Siga-nos

Perfil

Expresso

Natal Actual

Uma estrada chamada tradição

Ele ao volante, ela ao lado, a tarde a escoar-se. Seguem pela estrada de sempre, de volta aos natais de quando o avô dele era vivo.

Ele e ela não têm pressa mas o ritmo dos outros carros impõe-se-lhes. Avançam no limite da velocidade pela estrada acanhada de mais para tanto caminho que já nela foi feito, que nela ainda será feito.

Dantes, a avó matava uma galinha para a canja e um peru para o assado e todos se sentavam à mesa grande de madeira maciça aquecidos pelo borralho. É à mesa que tudo se resolve, dizia o avô. Mas nunca resolveu a tristeza da avó que o sabia, às noites, nos braços da amásia que vivia do outro lado da aldeia.

Os carros começam a abrandar até que param. A fila compacta reforça a ideia de estrada interminável.

Na cidade, o pai afirma: é à mesa que tudo se resolve. A mãe compra o bacalhau e o peru já limpos e embalados e sentam-se todos à mesa de abrir da sala de jantar.

Continua tudo parado. Nada mexe no lusco-fusco. Muitos carros têm as portas abertas e os ocupantes estão pela estrada numa desarrumação inusitada. Não se percebe o que se terá passado. Alguma coisa terrível, com certeza. Mas, mais cedo ou mais tarde, os carros recomeçarão a andar para os seus destinos. Todos sabem isso.

Ela diz: esta estrada é feia. Ele olha em volta: sim, esta estrada é feia. Como é que nunca tinha reparado nisso antes?

Para além do baldio da berma, há uma estrada de terra batida. Ele e ela entreolham-se, entendidos um com o outro. Ele põe o motor do carro a funcionar, acende os médios, manobra para fora da estrada de sempre. Se se perderem não faz mal. Descobrirão um caminho. Escolheram ter tempo. Não têm pressa.

(continua)