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O baile da Anémona

A Praça Cidade S. Salvador, em Matosinhos, possui uma das mais belas rotundas do país, com uma escultura da norte-americana Janet Echelman. Inscrições (gratuitas): passeiosporto@expresso.pt

 

No princípio quiseram chamar-lhe "She Changes". Também houve quem lhe chamasse "She Moves". A ideia seria sempre a mesma. Quem olha para a imponente escultura concebida no âmbito do Programa Polis pela artista norte-americana Janet Echelman para a Praça Cidade S. Salvador, em Matosinhos, fica de imediato preso à ideia de movimento e rendido às intermináveis e sempre surpreendentes coreografias provocadas pelo vento que passa.

Echelman apostou na criação do factor surpresa, implícito na constatação de que é uma escultura virtualmente diferente em cada minuto.

Dedicada aos pescadores de Matosinhos, foi da comunidade local que emergiu a designação que agora todos usam e para sempre identificará aquele objecto singular: Anémona. Foram-se as expressões inglesas, ficou a força de uma designação também ela capaz de remeter para a ideia de um movimento inconstante, fluído e elástico.

Inaugurada em Dezembro de 2004, a Anémona finalizava o projecto de requalificação urbana e de valorização ambiental da marginal de Matosinhos.

Para apreciar com tempo

Pela sua volumetria, pela sua especificidade, é uma escultura incompatível com a urgência do olhar.

Exige, para que possa ser desfrutada na sua totalidade, a indispensável disponibilidade de tempo que faz com que nenhum minuto pareça uma eternidade.

É preciso deixar correr as brisas ou as ventanias, para que o olhar melhor se delicie com as danças daquela gigantesca metáfora das redes de pesca, suportada por três postes metálicos pintados de vermelho e branco, um deles com 60 metros de altura.

A rede, também vermelha e branca, está suspensa num anel de 42 metros de diâmetro e é constituída por um material sintético – «tenara» – especialmente construído por uma empresa norte-americana contratada pela escultora.

Para lá de uma função que, de início, pode ser tida como meramente instrumental, os postes não se limitam a sustentar a rede. Assumem uma decisiva intervenção nos jogos de luzes nocturnos.

Uma anémona de meio milhão de euros

Contribuem para criar um novo e estranho objecto aparentemente brotado da escuridão do mar. Sob a rede há um imenso espaço relvado que preenche a rotunda e abriga um fosso transformado em depósito a partir de onde jorra a luz destinada a criar, à noite, a ilusão de novos volumes, outras formas, outros modos de ver e sentir a anémona.

Como qualquer corpo vivo, também esta Anémona adoeceu, apesar de ter custado mais de 500 mil euros. Pouco mais de dois anos após a inauguração, no início de 2007, começaram a ser detectados sinais de que algo não estava a correr bem.

Independentemente de poder ser este um bom motivo para lançar a reflexão destinada a tentar perceber se as obras de arte pública devem continuar a ser perenes, ou, pelo contrário, é admissível atribuir-lhes um prazo de validade, o certo é que em Matosinhos ninguém gostou de ver a «menina dos olhos» da cidade em decadência.

As redes começaram a ficar esburacadas, a desprender-se dos aros e postes metálicos, e passaram por indisfarçáveis mudanças de cor. A Câmara Municipal de Matosinhos iniciou contactos com a escultora norte-americana com o objectivo de a responsabilizar pela recuperação da obra.

Num primeiro momento Janet Echelman não se mostrou muito disponível para atender à reclamação do município português, mas a entrada em cena de advogados rapidamente a fez perceber que não tinha por onde escapar.

Ultimato à escultora

A situação evoluiu e Echelman, apesar de se mostrar espantada com a descoloração da rede e, sobretudo, incrédula quanto à possibilidade de terem sido os ventos e a humidade a degradar a escultura, acabou por se disponibilizar para assumir todas as despesas indispensáveis à reparação.

Janet está convencida, segundo declarações prestadas à época a alguns jornais portugueses, que terá sido a poluição de Matosinhos a provocar a decomposição das partículas da superfície da rede, o que as teria feito perder o tom inicial.

Na altura foi ainda revelado que a empresa norte-americana detentora da patente para o fabrico do material de que é feito a rede terá submetido a fibra a testes extremos durante mais de 20 mil horas, sem que se tivessem verificado alterações significativas.

Agora parece estar tudo em vias de ser ultrapassado. Segundo Fernando Rocha, vereador da cultura da Câmara Municipal de Matosinhos, «está tudo acertado com a escultora, mas não está tudo resolvido».

Pelo contrato assinado com a autarquia, diz Rocha, Janet Echelman «teria de assegurar a manutenção durante cinco anos. Agora foi-lhe dado um prazo de noventa dias para resolver o problema». A escultora garantiu que em breve se deslocará a Matosinhos com uma equipa da sua confiança para acabar com as mazelas da Anémona.