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Expresso

Natal Actual

Uma casa aos pedaços

Era cedo e fiquei sentado na cama, os cobertores e o lençol a puxarem para baixo.

A caixa de legos na frente. Estava ainda a dormir e custou-me rasgar o papel que embrulhava a embalagem. Era rectangular e tinha ainda outro plástico, entre mim e as peças, como uma montra ou uma parede que era preciso desfazer. Não me lembro de outra quadra em que aquilo que eu queria e o que obtivesse coincidisse tanto. Eram dez horas na manhã de Natal e só havia esta prenda. Era uma e vinha aos pedaços. Mas com ela fiz casas amarelas, azuis e vermelhas toda a manhã. Ou antes, construí sempre a mesma casa, sobre uma plataforma verde onde tudo segurava sem dificuldade. Não sobravam muitas peças para as figuras humanas. Era tudo usado no esforço de fazer uma morada. Arrancadas por mim, à imagem dos adultos, do fundo de uma caixa de cartão e transportadas a pulso para a luz, para que não ficassem apenas paredes duras entre a criança que eu era e o mundo afectuoso que idealizava. E mesmo geométricas, mesmo com a rigidez de que não se conseguiam livrar, ainda assim as peças se transformavam em pessoas. Na pessoa possível.

Era cedo quando ouvi a voz dos meus pais, nessa manhã de Natal, e me ergui do sono empurrando o peso da roupa de cama. E não me lembro de estar frio. Apenas das mãos que se estendiam na minha frente, segurando um objecto que adivinhava e, por um momento, só por um momento, acreditei que daí em diante tudo passaria a ser assim. Eu e a recompensa inesperada. Eu e a suavidade das mãos.