preso à película e apaixonado pelas tradições portuguesas.

Belém e Cascais

Está em Second Life para explorar novos horizontes, com projectos de RL e SL misturando-se no palco de uma vida em cujo passado está a Ozono Filmes, responsável por algumas das campanhas mais populares em Portugal. Agora está em SL na demanda de um novo interface, algo que esboçou num caderno há cinco anos atrás e pensou poder encontrar ali. Paulo “Aliobrac Oh” Carboila é um eterno amante da luz, daquilo que ela pode fazer na modelação de formas, e o percurso ainda curto em Second Life foi feito a descobrir, por vezes em dias de 24 horas sem dormir, obcecado, adianta, como tratar texturas, criar virtualmente os sonhos rabiscados na mente. O seu primeiro trabalho em Second Life passa por Cascais, uma reprodução a abrir ao público na próxima terça-feira, e que vai ser o espaço da representação oficial de um banco, o BES. Mas essa é uma história que o Expresso contará em breve. Para já Aliobrac Oh sonha com a criação de espaços que respirem Portugal, vielas com fado soltando-se das esquinas, arquitectura e sons misturados na recriação de uma imagem do luso solo a dividir com os estrangeiros.

A utopia de Portugal passa ainda pela Torre de Belém criada pelo geógrafo e fotógrafo Fonseca Loff  em Second Life, um “novato” no mundo virtual que decidiu criar a Torre de Belém no espaço da ARCI em Belém (da série “Um cantinho de Portugal”). A Torre, que vai abrir para visitas, é um elemento novo na construção de um Portugal onde o termo cultura pretende soar mais forte. Com as sugestões esboçadas noutros sims para o Outono que se aproxima, convidando toda a gente a mais horas em casa, debruçados sobre o computador e os mundos virtuais, é de esperar que o nosso país seja mais bonito, mais amplo e inteligente. Pelo menos na vida virtual.

CURTAS DE SECOND LIFE

Controlo dos pais

Uma empresa alemã, a Beatnerworks pretende lançar um software capaz de dar aos pais o controlo do acesso a áreas de Second Life. A ferramenta, grátis, sairá do concurso lançado pela empresa em parceria com a TUV tekit, uma empresa de certificação alemã. Os concorrentes devem trabalhar em torno de um script básico, incorporando novas funcionalidades que permitam aos pais controlar a forma como os jovens viajam em SL. Aquilo que, afinal, já deviam ter começado a fazer há mais tempo...

Guerra mais virtual

Michael Macedonia, antigo responsável pelo programa de treino através de simulações do exército americano juntou-se à Forterra, empresa responsável pelo mundo virtual There usado pelo grande público, mas também pelo OLIVE, o On-Line Interactive Virtual Environment desenvolvido para treino de forças militares mas também de bombeiros ou outras organizações, civis, públicas ou militares, que necessitem de ensaiar modelos de situações, para optimizar a interacção entre diferentes elementos de um mesmo grupo. Trata-se de um passo mais na disseminação da aplicação de mundos virtuais à vida real.

SL e WoW

A LivePlanet (empresa de comunicação que reúne Matt Dammon e Ben Affleck entre outros nomes conhecidos) pretende entrar em Second Life para concorrer com a Reuters, oferecendo serviços noticiosos através do site Gridworldnews.com. Para o fazer criou a Virtual Worlds Prods, empresa que também vai cobrir a vertente noticiosa de World of Warcraft (no site Azerothwn.com), jogo de Role Playing onde 8 milhões de guerreiros de todo o mundo vivem. Uma redacção de trinta jornalistas vai “invadir” o mundo virtual e o jogo.

Europeu e virtual

O Virtual Worlds Forum Europe 2007 realiza-se em Londres, de 23 a 26 de Outubro, com o mundo virtual There (da Forterra), a IBM e a RiversRunRed como fundadores do evento... que não conta com a Linden Lab. A Lego (que vai ter um mundo virtual...), a Habbo, MindArk, (Entropia), NCSoft (jogos Guild Wars e Tabula Rasa) e responsáveis da BBC (que vai ter um mundo virtual...) marcam presença no evento.