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Expresso

Second Life: O jogo da vida

Pai do ciberespaço regressa a casa

William Gibson foi a Second Life apresentar o seu novo livro, Spook Country. Em entrevista no mundo virtual afirmou que SL não é o cenário que idealizou, mas que a Ficção-Científica é mesmo assim.

O homem que cunhou a palavra ciberespaço e o derivativo cyberpunk voltou a casa, diriam alguns dos muitos que desde bem cedo encheram o espaço destinado à apresentação do novo livro do autor de Neuromancer, Burning Chrome ou Difference Engine. Desde há um quarto de século que Gibson traça mundos fantásticos, de que Spook Country é a nova viagem. Razão suficiente para a editora Penguin, seguindo a actual tendência de mercado, levar o autor para Second Life, afinal um mundo onde muitos dos mais antigos residentes são leitores fanáticos de Gibson, cyberpunks capazes de recitar de cor páginas e páginas de Neuromancer.

A experiência de uma apresentação em Second Life está sempre condicionada à capacidade do simulador onde é realizada e a RiversRunRed, responsável pelo projecto, não calculou bem o potencial deste lançamento, pelo que se pode dizer que o regresso de William Gibson a casa não correu como todos esperavam. Começou por a assistência, que chegou horas antes do evento começar, ter de ser despejada da sala – o que em SL significa ficar num limbo, algures – para que os organizadores conseguissem colocar William Gibson – ou o seu avatar, descido num contentor – no palco.

Sem imagem ou som

Entretanto a massa de gente era tanta que se tornou impossível recuperar lugares estrategicamente obtidos horas antes. Houve que recorrer a uma área adicional, onde um grande ecrã com vídeo e áudio permitiriam a mais algumas dezenas de pessoas seguirem a apresentação.

Sinal evidente da ainda frágil tessitura de Second life quando se trata de eventos deste tipo, tudo falhou, pelo que durante boa parte do tempo nem o vídeo ou sequer áudio chegaram a uma audiência que, em muitos casos, correu apressadamente na vida real, para poder estar perto de um computador e em Second Life para o evento. Nesse aspecto, de presença de público, pode dizer-se que a visita de William Gibson foi um sucesso. Mas uma fracção dos assistentes só teve oportunidade de escutar o autor ler passagens do seu livro e o único vídeo que viu foi o documentário – excelente, por sinal – No Maps for These Territories, emitido nas horas antes da chegada do pai da cibercultura.

Saldo positivo

O som, transmitido desde a MDM – Masters of Digital Media, em Vancouver, para os estúdios da RiversRunRed em Londres, levou a voz do autor, a partir de certo momento, até todos os assistentes, primeiro numa leitura de excertos de Spook Contry, depois dando resposta a uma série de perguntas. Muitas delas já respondidas nas sessões de lançamento de livros de Gibson no mundo real. Não havia nada de absolutamente novo para perguntar, o escritor soube rodear as questões mais sensíveis em torno do que pensava de Second Life; afinal ele nega que seja o “pai” espiritual deste mundo, até porque o ciberespaço descrito em Neuromancer é algo cruel, negro, muito distinto da visão quase capitalista que parece traçar-se no horizonte de Second Life.

A experiência acabou por ter um saldo positivo, sobretudo pela dimensão de William Gibson e pelo que demonstrou de potencial de disseminação de cultura, que é porventura, a vertente em que mais se devia investir no mundo alternativo. A possibilidade de reunir num mesmo local pessoas de diversas partes do mundo para uma apresentação de um livro – ou de outro qualquer produto cultural – é algo que não é fazível na vida real. Por isso mesmo é uma enriquecedora experiência que mais e mais editores e produtores de conteúdos deviam explorar.

Para Jeremy Ettinghausen, da Penguin Books, responsável pela edição da obra de Gibson, a quantidade de mensagens recebidas dentro de SL durante o evento – onde o avatar Jeremy Neuman serviu de interface –, com um simples “obrigado por terem realizado isto, estou muito feliz por estar aqui” sugere que um novo canal de comunicação universal pode estar aberto.

Em Portugal, a Oficina do Livro, foi a primeira editora a usar SL para lançar um livro, a obra O Tempo das Cerejas, de Claudia Galhos. Para António Lobato Faria, responsável da editora, o lançamento português foi um primeiro sinal, porque “a editora está a preparar outras iniciativas em SL, dado ser sua política acompanhar as dinâmicas do mercado, aproveitando os novos canais de divulgação que a tecnologia coloca ao seu alcance.”

CURTAS DE SECOND LIFE

Capela Sistina

A Igreja Católica já tem uma presença “oficial” em Second Life, atravérs do ícone que a Capela Sistina representa. A reprodução, aprovada pelo Vaticano, tem vantagens sobre a real, dado que os avatares que a visitam pdoem voar livremente para apreciar de perto as pinturas nos tectos. Isso é impossível de fazer nas visitas do mundo real, onde somente os binóculos servem para chegar mais perto.

A voz oficial

A Linden Lab inaugurou ontem oficialmente, o uso da voz em Second Life. O programa disponível para “download” é já uma versão com o “chat” de voz integrado, colocando um novo desafio aos avatares, mas também à largura de banda das ligações. As primeiras experiências sugerem que o sistema foi bem implementado e permite uma série de ajustes por parte do utilizador. O seu uso não é obrigatório.

O Verão do Amor

Quatro décadas depois do primeiro Summer of Love, movimento de São Francisco, quando os jovens se reuniram em Haight-Ashbury para dias que tornaram o movimento hippie mais notado junto do público, a ideia repete-se em Second Life, hoje e amanhã. Procure no motor de busca por Summer of Love Festival ou Audio Sim.

300 Universidades

Segundo o jornal americano USA Today, são mais de 300 as universidades americanas com presença em Second Life. O potencial educativo de SL é a razão que as leva a entrarem e ficarem no mundo virtual, mesmo se para muitos dos alunos esse aspecto parece não ter grande importância. Numa cadeira de química orgânica só 10 dos 200 alunos de um professor estão a usar a ferramenta opcional que SL representa.

Festa em Portucalis

A “ilha” portuguesa de Portucalis esteve em festa, para celebrar o aniversário – real – de uma das suas proprietárias e sonhadoras, Winter Wardhani, mentora de Second Life (uma espécie de guia de quem chega ao mundo criado pela Linden Lab.) Um grande bolo – que ninguém conseguiu comer – cheio de velas dominou o bar O Caneco, o ponto de encontro habitual naquele espaço de lazer e convívio.

Sky News permanente

Com um estúdio e redacção a emularem a realidade, a presença da Sky News britânica em Second Life já era uma realidade há algum tempo, mas agora a estação tem uma presença constante em SL, com noticiário, o boletim metereológico, notícias do mundo do espectáculo e um televisor virtual grátis, que se pode levar para qualquer lado.