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Expresso

Second Life: O jogo da vida

Filarmónica de Liverpool dá música no outro lado da vida

A  Filarmónica de Liverpool dá um concerto em Second Life. Os jornais chamam-lhe primeiro concerto virtual, salientam que se pode ir à casa de banho e comprar doces. Disparates.

A Royal Liverpool Philharmonic Orchestra é a primeira orquestra profissional do mundo a tocar em Second Life, lê-se no comunicado na página da Internet da Filarmónica que a 14 de Setembro, pelas 19.30 horas da Grã-Bretanha toca obras de Ravel (Sheherazade), Rachmaninov (Symphonic Dances), e estreia temas de dois compositores britânicos contemporâneos, Kenneth Hesketh e John McCabe.
 
A imprensa, do "New York Times" à "Times" online diverte-se – deve ser do Verão, que aquece ânimos... e onde a falta de notícias parece ser sempre desculpa para tudo – a salientar que os assistentes do concerto podem ir à casa de banho no intervalo e a comprar doces também, esquecendo-se de fazer algum trabalho de investigação jornalística antes de lançarem as suas peças para o público. Excitados com a ideia acabam por sugerir que se trata do primeiro concerto ao vivo virtual  e do primeiro concerto profissional. Resultado: má informação.

Cem espectadores

Nem o press-release da filarmónica refere que se trata do primeiro concerto profissional (mas sim de que é a primeira orquestra profissional do mundo a tocar em SL) nem em qualquer parágrafo é referido que é o primeiro concerto virtual em SL, outro dos mimos com que a notícia foi tratada. De facto, o que a Filarmónica refere no seu comunicado é que o evento, que tem lugar numa sala especialmente criada para o efeito – reprodução do espaço da orquestra na vida real – será seguido de uma visita ao bar do Grand Foyer, onde o maestro Vasily Petrenko, o compositor Ken Hesketh e a cantora Kate Royal, ou os seus avatares, estarão disponíveis para responder a perguntas sobre o espectáculo. É, sem dúvida, um momento aliciante para os conhecedores, sobretudo aqueles que fisicamente nunca poderiam estar numa estreia da vida real. Mesmo se esta, em SL, está limitada a uma centena de pessoas, a capacidade do simulador onde o evento terá lugar.
 
Ao avançar para este concerto a orquestra pretende levar a música clássica a mais gente... mesmo se uma centena, que serão sobretudo de conhecedores ansiosos por assistir, não é uma grande audiência. Para Michel Elliiott, director executivo da orquestra, “usar as novas oportunidades introduzidas pela tecnologia” é um passo normal para “tornar a música mais acessível e encorajar novas audiências”. Uma postura que a Filarmónica de Liverpool tem tido, pelo que nem sequer pode ser acusada de ir a Second Life porque está na moda: a orquestra tem um podcast próprio e até distribui toques de telemóvel com peças clássicas interpretadas pela filarmónica.

Piadas do WC

Tal como sucedeu recentemente durante a apresentação em Second Life do musical Joined By the Heart, baseado na obra Frankenstein da escritora Mary Shelley, os espectadores podem comentar o espectáculo entre si usando o sistema de mensagens. E se o sistema de voz estiver activado, poderão mesmo falar, se bem que o mais provável seja que o mesmo seja inibido durante o concerto e activado para as conversas no bar... e na casa de banho.

Os britânicos tem uma especial queda para as piadas em torno de casas de banho, pelo que a referência neste caso é-lhes natural. Os jornalistas parecem ter-se esquecido disso.  Afinal, também no musical já citado havia um intervalo para ida ao bar e sanitários. Em Second Life continua-se a querer emular actos fisiológicos da vida real, apesar de não fazerem sentido. Foi no concerto virtual de três dias promovido pelo jornal "The Guardian" e a Intel que as casas de banho portáteis surgiram em grande destaque. Mas recordando que tudo era a brincar, ao dispararem o avatar pelo tecto empurrado por um jacto de água do autoclismo.

Clássica? Já temos...

O que é importante na notícia deste concerto é que, de facto, ele confirma o potencial de Second Life como uma plataforma disseminadora de cultura, até porque no dia após o concerto o mesmo vai estar disponível em vídeo dentro de Second Life, para todas as pessoas verem.

A música, porém, não chegou agora ao mundo virtual. De facto, o primeiro concerto virtual profissional documentado data de 2006, quando Suzanne Vega ali tocou. E a artista voltou em Julho deste ano para uma curta visita. Além de que existe um universo musical cheio de energia por todo o lado em SL, com música distribuida através de emissões de rádio online e concertos virtuais para todos os gostos, de rock a clássica. Clássica, sim...

Afinal a música clássica já está em Second Life desde há algum tempo. A 10 de Agosto o jovem estudante de matemática alemão Gideon Kappler deu um concerto em Second Life. Com 23 anos de idade, tocando  piano desde os oito, Gideon tocou Beethoven, Chopin (e algum jazz) para uma audiência de ... 49 pessoas no Sailors Cove Theater, um espaço de diversão e cultura. Não foi uma estreia porque o jovem é visita regular do espaço de há muito, tendo somente desaparecido por algum tempo devido aos estudos.

Piano virtual

Afinal, em Second Life até é possível tocar piano num modelo local, o SZ Pianofabrik Concert Grand Piano Moder D, criado por Suzanne Zeluco, e que pode ser apreciado na SZ Designs. Criado de forma a emular, até na dimensão, os pianos do mesmo tipo existentes na vida real, o piano é servido com uma colecção de temas clássicos, de Sibelius a Debussy para que qualquer avatar o possa usar. Mas se aí estamos no plano da música “automática”, a verdade é que diversos intérpretes de música em Second Life usam este modelo para os seus avatares. Gideon Kappler é um deles. Os outros, são Heath Elvehjem, Kurt Jano, Kori Travanti ou Louis Volare.

Além de ser palco musical por excelência, Second Life é também espaço de lançamento de novas propostas, até do mundo real. Isso explica que recentemente a editora portuguesa Difference tenha apresentado ali a colecção Jazzmine, que reúne os melhores temas de world beats recolhidos em todo o globo. São “músicas que fundem raízes com electrónica, a descobertas de novos talentos e a confirmação dos melhores valores”, uma viagem à volta do mundo em 12 etapas: Buenos Aires, Lisbon, Rio de Janeiro, London, Tibet, Milan, Andaluzia, Africa, Paris, Ibiza, Arabia e Tokyo.

Portugueses também

Com festas de apresentação realizadas no simulador de Portugal/Lisboa de Second Life, dos discos Buenos Aires, Lisboa, Londres e Rio de Janeiro, Jazzmine: The Finest World Beats já está disponível nas lojas do mundo real, sendo uma proposta a espreitar por quem procura saber o que se faz em termos de expressão musical urbana e requintada.

E as memórias também vivem dentro de Second Life. Depois da celebração dos 40 anos do primeiro grande encontro hippie, o Summer of Love, eis que Woodstock, que sucedeu de 15 a 18 de Agosto de 1969, renasce em formato virtual. E com uma banda portuguesa no elenco, os Produto Acabado (PA) que vão recordar o grupo Crosby Still Nash & Young. Além dos portugueses, o programa desta recriação em SL conta, entre outros intérpretes, com Juel Resistance (a cantora Suzen Juel na vida real), um dos nomes sonantes do panorama musical do mundo virtual. É hoje a partir das 19 horas... de Second Life. Cerca de três da manhã de dia 17 em Lisboa.

CURTAS DE SECOND LIFE

O sexo de Justin Timberlake

No final de Agosto Justin Timberlake entra em Second Life, com vídeos do seu novo disco FutureSex. Até ao dia 3 de Setembro novos vídeos, num total de cinco, mostrando cenas de bastidores, são apresentados como forma de publicitar o lançamento do álbum.

Durex em casa

A Sony anunciou durante o recente Festival Interactivo de Edimburgo três dos seus novos parceiros para o projecto de um mundo virtual a existir na PlayStation 3. Esse mundo, Home, mais um universo que a Imprensa em geral poderá querer tratar como coisa de crianças, vai ter como patrocinadores... a Durex, a Marlboro e a Bacardi. Tudo coisas de crianças, como se sabe.

Música e vídeo

London Live, o programa baseado no Album Chart Show do Canal 4 britânico, que já vai na terceira série, chega a Second Life através da 3DD, um fornecedor independente de conteúdos que assinou um contrato com a Virtual Life TV, um canal de televisão de SL. Com apresentação a cargo da DJ da BBC 1 Sara Cox, o Album Chart Show tem vídeos e entrevistas com figuras como Paul Weller, Pink, Franz Ferdinand ou The Killers. Em SL os avatars vão poder obter um televisor portátil que lhes permite verem o programa onde quer que estejam.

CSI virtual

Os rumores de que um episódio de CSI vai passar-se em Second Life ainda não foram confirmados mas Antony Zuiker, criador da série, vai estar na Conferência Mundial dos Mundos Virtuais, nos Estados Unidos, em Outubro, para abrir o evento. O tema do seu discurso é... como CSI:NY vai utilizar os mundos virtuais para estender a série além da televisão, tornando-a interactiva.

Forbes ataca SL

O editor da Forbes Dave Ewalt sugere que SL é um fiasco e que uma boa alternativa para convívio social é... World of Warcraft. Chega mesmo a afirmar que WoW (que se tem de comprar e depois pagar mensalmente) é mais barato... quando o download e uso de SL é grátis. E esquece que SL e WoW são coisas tão distintas que não podem ser comparadas. Alguém imagina ver um concerto virtual de celebração de Woodstock em WoW? A vertente económica continua a ser a estreita visão com que muitos olham para SL, esquecidos de que se trata, sobretudo, de uma – excelente – plataforma criativa e de comunicação. E de distribuição de cultura. Talvez isso seja mais importante.