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Expresso

Second Life: O jogo da vida

A vida sem Multibanco

As ATM de Second Life vão desaparecer da paisagem a pouco e pouco

O que mudou em Second Life agora que as máquinas dispensadoras de dinheiro se foram e os bancos fecharam? Nada, praticamente nada, descobre-se em viagem pelo mundo virtual.

A afirmação é de Tateru Nino, que mantém no blog New World Notes uma coluna regular de aferição da vertente económica de Second Life. Segundo Tateru (nome de avatar, claro): nada mudou. Desde que, há três semanas atrás, a Linden Lab anunciou que os bancos não regulamentados existentes em Second Life deviam fechar, desactivando também as respectivas ATM (o Multibanco...) até ao dia 22 de Janeiro, apesar de todos os protestos, a vertente financeira de SL não sofreu qualquer alteração visível, exceptuando um maior volume de transacções directas entre utilizadores.

Tateru é cauteloso ao afirmar que ainda é cedo para tomar uma posição definitiva sobre o assunto, mas sugere que provavelmente a vida continuará como até aqui. Aliás, os números de utilizadores inscritos diariamente - entre 16 a quase 20 mil - contribuindo para os actuais mais de 12 milhões de avatares (avatares e não pessoas, por favor...) sugerem que Second Life pulsa com uma energia imparável. Se alguém esperava o caos, como seria provável na vida real, enganou-se.

Bancos e agiotas

O Saxo Bank desistiu de fazer um banco real em Second Life apesar de entrar no mundo virtual com um projecto

O Saxo Bank desistiu de fazer um banco real em Second Life apesar de entrar no mundo virtual com um projecto

Se o leitor já se questionou como é que o encerramento dos bancos não afectou a vida do mundo virtual, tentando entender como é que o desaparecimento dos bancos e Multibanco afectaria a vida real, e fazer a analogia a partir daí...esqueça. De facto, Second Life não é o mundo real - se bem que com cada vez mais regras e leis a ideia de "o seu mundo a sua imaginação" proposta pela Linden Lab comece a dissipar-se - e os bancos de Second Life... nunca existiram. Para os que apanharam a história a meio é bom explicar que os "bancos" de que tanto se fala - e existem excepções - são sobretudo uma espécie de Dona Branca virtual, prometendo aos depositantes juros acima dos que paga qualquer instituição bancária respeitável. De facto, segundo a Linden Lab, a totalidade dos "bancos" virtuais operando em SL é ilegal, pelo que se impunha o seu encerramento, como medida de protecção dos habitantes de SL. Essa é a razão oficial, mesmo que possam existir outras, económicas, não imediatamente visíveis para o leigo. Gwyneth Llewelyn (nome de avatar), uma conhecida figura de Second Life refere no seu blog (http://gwynethllewelyn.net) algumas potenciais implicações desta medida.

É ainda essa especialista de Second Life que baliza o terreno, lembrando que um banco a sério, para efectuar pagamentos, gerir contas e pagar juros tem de estar, na vida real, credenciado para o fazer. Todos os países do mundo têm uma entidade reguladora - como o Banco de Portugal - que certifica os bancos existentes. Depois, lembra Gwyneth Llewelyn, existem indivíduos que oferecem elevadas taxas de juro, e que depois de receberem o dinheiro, muitas vezes desaparecem com ele.

Juro de 300%

Sem querer generalizar, a verdade é que os bancos de Second Life parecem encaixar no retrato acima, até porque serviam sobretudo para receber dinheiro das pessoas e não o emprestavam. Alguns perguntam como é possível oferecer juros de 130 por cento ao ano, como sugeridos por algumas dessas instituições, sem efectuarem empréstimos que garantissem lucros. Ou os miríficos 300% anunciados por alguns, como resultado da explosão económica de Second Life. É o mesmo que acreditar em quem nos aborda na Praça do Comércio, em Lisboa, e aponta a ponte sobre o Tejo sugerindo que a podemos comprar e começar a receber o dinheiro das portagens de imediato. Ele há (havia, pelo menos, há anos) gente que ainda perguntava: então e quanto custa?

A verdade é que o tema dos bancos virtuais em SL está no ar há algum tempo, desde o caso Ginko, que no Verão abalou a comunidade de SL, como primeiro sinal do que podia acontecer quando se acreditava ser possível ganhar dividendos com a aposta em esquemas de pirâmide. O Ginko oferecia 44 por cento ao ano, uma taxa impossível que levou ao desfecho infeliz para alguns: os seus investimentos volatilizaram-se. A história nunca foi totalmente esclarecida, mas o Illinois Business Law Journal, dos estudantes de Direito do colégio local oferece um excelente artigo sobre o tema, para quem desejar aprofundar o conhecimento da história. Procure em http://iblsjournal.typepad.com/illinois_business_law_soc/2007/02/virtual_bank_re.html.

Dinheiro para quê?

No Banco Espírito Santo em SL, a divulgação do que é o banco no mundo real é a aposta, actualmente

No Banco Espírito Santo em SL, a divulgação do que é o banco no mundo real é a aposta, actualmente

O desaparecimento das ATM da paisagem de Second Life não veio, portanto, afectar, pelo menos de uma forma visível, o quotidiano do mundo virtual. Afinal, o dinheiro nem é uma necessidade premente dos habitantes de SL. Ali não é necessário comer, dormir, comprar roupa (pode-se mas não é obrigatório) e mesmo para viajar de um lado para o outro o passe da Carris é dispensável. E o dinheiro que existe, é a própria Linden Lab que o diz por vezes "é de brincar". Quando se faz um câmbio o que se está a comprar é dinheiro virtual, como que fichas de jogo. Como numa espécie de monopólio gigante. Online, neste caso. Desde quando é que a queda da banca num jogo de monopólio se tornou notícia?

Existem, claro variadas nuances em toda esta história. Uma delas, que pode ser verdade, é que a Linden Lab, a par com a necessidade de defender os habitantes de um esquema que começava a tomar proporções demasiado evidentes - é bom recordar o que sucedeu aos casinos virtuais após a investigação do FBI: fecharam - cortando o mal pela raiz, está a preparar o terreno para as instituições bancárias do mundo real.

Os bancos a sério

Gwyneth Llewelyn afirma acreditar que em breve as verdadeiras instituições financeiras entrarão em Second Life. Defende que nenhuma das actualmente existentes no mundo virtual tem capacidade de ser aceite como credível e que não será um Citibank a marcar presença, mas que pequenas instituições, bem como consultores financeiros podem bem olhar para o espaço como uma nova área de negócio.

De facto, até os bancos reais já estão em Second Life, mas nenhum deles empresta dinheiro ou realiza actividades idênticas às do mundo real. O historial da presença bancária no mundo da Linden Lab faz-se em poucas linhas. A Wells Fargo entrou em Setembro de 2005 e saiu logo em Dezembro. O ABN Amro foi o primeiro banco europeu em Dez 2006... mas não há muito mais para contar. O banco suíço BCV abriu portas em SL em 2007... e é isso. Usa o espaço para explicar o que é o banco e para exposições, denotando uma preocupação cultural. O BNP Paribas abriu uma pequena área de teste em 2007... o IGN Bank abriu um espaço e um blog e ponto final. De vez em quando surgem notícias sobre cartões de crédito, abertura de sedes virtuais, mas depois tudo acalma.

O banco dinamarquês Saxo Bank, uma das instituições com mais experiência de uso de serviços online, é um bom exemplo de sonho e realidade. Pretendia, ao entrar em Fevereiro de 2007, fazer um banco a sério... Em Dezembro passado numa entrevista para uma publicação especializada, Lars Christensen, responsável do banco, salientava que o espaço era ideal para comunicação com os clientes e afirmava que dada a inexistência de um banco central (espécie de Banco de Portugal) não é viável fazer coisas a sério. Além disso ninguém sabe, admite, o que será do Linden dólar amanhã. Esta é a realidade bancária de Second Life. O Saxo Bank tem jogos financeiros de brincar disponíveis no seu espaço...

E em Portugal?

Neste canto ibérico o Banco Espírito Santo é o pioneiro na presença bancária nacional em Second Life. Quem passa por lá com alguma regularidade descobre que a Assistente BES de serviço, das 8 da manhã às 24 horas, deve passar muito tempo à espera do próximo cliente. Desde a inauguração em Julho de 2007, o número de visitantes foi de... 2713, lia-se no balcão na última visita que o Expresso realizou, em busca de uma ATM qualquer para usar. Não existe, claro. Aliás foi-nos bem explicada a presença do BES na marina virtual de Cascais.

O BES está no Second Life para divulgar os seus serviços e pronto. Não há Multibanco virtual, não há empréstimos, nem sequer para negócios prometedores dentro do mundo. Ou haverá, mas são tratados cá fora, com dinheiro real e assinatura em papel. Não num "notecard" que pode desaparecer num qualquer "crash" do computador.

Resumindo. Os bancos reais presentes em Second Life estão lá para promover a sua imagem. Os bancos virtuais, que não poderiam existir senão ali, brincam aos bancos reais. Ou brincavam, que as ATM já foram desligadas. Poucos o parecem ter notado.

A Luta continua

Afinal, aquelas imagens pintadas nas paredes a seguir ao 25 de Abril não se foram. Estão em SL, no projecto Os Homens da Luta em Second Life (www.homensdaluta.com) e estendem-se até à SIC Radical, onde quarta-feira passada arrancou uma série filmada em Second Life. Com recurso às diversas técnicas audiovisuais disponibilizadas pela plataforma do SL, o projecto "" recria e reinventa novas soluções na área da realização cinematográfica, implementando novas soluções a nível de produção, cenários, anotação, casting, direcção de actores, etc . Um nome a reter, sem querer esquecer a equipa, é o de Hugo Almeida, aka o avatar Halden Beaumont. Explorado do machinima. Espreite em http://hugoalmeida.folha.eu/2007/11/18/windlight-no-second-life-em-alta-definicao/.

Jazz virtual

A Associação Grémio das Músicas (www.gremiodasmusicas.org) inaugura no sábado a sua sede virtual em Second Life (http://slurl.com/secondlife/Teffelaw/253/93/28) com "Nanook" blues, standards e covers. Quem o diz é Ze Eduardo, presidente da associação. Depois, os projectos em SL passam por música ao vivo, com dois a quatro concertos por mês, uma escola para dar formação (paga com dinheiro real e não Lindens, dizem-me) e posteriormente formação profissional. Tudo começa no Algarve. Virtual, claro.

Jaimão esteve aí

O músico Jaimão esteve em Lisboa para um concerto. Em Lisboa do Second Life, claro. O criador de temas como "e o calimero foi...à abelha Maia", chegou finalmente ao Second Life. O concerto foi de casa cheia e parece que ninguém saiu ferido. Na susceptibilidade.

Ninguém pára a NASA

A NASA continua muito interessada em tudo o que são mundos virtuais e agora organizou um workshop a 26 e 27 de Janeiro, em torno de três temas candentes para a agência espacial norte-americana: a ideia de que todos podem participar, independente dos seus conhecimentos ou origem, a possibilidade de exploração remota com base em modelos criados com dados recolhidos e a discussão sobre um tempo em que as fronteiras entre real e virtual serão tão ténues que será difícil saber onde uma acaba e a outra começa? É isso que queremos, pergunta a NASA? Saiba mais em http://amesevents.arc.nasa.gov/virtual-worlds/.