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Prendas - Moby Dick (2)

«O homem, embora ame o seu semelhante, é um animal feito para ganhar dinheiro, propensão que, com demasiada frequência, interfere com a sua benevolência» (Moby Dick)

No livro de Melville, Moby Dick, há um extraordinário capítulo (XCIX), intitulado «O Dobrão». Nele se relatam as diferentes visões e interpretações de uma moeda de ouro que fora pregada ao mastro por Acab, o «monomaníaco», e prometida ao primeiro que avistasse a baleia branca. Várias personagens do romance vão passando à frente do dobrão de ouro, tentando interpretá-lo. Que significado tem aquela prenda potencial, aquela moeda? É um capítulo sobre hermenêutica. Diferentes personagens observam as imagens e letras gravadas na moeda, as pequenas falhas, a sua forma circular: «Pesa-se a felicidade e verifica-se que tem peso a menos», pensa um; outros, por seu turno, interpretam os signos e tentam prever o futuro da expedição tendo por base sinais que o dobrão apresenta. O fascínio por esta moeda é, para alguns, surpreendente:

«Não vejo nada aqui», diz Stubb, um dos oficiais, «a não ser uma coisa redonda feita de ouro, que pertencerá a quem descobrir uma certa baleia. Por que razão tanto a observam?»

Uns olham a moeda e prevêem o dia exacto em que a Moby Dick será capturada - «dentro de um mês e um dia»; o canibal Queequeg, esse, relaciona qualquer sinal no ouro com a sua própria coxa e com outros sinais do corpo. («Cá temos uma outra versão, mas é sempre o mesmo texto», murmura o observador desta cena.)

Finalmente surge o louco do barco, Pip - ele também «tem estado a observar todos estes intérpretes, (...) e agora ali o temos, vai ler, com aquela cara de idiota do outro mundo».

E o que diz o louco frente à moeda? Diz isto:

«Eu olho, tu olhas, ele olha; nós olhamos, vós olhais, eles olham.»

Bem, há quem com condescendência murmure que o pobre louco, para aperfeiçoar a mente, esteve a estudar gramática.

Mas talvez não. Talvez a lengalenga que o louco repete frente à moeda, depois de observar atentamente os sucessivos observadores, seja não uma tentativa de decorar gramática mas um lúcido comentário sobre o que é o mundo e a sua interpretação.

«Eu olho, tu olhas, ele olha; nós olhamos, vós olhais, eles olham.»

Eis a mais sensata e profunda das lengalengas. Eis como deve começar qualquer conferência sobre hermenêutica ou justiça, significado dos presentes de Natal ou interpretação da História, crítica literária ou política económica.

«Só há grandes penas e pequenos lucros para os que pedem ao mundo que lhes dê uma explicação; o próprio mundo não pode explicar-se», reflecte o capitão Acab, diante da moeda.