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Tradição - Moby Dick (3)

No livro de Melville, Moby Dick, são apresentados inúmeros exemplos de que quando certos hábitos físicos se tornam emocionalmente necessários o homem deixa de os ver como exteriores a si e passa a ser incapaz de exercer sobre eles uma reflexão crítica. A rotina de varrer o convés todas as tardes, por exemplo, leva a que essa operação seja feita mesmo em navios no momento em que se afundam; e é tal a «inflexibilidade dos costumes marítimos» e o instinto de ordem e asseio que muitos marinheiros, escreve Melville, não se deixariam afogar «sem primeiro lavarem a cara».

O romance Moby Dick, aliás, começa com Ismael, o narrador, cristão, a ver-se obrigado a dormir numa estalagem na mesma cama de um canibal, Queequeg, que obviamente adora outros deuses. Mas, como não há mais camas, Ismael partilha os lençóis com esse homem, que entra no quarto trazendo um pau onde estão penduradas várias cabeças humanas que naquele dia não conseguiu vender. Ismael, na manhã seguinte, acorda com um braço do canibal em redor da sua cabeça, num estilo classificado como de «matrimonial». Mas tudo bem: «Antes dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão bêbado», murmura Ismael.

Ainda nos preparativos da viagem, um capitão fica escandalizado quando sabe que o companheiro de Ismael (rapidamente se tornaram amigos) é canibal - ele, o capitão que selecciona o pessoal para embarcar, como bom cristão, «não admitia canibais a bordo, a menos que apresentassem previamente os seus documentos».

A tradição, como vemos, por mais que separe dois homens não deixa de estar submetida a urgências que a dominam.

Em Moby Dick, muitas religiões surgem, e com elas rituais insólitos, a «religião do remo», por exemplo; mas ainda mais relevante é esse extraordinário esqueleto de uma baleia que havia sido transformado em templo, no alto do vale de Pupella (cap. CII). O crânio da baleia fora transformado em altar, e sacerdotes rodeavam, agora, fascinados, este templo.

«Lá dentro não vi nenhuma coisa viva; nada havia além de ossos», murmura Ismael, incapaz de perceber aquela tradição religiosa.

E eis que, então, Ismael, pegando num «ramo verde como medida», mergulha no esqueleto e começa, de uma ponta à outra, a medir a altura dos vários ossos. Os sacerdotes daquele templo tão particular revoltaram-se e numa frase concentraram o argumento central de todos os conflitos religiosos, contemporâneos ou antigos:

«Como te atreves», exclamaram, «como te atreves a medir o nosso deus?»