Siga-nos

Perfil

Expresso

Referendo sobre o Aborto

Padre defende voto no Sim

Um padre da Diocese de Viseu apelou ao voto no Sim e justificou. O povo não perdoa e pede a expulsão de Manuel Costa Pinto. “Está possuído pelo diabo”, avançam os mais radicais.

Quando na quarta-feira passada o padre de Viseu, Manuel Costa Pinto, 79 anos, justificou o seu voto no Sim, não previu que a sua opinião despertasse tantas paixões, mas principalmente, tantos ódios.

O padre, que não tem paróquia atribuída e apenas diz missa quando lhe pedem – sobretudo nas paróquias de Lordosa e Ribafeita –, justificou o voto no Sim com a necessidade em acabar com a humilhação das mulheres em tribunal e o “verdadeiro infanticídio” a que obriga a lei actual.

“Matador de inocentes”

A resposta não se fez esperar: “Mas que anda esse homem a fazer na Igreja? Só pode ter expulsado o Espírito Santo e admitido o diabo para chegar a esse ponto”, indigna-se Domingos Alexandre de 70 anos que costuma assistir à missa em Ribafeita, onde as reacções à posição do padre foram mais inflamadas. Na opinião deste católico praticante a Igreja deve ser tolerante e saber perdoar, mas com limites. "Há pecados que não têm perdão e o que ele disse foi horrível. É um segundo rei Heródes, é um matador de inocentes. E ainda por cima é um homem da Igreja", conclui revoltado.

O pároco que esteve 17 anos suspenso por escrever um livro em que defendia o casamento entre padres, vê a sua irreverência trazer-lhe novamente alguns dissabores. A expulsão começa a ser falada até entre aqueles que nunca tiveram nada a apontar a Manuel Costa Pinto.

Maria Ester Boloto não podia estar mais de acordo. Fiel devota, diz que Ribafeita 頓uma terra muito religiosa”. Ester aproveita para fazer uma comparação com a Alemanha, caso no próximo dia 11 vença o Sim. “Quem for religioso tem de o ser até ao fim. Ele está a dar maus exemplos, devia era dizer que apelássemos ao Não. Na Alemanha, onde o aborto foi legalizado já não há crianças, só pretos. Querem que Portugal fique igual?”.

Reacções mais moderadas

Em Lordosa não se falou em Heródes nem houve comparações com uma Alemanha imaginária. Nesta paróquia os ânimos estavam mais calmos, até porque Manuel Costa Pinto já tinha assumido a sua posição há algumas semanas. Hoje, embora continue a dizer que “nem com ordem do Vaticano votava no Não”, reconhece que podia ter agido de outra forma. "Sei que foi um erro ter dito que votava Sim durante uma missa. Mas estava a falar da misericórdia de Deus, em Jesus ter perdoado mesmo a mulher adúltera e saiu-me, espontaneamente", contou hoje à Lusa.

Os fiéis mais moderados tentam compreender quem sempre foi visto como um bom homem. “Ele só disse que votava Sim. Não disse para toda a gente votar como ele. Disse aquilo que lhe estava na ideia, porque é muito espontâneo”, defendeu Arlindo Duarte que ainda não decidiu como vai votar no domingo.

Nesta paróquia, embora se perceba que a maioria das pessoas seja conservadora, nota-se uma maior tolerância à “coragem” ao padre. "Este padre teve coragem. Quanto aos outros, que defendem a excomunhão de quem votar Sim, não vivem neste mundo", sublinha o indeciso Arlindo.

Por outro lado, Fernanda Ferreira de 40 anos, que já decidiu colocar a cruz no Não, considera que Manuel Costa Pinto “foi um homem corajoso” mas, “se calhar, enquanto padre, não devia ter dito o que disse”, até porque, na sua opinião, “há limites” para o que os padres defendem e dizem.